Coluna: Prezamos o conteúdo em si ou como ele favorece nossa visão de mundo?

Foto: Reprodução/Facebook

Recentemente o presidente da república Jair Bolsonaro mais uma vez contrariou um de seus ministros. Ele afirmou que a vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela Sinovac e testada pelo Instituto Butantã não será comprada pelo governo federal. Indo contra o anúncio feito pelo ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Bolsonaro inclusive chegou a dizer que o general estava “tentando aparecer que nem o Mandetta”.

Bolsonaro disse que a vacina que for ser usada para população deverá ter comprovação científica pelo Ministério da Saúde e ser certificada pela Anvisa. A frase em si não está errada. O conteúdo é sensato. A questão está no fato de que ela partiu do mesmo líder político que provavelmente foi o maior defensor da cloroquina para tratamento do novo coranavírus, mesmo com os estudos apontando para sua ineficácia para essa doença.

O divulgador científico e palentólogo Pirula apresentou por um tempo um talk chamado “A Ciência Só Está Certa Quando Concorda Comigo” em que ele abordava a questão da ciência e seus fatos serem usados em debates para validar um ponto de vista de uma pessoa, e essa mesma pessoa ignorar a ciência quando está apresentava fatos que de alguma forma contrariavam suas ideias.

Aqui neste texto quero ir um pouco além da ciência que imaginamos que envolve pessoas de jaleco, tubos de ensaio, e falar sobre conhecimento acadêmico de modo geral. É fato que tivemos muitas manifestações nos últimos tempos em defesa das faculdades. O que é ótimo. Mas parece que certos conhecimentos produzidos ou difundidos nas universidades não são defendidos com tanto ânimo assim.

Foto: Reprodução/YouTube

Ilustro isso com o caso recente do divulgador científico e biólogo Átila Iamarino. Ele ganhou muita notoriedade ao falar sobre o coronavírus e também sobre as medidas que deveriam ser tomadas para evitar o pior dos cenários: a lotação dos leitos hospitalares. Meses já se passaram e Átila continuou falando sobre a pandemia, mas também de outros assuntos como já fazia em seu canal no YouTube e também no Nerdologia.

Átila desde o início da pandemia foi não apenas criticado, mas também xingado e menosprezado por apoiadores do Bolsonaro e pessoas que diziam que o vírus não era tão grave assim. O argumento principal era o de que ele teria dito que “1 milhão de pessoas morreriam no Brasil”, baseados em uma fala tirada de contexto tanto por essas pessoas quanto por veículos de jornalismo que usaram essa fala de título nas chamadas.

O biólogo explicou posteriormente o que eram esses “1 milhão de mortos” e manteve seu trabalho sobre a pandemia atualizado ao longo do tempo. Mas ele virou alvo de ódio e zombaria por essas pessoas, acredito dizer, de modo permanente.

Mas o interessante de se observar é que o mesmo está acontecendo só que vindo de pessoas de esquerda. E isso chama a atenção porque na internet e pessoas que se dizem progressistas e ativistas, Átila era o “porta-voz da verdade”. Em parte por acreditarem no que ele dizia sobre o vírus. A outra, porque o que ele dizia ia contra o que Bolsonaro falava e fazia.

Essa “insatisfação” com Átila nesse grupo começou nas partes mais radicais quando ele disse que era necessária cautela com relação a vacina Sputnik V feita pela Rússia devido e que se dizia que já começaria a ser aplicada ainda em outubro. Mesmo sem as informações e dados comprovando sua segurança na época.

Mesmo a Rússia sendo um país cuja existência de sua democracia plena é questionada por especialistas e figurando abaixo da posição de número cem no Democracy Index, e com uma política contra os LGBTs que pode ser vista nos programas estatais e de forma mais explícita e cruel, na política de extermínio na Chechênia, ainda assim é um país que tem sua estima entre os mais radicais por ser a nação que um dia foi a União Soviética e por ser um contraponto na geopolítica aos Estados Unidos e Ocidente.

Vídeo do Nerdologia: “O livre mercado é um computador”.

Mas a coisa azedou mesmo após o vídeo do Nerdologia sobre livre mercado. Aí a única diferença está no volume de massa mesmo, por que as críticas sem fundamento e zombarias só trocaram de lado. Vi um vídeo que comparava o estudo de Hayek apresentado por Átila com “fake news”.

Eu não estou dizendo que todas as pessoas de esquerda e todas as pessoas de direita pensam iguais e que todas elas ficam ofendidas e partem para zombaria quando suas ideias e visões de mundo são contrariadas por estudos e pesquisa. Mas que infelizmente essas são as pessoas que se destacam no debate online que, como pudemos observar com a eleição de Bolsonaro, é um espaço de debate que não pode ser ignorado.

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