Divulgadora científica: Gabriela Bailas aborda o espaço das mulheres na ciência e o perigo das pseudociências

Foi em 2010 que criadores de conteúdo no Brasil começaram a bombar no Youtuber e o modelo de vlog se popularizou no país. Mais tarde, diferentes influenciadores começaram a abordar diferentes temas, entre eles ciência. Um dos nomes mais conhecidos no meio é o paleontólogo Pirula e o provavelmente mais conhecido hoje, mesmo fora da internet, é o biólogo Átila Iamarino.

Mas não são apenas homens que produzem conteúdo informativo e científico para a plataforma, muito pelo contrário, há também cientistas mulheres, entre elas, a física Gabriela Bailas. Formada em Física pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), com mestrado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e doutorado pela Université Blaise Pascal, na França com uma bolsa oferecida pelo CNRS, órgão público francês de pesquisa científica.

Antes do Doutorado em 2015, ela também participou do Programa de Licenciaturas Internacionais (PLI), promovido pela CAPES, cursando dois anos de Física na Universidade de Coimbra, em Portugal. Hoje ela reside no Japão, onde trabalha no High Energy Accelerator Research Organization (KEK).

Seu canal “Física e Afins” possui atualmente por volta de 158 mil inscritos onde ela fala sobre ciência, entrevista outros cientistas e especialistas, há também vídeos em que conta suas experiências de quando viveu na França e também da vida no Japão, onde reside. Além de promover reflexões sobre o espaço das mulheres nesse meio, sendo inclusive criadora da iniciativa “Mulheres Físicas”.

Também em seu canal, Gabriela fala sobre pseudociências e seus malefícios, tema bastante discutido devido às fake news sobre tratamento ao Covi-19 que circulam pela internet. Para falar sobre esse e outros assuntos, Bailas aceitou ser entrevistada pelo Converge numa entrevista que você lê a seguir:

Todas as fotos nesta matéria foram enviadas pela própria Gabriela Bailas.

Mulheres na Ciência

Converge:  Atualmente você trabalha no KEK, no Japão. Uma das maiores organizações de pesquisa de Física de Partículas. Eu li que seu interesse pela Física começou aos 14 anos após assistir um documentário. Eu gostaria de saber o que a ajudou nessa “jornada” por assim dizer e também quais foram os obstáculos. E como os superou.  

Gabriela Bailas: Lembrando que o “documentário” que eu assisti foi um filme pseudocientífico que anos depois na faculdade eu descobri que era uma mentira e hoje luto contra ele. Eu acho que o maior apoio que tive nessa jornada foi a minha família. Acho que eles foram essenciais para que eu não desistisse e seguisse na jornada da Física. Também alguns professores e amigos da área. Os obstáculos são diversos, desde machismo até falta de dinheiro para pesquisa. Quando você é mulher e opta por uma carreira científica, é importante sabermos que os desafios serão muitos e que uma rede de apoio será essencial. 

Converge: Você já morou na França onde fez seu doutorado, em Portugal e atualmente reside no Japão. Na sua visão, como a população de um modo geral entende a importância da ciência e da pesquisa? Aqui no Brasil já vimos as discussões e debates quando o tema é investimento na educação superior, bolsa de estudos, cortes, como é nesses países? Há sim uma valorização maior? Há uma aceitação maior das mulheres na pesquisa? 

Gabriela Bailas: Sobre a valorização da Ciência fora do Brasil, nos países que já morei, vejo uma valorização maior. Existe mais investimento, existe incentivo do governo e apoio da população. O Brasil é um país que pode fazer muito no quesito Ciência, somos referência no mundo em diversos assuntos, mas infelizmente a falta de investimento faz com que os cientistas acabam pisando no freio ou ficando estagnados em alguns momentos.

Hoje em dia, estamos vivendo no Brasil o fenômeno de “fuga de cérebros”, porque a maioria dos cientistas que foi para o exterior não voltou e muitos estão saindo do Brasil. Enquanto, que em países como a China, todos cientistas que vão para o exterior voltam, no Brasil ninguém volta. Eu acho isso muito triste. Sobre a aceitação das mulheres, acho que existem mais mulheres trabalhando como cientistas em alguns outros países, mas o número não é tão grande assim. A problemática da mulher na Ciência atinge todos os países do mundo, alguns em menor grau é verdade, mas ainda somos poucas. 

Converge: Você é criadora do projeto “Mulheres Físicas”, que consiste em chamar mulheres pesquisadoras nas áreas de Exatas para falarem sobre seus trabalhos. Gostaria que você falasse quais foram os impactos percebidos e feedbacks que você recebeu.

Gabriela Bailas: Como impacto positivo geral eu vejo que os meus inscritos acabam conhecendo áreas dentro da Física que eles não sabiam que existiam. Várias cientistas que eu chamo são brasileiras que trabalham no exterior, então o público consegue ver que eles também podem sair do país se eles desejarem. E sobre o público feminino, eu acho que é quando essas meninas conseguem ver um futuro; elas conseguem visualizar alguém como elas que chegou em um lugar de sucesso. Isso é muito importante.

Converge: Quando você recebe o feedback de uma menina ou uma mulher agradecendo por você mostrar que uma mulher pode sim ingressar numa área de Exatas e ser bem sucedida, você tem o sentimento de missão cumprida?  

Gabriela Bailas: Sim e não. Por um lado eu tenho esse sentimento de que impactei de forma positiva e construtiva a vida de uma adolescente e/ou jovem mulher. Fico feliz por isso. Porém, por outro lado eu sei que a jornada está só começando. A missão só será cumprida quando muitas mulheres estudarem nas áreas de STEM, quando tivermos as mesmas oportunidades, os mesmos salários, as mesmas chances de progressão na carreira, etc. Minha missão ainda está bem longe de ser concluída.

Converge: Em um texto você falou sobre a desmotivação que as mulheres recebem ainda na infância para ingressarem nas áreas de Exatas e em como observamos poucas mulheres nesses setores. Você em um vídeo falou sobre isso e também sobre o preconceito que não só mulheres, mas também outras minorias, sofrem na Ciência. E da necessidade de incentivar o interesse nas Exatas para as meninas na infância. Como as pessoas, sejam da área ou não, podem ajudar para mudar mentalidades preconceituosas de pessoas já adultas? Como adultos podem rever esses preconceitos? 

Gabriela Bailas: Precisamos estimular nossas crianças a pensar, desenvolver a lógica, entender que matemática não é um monstro e que a ciência é para todos. No caso das meninas, porque ficar dando apenas brinquedos que remetem às atividades do lar? ou um futuro filho?  Por que não presenteamos nossas meninas com jogos de lógica, legos, kits de ciência, bonecas que sejam cientistas, astronautas, etc.

Tudo bem se a menina quiser brincar de casinha também, porque afinal de contas no futuro todos teremos nossa “casinha”, mas apenas casinha não é legal. Os meninos por outro lado recebem estímulos de todos os lados, e não recebem os mesmos jogos das meninas. É importante entendermos a necessidade de um ambiente neutro para que nossas crianças cresçam e se desenvolvam da melhor forma possível. Também, é importante quebrarmos os estereótipos de que meninas são doces, frágeis e que não serão “femininas” se escolhem brincar ou estudar em “áreas masculinas”.

Não existe isso de feminino e masculino dentro de um trabalho ou de uma área de estudos. Os adultos ajudam dessa forma, quebrando os estereótipos para os filhos, ou melhor ainda, não introduzindo o estereótipo na criação deles. 

Pseudociências

Converge: No seu canal há a seção “Terça Quântica” em que você fala sobre temas que as pessoas possuem dúvidas, como o vídeo que trata das vitaminas de farmácia, mas também você fala de pseudociências. Imagino que quem assista a esses vídeos sejam as pessoas que acompanham seu trabalho e também as que seguem essas pseudociências. Como é lidar com esse segundo grupo? Vi inclusive que o vídeo em que você faz um react da conversa entre um terraplanista e o diretor da Super Interessante está com os comentários desativados. 

Gabriela Bailas: Sobre o vídeo dos terraplanistas, eu optei por desativar os comentários, porque os terraplanistas fizeram uma campanha na internet para comentários em massa no meu canal. Então, recebi todo tipo de comentários desde alguns que apenas me ofendiam como pessoa, como alguns criminosos ameaçando me estuprar, matar, etc. Por respeito a minha família que lê os comentários eu achei melhor desativar, mas este é o único no canal com comentários desativados. 

Agora, o segundo grupo vai depender, porque existem as pessoas que gostam de alguma pseudociência, mas não são seguidoras daquilo enlouquecidamente, assim como existem pessoas que lucram e muito com a venda daquilo. Eu encaro numa boa, eu faço os meus vídeos embasados em argumentos científicos e se alguém se irritar eu não posso fazer absolutamente nada. É uma opção de cada um assistir o meu vídeo ou não, mas eu não vou me calar diante das coisas que eu encontro. Eu não vou passar a mão na cabeça de uma coisa que causa inúmeros riscos a vida de pessoas.  

Converge: Quais os temas que foram os mais difíceis para você tratar em seu canal? Seja por que o conteúdo necessitou de muita pesquisa ou por causa de alguma polêmica que tenha sido gerada. 

Gabriela Bailas: Polêmica acho que todos os vídeos causam de alguma forma, principalmente os do Terça Quântica. Mas um dos últimos que foi extremamente trabalhoso e polêmico foi o de “constelações familiares”, porque é uma prática que, infelizmente, caiu nas graças do judiciário do Brasil e vem sendo disseminada com força. Porém, é uma prática perigosíssima, onde basicamente tudo é justificado através dos teus antepassados.

Prática essa que justifica estupro e pedofilia, é algo muito problemático, inclusive no meu Instagram, existem vídeos do criador da prática justificando abuso sexual e dizendo que o câncer surge de “não ter medo da morte”. O câncer de mama ele diz que pode surgir de um aborto que uma mulher fez. Ou seja, não existe evidência científica para o que ele afirma, mas as pessoas seguem e propagam isso como verdade absoluta. É triste ver o número de pessoas que essa prática machucou e prejudicou. 

Converge: De um modo geral, quando uma crença pessoal, que diz respeito somente a pessoa, passa a ser algo prejudicial para a sociedade?

Gabriela Bailas: Acredito, que quando a pessoa acaba vendendo aquilo e prometendo “curar” outras pessoas. Essas práticas se aproveitam de momentos de vulnerabilidade dos outros para  “atacar”. Alguém frágil acaba se tornando uma presa fácil. O ódio que muitos pseudocientistas possuem de mim, vêm do fato de que eles estão perdendo clientes, porque muita gente está abrindo os olhos e vendo que eles podem sim prejudicar tratamentos sérios que elas seguem.

Eu fiz um vídeo no Física e Afins comentando uma pesquisa da Univ. de Yale, onde eles concluíram que as terapias alternativas dobram o risco de morte de pacientes com câncer: https://www.youtube.com/watch?v=taq801m0djA&t=2

Link para o canal: Física e Afins

Converge: Algumas pessoas, como certos religiosos, veem no questionamento a seus dogmas uma forma de desrespeito. Nesse sentido, qual é a diferença entre o questionamento e o desrespeito? Você acha que deva haver um questionamento quando algo deixa de ser uma coisa que diz respeito somente a determinada pessoa e passa a impactar a sociedade negativamente? Ou o questionamento deve ser feito até mesmo antes disso? 

Gabriela Bailas: Acho que precisamos separar aqui nessa pergunta o que é um religioso de uma pessoa que vende alguma terapia alternativa que pode estar atrelada a uma religião. Eu deixo muito claro no Física e Afins que eu não questiono a fé e a crença pessoa de uma pessoa. Eu questiono as terapias que se dizem supostamente científicas. Você não vai ver um vídeo meu abrindo uma bíblia e questionando se algo aconteceu com Jesus.

Isso eu não faço, porque isso não está relacionado a Ciência. Ou eu não faço um vídeo questionando a existência de Deus, porque eu acho que isso é pessoal e único para cada pessoa. Eu tenho as minhas crenças e outras pessoas tem as delas, não questiono isso. Entretanto, se uma pessoa afirmar que cura alguém através das mãos, do pensamento, da água fluidificada aí sim podemos questionar.

Como essa água cura? Como ela cura? Se você afirma que ela cura, vamos colocar ela no laboratório e investigar o que tem aqui dentro. Essa é a diferença; o problema vêm quando alguém quer te vender um produto em nome de uma “cura”.  

Converge: Já vi pessoas falando coisas como “o terraplanista é melhor do que o antivax”, pois é concebido que um simplesmente acredita em algo que não afeta a sociedade, é só um “pensamento bobo”, enquanto o outro acredita em algo extremamente prejudicial e que afeta não apenas ele, mas também outras pessoas. Na sua opinião, esse raciocínio está certo? Não há por que se preocupar com um terraplanista?   

Gabriela Bailas: Acho que todas as “teorias conspiracionistas” são problemáticas. É verdade que o antivax prejudica uma sociedade como um todo, porém para um terraplanista virar antivax é um pulo. Quando a pessoa entra nesse mundo de conspiração, uma coisa vai levando a outra muito rapidamente.  E a maioria dos terraplanistas diz que precisamos questionar e questionar tudo, mas existe uma diferença entre questionar com propriedade e conhecimento e questionar e brigar por algo sem sentido. Os terraplanistas são um grupo de pessoas que já foi estudado de maneira sociológica, as características deles. Enfim, esse tipo de grupo, apenas mostra como o Brasil precisa e muito de educação científica urgentemente.

Converge: Quais são as diferenças entre uma religião e uma pseudociência, no sentido de que ambas são coisas que possuem suas regras e lógicas, não tem comprovação científica, mas independente disso certas pessoas acreditam? 

Gabriela Bailas: Pseudociência é aquilo que tenta parecer Ciência, usa roupagem científica, palavreado técnico e tem todo um ar pomposo.  

Converge: Já vi também a frase “astrologia é o terraplanismo socialmente aceito”, você acha essa comparação válida? Ela tem algum sentido?

Gabriela Bailas: A frase que eu uso é a “astrologia é pseudociência socialmente aceita”.  É engraçado vermos alguém criticando um terraplanista, mas abrindo toda semana o horóscopo para checar como vai ser o dia dela, né? 

Converge: Você já recebeu feedback de alguma pessoa que dizia acreditar em alguma pseudociência, mas que mudou de ideia ou começou a questionar após assistir a um de seus vídeos? 

Gabriela Bailas: Centenas e talvez milhares. Recentemente recebi de uma pessoa que disse que eu salvei a vida dela, porque ela estava morrendo por não fazer o tratamento psicológico adequado por ter se enfiado em uma seita sem entender que aquilo era uma seita e foi através dos meus vídeos que a pessoa começou a acordar.  Eu recebo quase que diariamente esse tipo de relato.

Converge: Na sua opinião, canais de divulgação científica possuem mais, menos, ou o mesmo alcance de canais e influenciadores que disseminam pseudociência ou narrativas que não se sustentam com a realidade? Como atrair mais público? Em 2018, no site Mulheres na Ciência, você falou que pediu para seus vídeos serem divulgados com mais afinco entre as mulheres quando viu que 80% do seu público era masculino. E que houve uma mudança quando a porcentagem feminina subiu para 30%. Como essa porcentagem se encontra atualmente? 

Gabriela Bailas: Acho que dependendo do canal pseudocientífico eles ganham muita atenção, justamente porque prometem aquilo que não podem cumprir e as pessoas compram a ideia. As pessoas gostam de uma utopia e isso eles oferecem com excelência. Uma forma de atrair mais público é falar sobre o que as pessoas estão interessadas em ouvir, mas com seriedade, embasamento técnico e científico. Acho que isso é o importante. Meu canal Física e Afins atualmente conta com 156 mil pessoas, mais de 7 milhões de visualizações e felizmente meu público no dia de hoje é 49,5% feminino. 

Um comentário sobre “Divulgadora científica: Gabriela Bailas aborda o espaço das mulheres na ciência e o perigo das pseudociências

  1. Que entrevista maravilhosa!
    O canal da Gabi é muito importante, principalmente por argumentar questões muito atuais, além de evidenciar que a mulher é capaz de fazer ciência sim e ciências exatas, se ela quiser. Tudo incrível! Obrigada!!

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