Destaques Nacionais – 31º Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo

O Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo, ou apenas Curta Kinoforum, é um festival tradicional da agenda cultural paulistana e um dos grandes à nível mundial para o formato do curta-metragem. Inaugurado em 1990, encontra-se em sua 31ª edição neste ano, gratuito e com a novidade de ser feito completamente online, à exemplo de outros eventos ao redor do globo, devido à essa realidade de pandemia e isolamento social.

O Curta Kinoforum, como sempre, traz uma extensa programação de curtas dos mais variados estilos, desde trabalhos de diretores consagrados à obras de nomes iniciantes. Neste ano, são 212 produções de 46 países, disponíveis para assistir até domingo, dia 30/08, pelo portal innsaei.tv

Diversas Mostras e programas compõe o festival, sendo tradicionalmente a Mostra Internacional, os Programas Brasileiros e a Mostra Latino Americana. Há também a Mostra Limite, dedicada à filmes mais experimentais ou que apresentam novos formatos, a Mostra Infanto Junvenil e os Programas Especiais, dos quais se destaca a mostra Novas Áfricas, criada nesta edição para dar espaço ao continente que tem menos tradição na produção audiovisual mundial. 

Após o anúncio das premiações do festival nesta sexta-feira (28/08), o Converge apresenta a sua segunda parte da cobertura do festival trazendo alguns destaques nacionais da programação, procurando apresentar recomendações de diferentes mostras. Confira, então, um pequeno aperitivo da rica programação brasileira do Curta Kinoforum deste ano:

Da Mostra Competitiva: 

  • “Inabitável” (2020), de Matheus Farias e Enock Carvalho – PE
Foto: Divulgação Kinoforum.

Marilene, uma mulher negra, procura por sua filha Roberta, que é transsexual, após ela não voltar para casa depois de uma festa. Em meio a um mistério de crescentes sumiços de pessoas na cidade do Recife, Marilene conta com a ajuda de sua vizinha e de uma amiga de sua filha, também trans, para procurar por pistas que indiquem o paradeiro da jovem.

O curta – que levou o Prêmio Brasil do Troféu “Borboleta de Ouro”, para destaques de temática LGBT – dialoga com a recente produção do cinema pernambucano no que diz respeito a trazer elementos de ficção científica para um drama pautado no real e usá-los para discutir questões sociais. Como é de se esperar pelo título, inabitável é esse local onde moram as personagens trans. Inabitável é o Brasil para esta comunidade, como também para a população negra de um modo geral, representada pela figura de Marilene. Seguindo esse raciocínio, o engenhoso do filme é que ele utiliza a ficção científica como escape, e não como alegoria das desgraças do mundo em que vivemos. Afinal, precisaria mesmo se valer de uma alegoria para denunciar os horrores de uma realidade já tão absurda?

Fora isso, a narrativa ganha uma interessante camada extra de interpretação pelo momento em que foi lançado. O letreiro inicial, que diz que a produção foi filmada antes do início da pandemia, não só informa o fato, como também deixa essa informação na cabeça do espectador. É curioso assistir ao filme sob a ótica de que ele teria previsto um cenário “inabitável” ao redor do mundo.

  • “Carne” (2019), de Camila Kater – Brasil (SP) e Espanha
Foto: Divulgação Kinoforum.

Vencedor do Prêmio Canal Brasil, “Carne” é um inventivo documentário que passeia por 5 relatos de mulheres por meio de estilos distintos de animação. O fio condutor das narrações é a relação da mulher com o corpo e as imposições da sociedade sobre esse corpo.

As técnicas de animação, que vão de pinturas em pratos à modelagem de uma massa de argila, acompanham a variedade dos relatos, que dão conta de praticamente todos os períodos da vida de uma mulher.

O filme de Camila Kater não traz tanta novidade em questão do tema, bastante abordado atualmente, mas ainda tão distante de deixar de ser um problema. Sua força está na criatividade de sua estética e na pessoalidade dos relatos. Ouvimos histórias sobre restrições obsessivas em cima de um corpo infantil, a violência que ronda o corpo de uma travesti negra e reflexões de uma já mais velha Helena Ignez, grande figura do cinema nacional.

Uma obra que dialoga com o passado, o presente e o futuro, seja em sua forma quanto em seu conteúdo.

  • “Entre Nós e o Mundo” (2019), de Fábio Rodrigo – SP
Foto: Divulgação Kinoforum.

O diretor Fábio Rodrigo recorre à uma mistura de técnicas de documentário e ficção para tratar dos impactos da morte de um menino negro pela polícia na vida da família, da qual o próprio cineasta faz parte. Descobrimos ao longo do curta que Erika, a mãe de Theylor, que foi assassinado, é prima do diretor. Dessa forma, a história é tratada com um tom muito pessoal, denunciando a revoltante realidade recorrente no país mas, mais do que isso, permanecendo com a fé de que tempos melhores virão.

Pelo duro golpe que a família sofreu, Fábio tinha tudo para fazer um filme revoltado, que acusasse a polícia, que tivesse como principal ponto a denúncia do racismo violento e estrutural na sociedade brasileira. No entanto, preza por uma abordagem delicada e intimista. É doloroso ouvir os relatos dos familiares sobre a morte do menino e é difícil para eles seguirem em frente. Mas é o que eles fazem, e o filme também. Foca mais no nascimento da nova filha de Erika do que na tragédia que aconteceu. 

E conclui sua homenagem à Theylor – e à todos os outros jovens que tiveram suas vidas interrompidas daquela maneira – olhando para as crianças ocupando as ruas da comunidade, brincando. Que elas tenham um destino diferente.

  • “A Morte Branca do Feiticeiro Negro” (2020), de Rodrigo Ribeiro – SC
Foto: Divulgação Kinoforum.

Este filme, por outro lado, trata o problema do racismo de uma maneira devastadora. A carta de suicídio do escravo Timóteo, escrita em meados dos século XIX, é apresentada em forma de legendas na tela. O que acompanha os trechos escritos são imagens antigas representando escravos negros nos campos de trabalho e os senhores de terra brancos em posição de domínio social, enquanto ouvimos uma música que só faz crescer a tensão e o mal-estar.

A obra de Rodrigo Ribeiro é crua ao apresentar as palavras de Timóteo com a linguagem da época. Precisamos prestar atenção para compreender todas as suas frases. É exigido que olhemos aquele horror com olhos bem abertos. 

Claramente, o intuito é escancarar os absurdos submetidos aos povos africanos até há não muito tempo atrás. Ainda, a obra existe para resgatar essa memória assombrada de Timóteo, indo atrás de registros e de locais onde os escravos de Salvador eram mantidos. Assim, ele procura libertar o espírito de seu “feiticeiro”.

É com certeza um dos filmes mais impactantes e, não por acaso, levou o Prêmio Revelação do festival.

  • “Perifericu” (2019), de Nay Mendl, Vita Pereira, Rosa Caldeira e Stheffany Fernanda – SP
Foto: Divulgação Kinoforum.

Vencedor do prêmio de Melhor Filme da Mostra Competitiva, “Perifericu” é apresentado na mesma sessão que os dois curtas mencionados anteriormente, evidenciando a forte presença da afirmação da identidade negra na programação. No caso, este curta aborda a experiência de jovens LGBTQ+ na cidade de São Paulo, perpassando a discriminação, desigualdade social e a manifestação cultural dessa comunidade.

O filme do coletivo de diretoras é outro que dialoga com essa tendência do cinema brasileiro contemporâneo de misturar técnicas de documentário e ficção. Temos a apresentação de uma das protagonistas, Luz, em uma aparente entrevista na qual ela fala olhando para a câmera. Logo depois, ela se volta às suas amigas enquanto estas conversam antes de irem para uma festa. O curta se assume como narrativa roteirizada, mas não deixa de lado esses momentos em que as personagens se portam como objetos de um documentário.

Luz é responsável por trazer boa parte do humor pro filme, ao agir ironizando as diversas situações em que sua identidade e estilo são confrontados. Já Denise, sua amiga e outra protagonista, acaba por sofrer as consequências mais desagradáveis do preconceito.

Da Mostra Brasil: 

  • “Viva Alfredinho!” (2019), de Roberto Berliner – RJ
Foto: Divulgação Kinoforum.

Um filme que acompanha uma marcha fúnebre com “viva” no nome só poderia ser sobre Alfredo Jacinto Melo, o Alfredinho, dono do famoso bar carioca Bip Bip. Acompanhamos o velório seguido de enterro do homem que, entusiasta do samba, ironicamente veio a falecer em pleno carnaval, no ano de 2019. 

O documentário é dirigido pelo, já conhecido, cineasta Roberto Berliner e segue uma linguagem comum ao formato, com as filmagens do dia do enterro acompanhadas de entrevistas de pessoas próximas à Alfredinho. O que mais vale do filme é mesmo o seu objeto documentado e a inusitada situação onde o velório mais parece uma celebração carnavalesca. É interessantíssimo conhecer a figura do dono do Bip Bip, que fez esse local, que é praticamente um muquifo, virar um dos pontos mais quentes da vida boêmia de Copacabana e um símbolo de resistência artística e política.

É com puro carisma que “Viva Alfredinho!” celebra e presta suas homenagens à esse ícone da cultura carioca.

  • “Alfazema” (2019), de Sabrina Fidalgo – RJ
Foto: Divulgação Kinoforum.

Falando em carnaval, é durante os dias de festividades que Flaviana procura se livrar de um amante que não sai de seu chuveiro. Os dois mal se conhecem, ficando claro que só se conheceram na noite anterior. Mesmo assim, dividem o banheiro na maior intimidade, enquanto a protagonista se arruma para sair em mais um bloquinho. Isso até ela começar a ter alucinações atrasadas de uma droga que usou na noite anterior.

É a partir dos delírios de Flaviana que “Alfazema” apresenta sua grande brincadeira metalinguística que envolve anjos – ou melhor, anjas – e até a aparição de Deus, encarnado aqui pela artista Elisa Lucinda. O filme usa esse trabalho metalinguístico para ironizar seus personagens e também zoar a si mesmo e a equipe, tirando daí uma boa fonte de humor, embora o recurso se sature um pouco. 

Para compor o seu povoamento fantástico, traz referências de religiões de matrizes africanas, como, por exemplo, em cantos que marcam quebras no ritmo do filme ou na caracterizacão de Deus, que está mais para uma grande mistura de figuras divinas de várias religiões – é literalmente apresentado com diversos nomes, incluindo Alá e Olórun. O modo como o filme constituí esse personagem até lembra algumas versões de Deus nos vídeos do Porta dos Fundos.

Sendo um dos curtas mais famosos em sua carreira pré-festival, o elenco estrelado confirma que o filme de Sabrina Fidalgo merece uma conferida.

Mostra Limite:

  • “O Colírio do Corman Me Deixou Doido Demais” (2020), de Ivan Cardoso – RJ
Foto: Divulgação Kinoforum.

Aviso: Filme não recomendado à pessoas suscetíveis à epilepsia ou outros distúrbios similares.

Trata-se do mais novo trabalho de Ivan Cardoso, mestre do “terrir” brasileiro e importante curta-metragista experimental. Conforme sua sinopse no festival, “O Colírio do Corman Me Deixou Doido Demais” é fruto de um intenso e livre trabalho do cineasta em cima de películas. O resultado é uma experimentação estilística e também uma grande zoeira visual. 

Como diz o título, o filme estabelece uma relação com o clássico “O Homem Dos Olhos de Raio-X” (1963) do diretor americano Roger Corman, que aparece no filme pingando o colírio nos olhos de Ivan Cardoso. A ideia sugere que o colírio de Corman teria gerado essas alucinações em Ivan, o que seria uma explicação até aceitável para ele ter feito uma experiência que não cansa de despirocar. Dentre formas, desenhos e luzes, vale destacar as brincadeiras com a figura de Glauber Rocha e a presença do Zé do Caixão como jurado num programa de TV super brega. 

Para quem procura uma experiência visual bizarra e divertida, é o que Ivan Cardoso oferece nesta mostra.

Para mais informações do Festival e da programação, acesse https://2020.kinoforum.org/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s