Destaques Internacionais – 31º Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo

O Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo, ou apenas Curta Kinoforum, é um festival tradicional da agenda cultural paulistana e um dos grandes à nível mundial para o formato do curta-metragem. Inaugurado em 1990, encontra-se em sua 31ª edição neste ano, gratuito e com a novidade de ser feito completamente online, à exemplo de outros eventos ao redor do globo, devido à essa realidade de pandemia e isolamento social.

O Curta Kinoforum, como sempre, traz uma extensa programação de curtas dos mais variados estilos, desde trabalhos de diretores consagrados à obras de nomes iniciantes. Neste ano, são 212 produções de 46 países disponíveis para assistir e, a partir de hoje (27/08) até domingo, dia 30/08, toda a programação está aberta no portal innsaei.tv

Diversas Mostras e programas compõe o festival, sendo tradicionalmente a Mostra Internacional, os Programas Brasileiros e a Mostra Latino Americana. Há também a Mostra Limite, dedicada à filmes mais experimentais ou que apresentam novos formatos, a Mostra Infanto Junvenil e os Programas Especiais, dos quais se destaca a mostra Novas Áfricas, criada nesta edição para dar espaço ao continente que tem menos tradição na produção audiovisual mundial. 

O Converge começa a sua cobertura do festival trazendo alguns destaques estrangeiros da programação, procurando apresentar recomendações de diferentes mostras. Confira, então, um pequeno aperitivo da rica programação do Curta Kinoforum deste ano:

Da Mostra Internacional:

  • “W” (2019), de Stelios Koupetoris – Grécia
Foto: Divulgação Kinoforum.

Trocadilhos à parte, “W” é um curta-metragem curto. Apenas 6 minutos são o suficiente para desenvolver o ponto do filme. Aqui, um professor tenta dar sua aula de antropologia no que aparenta ser mais um dia normal de escola, mas que aos poucos se revela um momento complicado.

Não é por acaso que o conteúdo escolhido para ocupar toda a fala do professor durante o filme seja a antropologia. Os caminhos da humanidade, desde os primórdios até hoje, são discutidos pelo roteiro de uma perspectiva altamente crítica. A contraposição entre as respostas enérgicas do professor, sobre as paixões e desejos que movem o ser-humano a evoluir, e os desenhos no mural da sala de aula representando guerras sangrentas, são apenas o início. 

Teria a humanidade realmente evoluído? “W” apresenta sua tese à respeito disso com um tiro curto, mas certeiro.

  • “Querida” (Darling; 2019), de Saim Sadiq – Paquistão e Estados Unidos
Foto: Divulgação Kinoforum.

“Querida” aborda a busca do espaço das pessoas trans na sociedade paquistanesa de uma forma surpreendentemente leve e divertida. A jovem protagonista, uma menina trans, conta com a ajuda de seu seu pretendente enquanto se prepara para uma audição para um espetáculo de dança, do qual ele participa. Enquanto isso, a esnobe estrela da companhia está contrariada nos bastidores por acusar uma colega de ter roubado sua cabra sacrificial.

Como público ocidental, já nos espantamos com a coragem da protagonista em se arriscar em uma audição para um espetáculo apresentado em terras paquistanesas, onde temos a impressão que a intolerância à pessoas trans seria ainda maior. Em tal momento, a dançarina principal até provoca o diretor da peça perguntando “E isso é permitido na Europa?”, se referindo à protagonista. No entanto, a jovem sonhadora não se deixa abalar e insiste em mostrar suas habilidades na dança para o diretor. Ele a elogia, mas não a aceita para se apresentar como mulher no palco. É aí que a protagonista tem que decidir entre se arrumar como um menino para fazer parte do espetáculo ou ficar de fora.

É interessante como o curta testa os preconceitos do namorado da personagem principal na trama. Pela forma como os dois são apresentados, criamos uma imagem do menino como uma pessoa de mente progressista, desconstruído em relação às questões de gênero. Mas, ao se deparar com a possibilidade de sua namorada se apresentar como um menino, ele fica contrariado e a relação dos dois é posta à prova.

O diretor Saim Sadiq mostra essa provação dos dois de forma sucinta e segura, e filma as cores e aspectos mais extravagantes daquela cultura com gosto – a sequência que mostra a audição de dança da protagonista é ótima. Ele conclui o curta com um tom que pisca pro otimismo em relação aos personagens principais. Há de se valorizar que o roteiro não faz a protagonista sofrer muito ou terminar em desgraça, como o fazem dramas mais realistas ou críticos. A comunidade trans merece ver personagens que os espelham também tendo finais felizes, ainda que o mundo esteja bem longe da igualdade. 

. “Invisíveis” (Invisibles Kaunapawa, 2019), de Joel Haikali – Namíbia

Foto: Divulgação Kinoforum.

O deserto da Namíbia é cenário para a busca de liberdade de duas pessoas em fuga de suas vidas vazias. O homem foi despejado e perdeu seu ofício na cidade. Agora o que lhe resta são as roupas do corpo e uma urna, decorada com a bandeira do país, contendo cinzas de alguém. Frente a isso, o homem não vê outra solução senão tirar a própria vida. No entanto, é convencido a não prosseguir por uma mulher, cujo passado parece remeter à escravidão. Os dois, então, seguem jornada juntos. 

Do mais, não sabemos direito de onde eles vem e para onde eles vão, não ouvimos uma palavra sequer trocada pelos dois e nem seus nomes sabemos. O curta de Joel Haikali se assemelha a um ensaio artístico na sua proposta cheia de simbolismos e lembra um fashion film ao focar na sua estética rica e vibrante, tudo captado por uma fotografia deslumbrante.

Em meio a essa viagem da mulher e do homem, flashes do passado simbólico voltam para assombra-los ou para sinalizar mudanças, como é o caso da figura de um cavalo branco. Eles viajam juntos, mas estão sempre distantes. Demora até que eles tenham força e intimidade para se aproximarem. 

“Invisíveis” transmite um entendimento de um manifesto para uma nova África. É muito difícil e doloroso tocar nas cicatrizes do passado recente dos povos africanos, mas, é ao fazer isso que o homem e a mulher conseguem se desfazer das cinzas de uma Namíbia velha para ir atrás de uma que os pertença realmente.

  • “Uma Estudante” (A Student; 2020), de Mi-ji Lee – Coreia do Sul
Foto: Divulgação Kinoforum.

Este curta coreano é dos mais simples tanto em sua premissa quanto em sua linguagem, mas as executa exemplarmente. Acompanhamos uma mulher mais velha que quer aprender a usar o computador, mas que, para se matricular para as aulas, tem que fazer o cadastro online. 

O roteiro se aproveita do humor presente na situação proposta ao mesmo tempo que encaixa o drama de uma maneira orgânica. Entre os desejos e a obrigação de cuidar dos netos imposta à protagonista, é possível rir e ficar triste por ela frente à relação tensionada com sua filha. Nestas tensões é que o filme também consegue tratar sobre assuntos relevantes, centralizados nessa figura da pessoa mais velha, que é excluída do mundo por não saber usar a tecnologia.

As atuações são outro ponto forte do curta, contando com o carisma da atriz principal e um elenco de apoio à altura, incluindo o ator mirim que interpreta seu neto mais novo. E se existisse um prêmio de filme mais fofo, este seria um sério candidato a vencer.

. “A Pequena Alma” (Duszyczka; 2019), de Barbara Rupik – Polônia

Foto: Divulgação Kinoforum.

“A Pequena Alma” é um filme universitário, tipo de produção que costuma arranjar um espaço no Festival de Curtas. Feito totalmente por animação de pinturas e modelagens de personagens, parece uma obra que se veria num museu. 

Por meio destas técnicas, o curta menos conta a história e mais passa as sensações de uma pequena criatura, similar a um humano, que nasce de um corpo morto na margem de um rio e segue jornada por um mundo cheio de esquisitices, angústias e um clima mórbido. Os animadores bebem da fonte do Expressionismo para criar esse universo bizarro, onde o personagem do quadro clássico “O Grito” (1893), de Edvard Munch, parece habitar. 

É realmente incrível como o curta consegue fazer uma boa animação a partir de uma técnica tão complexa. Certas pinturas que apresenta ao espectador são belíssimas, mas a perturbação é o que predomina, como garante a forte trilha sonora. Duszyczka é pura representação de angústia frente aos horrores do mundo, que são demais para este pequeno ser aguentar.

Da Mostra Latino Americana:

  • “Os Anéis da Serpente” (Los Anillos de la Serpiente; 2020), de Edison Cájas – Chile
Foto: Divulgação Kinoforum.

Protagonizado por um ícone da dramaturgia chilena, a atriz Paulina García, “Os Anéis da Serpente” é um suspense que dramatiza os fantasmas da ditadura militar no Chile. García interpreta Ana, médica de destaque que dá aula numa universidade. Em sua vida privada, ela se preocupa com o bem-estar de sua filha Ursula, autista, que é cuidada por uma uma mulher mais velha quando Ana não está em casa. O pai não está por perto, então ficam só as duas no apartamento, enquanto a filha ouve obsessivamente seu rádio de pilha e a mãe acompanha pela TV investigações do governo sobre os crimes cometidos na ditadura anos antes. As notícias parecem perturbar a protagonista, o que não é de se espantar visto o número grande de pessoas no país a que este período sangrento afetou. No entanto, ligações de ameaça e visitas inesperadas passam a ameaçar a segurança dela e de sua filha. 

O filme de Edison Cájas é daqueles que sabe usar muito bem uma trama dessas para envolver o espectador em suspense, ao passo que é mais uma voz nas manifestações de repúdio ao período de ditadura, algo que o cinema sul-americano em geral tem feito bastante nas últimas duas décadas. 

Em certo momento, um personagem envolvido com as forças do governo totalitário diz que as pessoas deveriam agradecê-los por terem feito o país crescer. Mesmo se isso fosse verdade, os horrores oriundos desse período, que tem ecos até hoje, como o curta mostra, escancaram que só há o que se revoltar frente os crimes cometidos. E a busca por justiça histórica continua.

Da Mostra Novas Áfricas:

  • “Prisioneiro e Carcereiro” (Prisoner and Jailer; 2019), de Muhannad Lamin – Líbia
Foto: Divulgação Kinoforum.

O Massacre da Prisão de Abu Salim é um evento trágico e marcante na história da Líbia, e é o grande tópico deste suspense dramático. A prisão é cenário para todo o desenrolar da história, que coloca frente à frente um prisioneiro mais velho e o homem que controla a prisão. 

Ao longo da narrativa, nos compadecemos com o prisioneiro, que chega a ser espancado por guardas enquanto o carcereiro, um sacerdote muçulmano, conduz uma reza. Mesmo sendo torturado, o prisioneiro não fala as informações que os controladores da prisão querem saber, e ainda questiona as ambições deles em construir um novo Estado. 

Percebemos que os dois personagens têm uma relação antiga, até que é revelado que, anos antes, eles estavam ali naquele mesmo local, mas em papéis invertidos. O velho prisioneiro de hoje, no passado, foi um cruel guarda prisional, e um de seus detentos era o sacerdote que, hoje, está na posição de poder. Dessa forma, o curta expõe as desumanidades de uma guerra política e coloca em questão a ética entre aqueles que prendem e aqueles que são presos.

O filme possui uma contextualização apresentando informações factuais ao seu final, mas é um caso que vale uma pesquisa sobre a história após a experiência de assisti-lo.

Da Mostra Limite:

  • “Na Companhia de Insetos” (In The Company of Insects; 2020), de Duncan Cowles – Reino Unido
Foto: Divulgação Kinoforum.

Trata-se de uma produção caseira e quase que individual pelo cineasta inglês Duncan Cowles, com exceção da parte sonora. Ele narra sentimentos e reflexões que teve após a morte de seu avô, o que traz grande ausência em sua vida. Enquanto isso, simplesmente nos mostra insetos em seu jardim fazendo o que for que seus instintos os mandam. Eles polinizam flores, voam, andam e morrem, o que é a ideia que Duncan exprime em grande parte de seu desabafo: vamos viver, fazer coisas, mas uma hora todos vamos morrer.

O narrador reflete sobre a insignificância da vida por uma perspectiva de alguém que está assumidamente passando por um período emocionalmente difícil. Desse modo, o filme tateia o clichê do jovem pessimista que exprime seus pensamentos sobre as coisas erradas com o mundo e com o modo de vida contemporâneo. Porém, está 100% ciente disso e é isso que faz o texto não ser um manifesto generalista e repetitivo. Tem bastante humor, um humor um pouco cínico até, que não faz gargalhar mas zomba esse estilo de pensar, mesmo que ainda se relacione a ele.

O desabafo é real, é o que fez com que o diretor fosse atrás daquelas imagens e que tenha, a partir delas, articulado uma ideia para um curta. Duncan admite estar pessimista no discurso, mas é uma espécie de pessimismo consciente de suas implicações, não um pessimismo apocalíptico. 

As imagens dos insetos em detalhe são lindas e o sentido que ele consegue extrair delas ou a margem que ele dá para o espectador extrair um significado é uma de suas grandes qualidades. 

Para mais informações do Festival e da programação, acesse https://2020.kinoforum.org/


Um agradecimento aos participantes da Oficina Crítica Curta do Kinoforum pelas ótimas indicações.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s