Pró-vida: que nome mentiroso

Honestamente, ver toda aquela discussão na internet sobre o caso (que vocês já devem saber qual é o caso que irei tratar) me deixou bem desanimado. Desolado, melhor dizendo. Mas gostaria de escrever algumas palavras sobre o caso. Como mero membro comum da sociedade.

Minha mãe já me contou várias histórias do pai dela, meu avô. Infelizmente ele faleceu quando ela ainda era pequena, portanto nunca o conheci. Mas gostaria de falar aqui sobre uma em especial. Uma em que ele nem era participante, era mero observador, mas tem a ver com o que eu quero falar neste artigo.

Era comum minha mãe criança e o pai dela verem passar na rua, em frente a loja da família, uma mulher e sua filha, também criança. Ela era mãe de quatro ou cinco filhos e acabou desenvolvendo um problema cardíaco que tornava qualquer gravidez de risco. E ela acabou engravidando.

A sogra dessa pessoa foi incisiva que a gravidez tinha que ser levada até o fim e o marido concordava com isso. A mulher deu a luz a uma nova criança, mas morreu no parto. E assim, minha mãe passou a ver o homem levando a menina na rua ao invés da mãe.

Meu avô se queixou que não entendia a lógica daquilo. Agora todas aquelas crianças não tinham mais mãe. E por que? Por que não interromper a gravidez antes?

No Brasil temos casos específicos em que o aborto é permitido, como estupro, risco de vida à mãe, caso de microcefalia, casos em que até pessoas que eu conheço que são contrárias ao aborto abrem exceções nesses casos. Mas vi como tem gente que é contra. E como tem.

Uma menina de 10 anos era abusada pelo tio há quatro anos e acabou grávida. Estava com 5 meses de gestação. Tudo isso já era lamentável e, infelizmente, nada novo quando pesquisamos um pouco mais sobre os casos de abuso no país. O que se tornou novidade foi a mobilização para tentar impedir a criança de interromper a gravidez.

Sara Winter, de alguma forma, descobriu o nome da criança e o endereço do hospital onde o procedimento seria feito. E chamou as pessoas para irem se manifestar ali na frente. Alguns podem até pensar que, apesar de ser algo incômodo e que não deixa de provocar um assédio em cima de uma criança e profissionais da saúde, não seria nada demais. Umas pessoas que só iam ficar rezando ali na delas.

Mas eu já suspeitei que não seria nada pacífico ao me lembrar do grupo de pessoas que tentaram fazer uma mobilização em frente ao hospital Perola Byington aqui em São Paulo. E que só não ficaram mais lá, fazendo suas ameaças, ofensas e xingamentos contra mulheres vítimas de abuso, porque outro grupo montaram o acampamento deles ali na frente também.

Acho que não preciso dizer que gostaria que a criança tivesse tido seus direitos respeitados e não sido estuprada. Que a Justiça tivesse sido mais rápida em resolver essa situação e dar logo a autorização para interromper a gravidez. Que ela não tivesse tido seu nome divulgado na internet. Que pelo menos tivesse tido um pouco de paz em um momento tão complicado de sua vida. Tivemos ainda pessoas xingando a criança. Como se ela fosse culpada de alguma coisa.

Eu não venho de um lar cristão. Até porque minha família segue preceitos budistas e xintoístas tradicionalmente. Mas desde pequeno fui influenciado com a ideia do “amor cristão”. De tolerância, respeito e perdão. Que são coisas que eu tento seguir na minha vida, mesmo não sendo religioso.

Quando eu vejo pessoas que se dizem católicas, evangélicas, etc, atacando a criança, ou os profissionais da saúde (e a maioria delas nem sequer menciona o tio nessa história toda), eu fico pensando se o amor que tanto esteve presente na minha vida não passa de uma mentira. Talvez ele exista, mas não com esse nome. Ou talvez exista, mas não esteja com essas pessoas.

Essas pessoas que estavam protestando contra o aborto tentaram invadir o hospital. Mais tarde, parece que um grupo de feministas se instalou em frente ao local. Tanto que viralizou uma foto de uma pessoa que estaria ali comemorando, usando até a palavra “vitória”. Eu não discordo muito de quem questionou “que vitória é essa?” levando-se em conta tudo que aconteceu. Um aborto ainda é um procedimento horrível e traumático de qualquer maneira. Mas sim, de alguma forma, não deixa de ser uma vitória dos direitos dessa criança quando o procedimento foi finalmente realizado.

Mas eu não concordo com as pessoas falando que a esquerda e a direita estão usando esse episódio triste para promover suas narrativas e pontos. Talvez agentes dos dois lados estejam fazendo isso no fim das contas, mas a meu ver a direita atacou uma inocente, vários inocentes se pensarmos nos profissionais da saúde daquele hospital, e tantas outras mulheres e crianças vítimas de abuso que acompanharam o caso, e só a esquerda levantou voz pelos direitos delas.

Os direitos das pessoas que estão vivas. Digamos então que o feto que estava na criança fosse sim um ser vivo. Vamos ignorar qualquer pesquisa sobre em que ponto começa a vida. A vida daquela menina estava em risco. O procedimento era, não só uma coisa para começar o fim do pesadelo dela (o que por si só já é mais que motivo o bastante), mas também para salvar a vida dela.

Isso era algo que meu avô não entendia. Valorizar mais uma vida que nem começou do que uma que está bem na sua frente. Querer mandar em algo que diz respeito a pessoa que está passando por tudo isso. Sinceramente, relembrar tudo isso é desanimador. Eu já tive minhas reflexões sobre o aborto durante a adolescência. Se deveria ser a favor ou contra.

Hoje sei que é, ou deveria ser, um direito da mulher. Que mesmo se eu tiver uma posição pessoal contra, que qualquer um pode ter, isso não deve ser o que orienta a lei. E eu sei que muita gente na direita pensa o mesmo, mas não fala porque tem medo de ser associado com esquerda (que na minha visão ser equiparado nesse caso é algo até bom), ou então só se posicionou para dizer que “ambos os lados estão usando o episódio para seus interesses”, o que a meu ver é uma falsa simetria.

A propósito, sou de Direita.

Espero que a menina consiga se recuperar desse trauma e consiga ter a melhor vida que puder. Que seu tio seja encontrado e enfrente a Justiça. Que todos os que cometeram atos ilícitos nesse triste episódio sejam punidos.

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