Um soco no estômago: a sexta temporada de ‘BoJack Horseman’ é brutalmente complexa e honesta

Eu já gostaria de adiantar que se o leitor sentir que este texto é um desabafo, vai estar certo. É um desabafo, ainda que seja em uma plataforma jornalística – e, disfarçado de review de série.

Sem sombra de dúvidas, já podemos colocar BoJack Horseman no patamar das melhores animações de todos os tempos. Com seis temporadas e 77 episódios, a animação surreal e satírica criada por Raphael Bob-Waksberg atingiu uma marca de longevidade fora do comum para uma plataforma como a Netflix, conhecida por ser extremamente impiedosa com séries originais que não vingam além da marca de três temporadas.

Após o lançamento da sexta temporada, eu tomei a liberdade de reassistir a série em toda sua maestria (eu só tinha visto até a quinta temporada, dublado), com áudio original, para apreciar o voice casting sublime montado pela série, principalmente pela performance de Will Arnett (Arrested Development, The LEGO Batman Movie), o responsável por dar vida ao personagem titular, Bojack Horseman.

Enquanto escrevo esse texto, me ocorre que ainda não terminei a série – na verdade, me faltam cinco episódios para encerrar. Mesmo assim, cá estou no Converge para mais um texto, depois de meses sem colocar nada, após o, modéstia a parte, épico discurso inflamado sobre o Bolsonaro, enquanto o Mandetta ainda era ministro da saúde. Raivas do governo a parte, eu me senti compelido a escrever esse texto após o décimo episódio da 6ª temporada de BoJack Horseman, intitulado “Good Damage”, traduzido como “Bons Defeitos” dentro da versão em português da Netflix, numa história que acompanha a dificuldade da personagem Diane Nguyen (Alison Brie), em escrever o seu livro de memórias ao mesmo tempo que combate um quadro de depressão através de terapia medicamentosa.

BoJack Horseman nunca se escondeu de uma abordagem direta, honesta e distante de glamourização de diversos tópicos complexos, que você espera que sejam amplamente satirizados como piada de mal gosto (estou olhando para você, South Park). Na obra do cavalo decadente você já sabe que eventualmente algum episódio vai te dar um senhor soco na boca do estômago. E para mim, foi esse.

Previamente na série, com o episódio “Stupid Piece of Sh*t” que foi devidamente traduzido como “Seu estúpido de m***a”, já tivemos acesso a perspectiva de monólogo interior de alguém com depressão. No entanto, em Bons Defeitos, acompanhamos como isso é diretamente relacionado com o processo criativo. E para qualquer pessoa que tenha uma inclinação a arte – principalmente a escrita – é um episódio extremamente relatável. Diane, aproveitando de um novo paradigma em sua vida, têm melhorado mentalmente com o uso de antidepressivos, e enfim parece num lugar adequado para escrever o seu livro de ensaios/memórias, com um título mais amplo do que pauta do Domingo Espetacular.

No entanto, durante o processo da escrita de sua obra, ela parece dispersa e angustiada. A sua imaginação a arrasta pra longe por diversas vezes, e a personagem apresenta extrema dificuldade de foco e coesão, correlacionando um sentimento de perfeccionismo que ela julga necessário para a transmissão de suas ideias com um processo de autoflagelamento, que a deprime. A ideia do fracasso nessa construção é reforçada graças a animação alternante baseada em rabiscos irregulares, grosseiros e inconstantes.

É simplesmente a reprodução mais adequada que se existe do processo criativo, enquanto se é uma pessoa com o tipo de situação que a Diane passa. E eu digo isso porque eu, Danilo Queiroz (namedropping), atravesso o mesmo problema quase que num regime diário. O mesmo tipo de dilema que me impediu de fazer um texto novo no Converge Jornalismo por meses. Que me fez colocar em dúvida meus “talentos” de escrita. Que me fez perguntar se em algum dia eu poderia terminar alguma coisa de novo.

Em toda a minha vida de consumidor de produtos audiovisuais, nunca me senti tão identificado numa história como essa. Como um indivíduo que sofre com isso desde 2011, posso dizer que a representação é extremamente acurada. Aquela voz do seu monólogo interior, semelhante a que ocupou todo o episódio de BoJack na quarta temporada, foi readaptada com êxito para a perspectiva criativa. Aquela maldita voz que diz que nada daquilo que você faz é bom, ou é coeso, ou tem lógica. Olha só, ela está conversando comigo enquanto eu escrevo esse texto no Word. Tomara que ela me deixe encerrar a matéria. Isto é, se isso passar por publicação.

Enfim. Em meio a todo caos e auto ódio, Diane consegue, inconscientemente, adiantar alguns poucos parágrafos sobre uma história que ela pensou enquanto procurava uma roupa no shopping. A brincadeira lhe deu origem a uma obra onde a Princesa Carolyn reconheceu a existência de uma possível franquia. No fim das contas, teve um ponto positivo. Não sei como vai ser daqui pra frente, ainda me faltam alguns episódios. Eu só quis fugir um pouco da ideia “normal” de review, onde a gente conta, se baseando numa visão generalista e cartilhada das coisas, de como deve ser, etc. Mas, uma série como BoJack Horseman, fundamentada quase que exclusivamente no quanto os seus personagens falhos, conturbados e complexos são relatáveis, acreditei que uma narrativa de como a obra mexeu comigo, poderia dar um bom texto.

Se o estimadíssimo leitor que chegou até aqui desejar ter alguma dessas experiências de identificação, as seis temporadas da série estão na Netflix, ornamentalmente dispostas para te fazer pensar, rir de nervoso ou chorar de descontrole cômico. Boa sorte. Será uma montanha-russa cavalar. Entendeu? Porque ele é um cavalo…

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