Coluna: A nota de R$ 200 e o analfabetismo econômico

A repercussão da nova nota de duzentos reais escancara o analfabetismo brasileiro no que diz respeito a economia, inclusive de pessoas da área financeira. A nova nota não vai gerar inflação, (muito menos hiperinflação) como andam dizendo por aí. A nova nota não é para auxiliar na corrupção, nem nada do gênero.

Estamos vivendo um dos momentos de menor inflação da história do Brasil, inclusive com deflação. A nota de duzentas reais não tem nada a ver com a inflação atual, tem a ver com toda a inflação que a gente viveu no oba-oba da taxa básica de juros acima de 10%. Cem reais em 1995 valiam a mesma coisa que 737,49 reais hoje em dia, a inflação foi de 637,48% no período de 25 anos. 2020 vive uma expectativa de inflação anual de 1,8%, muito abaixo da média dos últimos 25 anos.

A inflação dos últimos 25 anos, embora alta, não chega nem aos pés da inflação que o Brasil apresentou em outros momentos da história, chegando ao pico em março de 1990 com a taxa de 80% ao mês. Inclusive, o breve episódio de hiperinflação do Brasil (taxas superiores a 50% ao mês), não chega nem aos pés de episódios históricos como da Hungria pós-Segunda Guerra em que a inflação era de 207% ao dia. A cada 15 horas o preço dos produtos dobrava. O Zimbábue em 2008 chegou a criar uma nota de cem trilhões, de tanto que a moeda desvalorizava. O episódio mais recente, na Venezuela, ficou famoso pelo fato de o dinheiro valer, em peso, menos do que o papel higiênico.

A questão é simples: a nossa nota mais valiosa, a de cem reais, hoje está valendo menos do que 20 dólares, e isso dificulta transações, além de encarecer a produção de papel-moeda. E sua existência é uma questão pura e simplesmente de facilitação de transações e diminuição de custo.

As pessoas têm muita dificuldade em compreender o que significa o valor de uma moeda. Já ouvi diversas pessoas da área financeira dizerem “tal pessoa ganha bem porque ganha em dólar”, “Tal lugar é barato para viajar porque a moeda vale ‘x’ vezes menos do que o real”. Nada disso faz o menor sentido.

A valorização e desvalorização de uma moeda só tem peso no poder de compra enquanto ocorrem. Não importa o valor nominal de uma moeda para determinar se custo de um local está alto ou baixo e, sim, qual a variação do valor dessa moeda.

Simplificando com exemplos:

Valor da moeda da Noruega (Coroa) – R$ 0,57

Valor da moeda da Jordânia (Dinar) – R$ 7,27

Pib per capita da Noruega -U$ 81.697,25

Pib per capita da Jordânia – U$ 4.241,79

Custo de vida (cost of living index)

Noruega – 96.80 (3º maior do mundo)

Jordânia – 53.40 (50º maior do mundo)

Portanto, valor de moeda não tem nada a ver com valor de salário e custo de vida. São falácias geradas pela associação de o Real vale menos do que o Euro e Dólar, e de que a desvalorização da moeda gera uma perda de poder de compra no curto prazo. A nota de duzentos reais não vai gerar hiperinflação e sua existência é necessária por conta de uma inflação contínua durante os 25 anos subsequentes ao Plano Real sem a introdução de novos valores de papel-moeda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s