Opinião: O convite de Eduardo Suplicy

No dia 11 de julho de 2020, todos que acompanham as notícias políticas já sabiam que o presidente Jair Bolsonaro tinha sido contaminado pelo Covid-19. Vírus esse que causou uma pandemia mundial e já ceifou mias de 500 mil pessoas no mundo, segundo o Worldometers. Mais de 72 mil só no Brasil, ainda segundo o site deles. A maneira como Bolsonaro conduziu o governo em meio ao cenário dessa nova doença, minimizando seus impactos, brigando com os governadores e até com aqueles que ocuparam o ministério da Saúde, as pessoas no Twitter levantaram a tag “Força Covid”.

“Força Covid”, como numa briga em que as pessoas estariam torcendo para que a doença vencesse o presidente Bolsonaro. Muitas discussões foram levantadas sobre isso, a moralidade de torcer para que outro ser humano morra, mesmo ele supostamente causando malefícios para o país, mesmo ele sendo avisado diversas e diversas vezes sobre a maneira correta de conduzir suas ações. Bom lembrar que isso é um resultado não apenas disso, mas de um acumulo de diversas ações de Bolsonaro, algumas delas que dão margem para impeachment. Outras são coisas que não esperamos de um ser humano decente.

Em meio a tudo isso, uma figura antiga e conhecida da política brasileira ganhou um pouco de destaque: Eduardo Suplicy. Atualmente vereador de São Paulo pelo Partido dos Trabalhadores (PT), ele usou suas redes sociais para postar fotos dele segurando o livro “Utopia”, de Thomas More. Nele, Suplicy fez uma dedicatória para o presidente Bolsonaro. Confira a mensagem do post na íntegra:

Enviei ao Presidente Jair Bolsonaro o livro “Utopia”, de Thomas More, com a sugestão que ele leia no período de convalescência, com a seguinte dedicatória:

Ao Presidente Jair Bolsonaro, desejo-lhe pronta recuperação e que possa aproveitar esse período em que precisa se restabelecer com a leitura desse importante livro de Thomas More, onde, na página 29 do Livro I, ele mostra a reflexão do viajante português Rafael Hitlodeu em que, ao comentar que a pena de morte não havia colaborado para diminuir a criminalidade violenta, afirma que muito melhor será garantir a sobrevivência das pessoas para que ninguém se sinta com a necessidade de primeiro roubar para daí ser transformado em cadáver.

Com base nas reflexões do personagem Rafael Hitlodeu, de Thomas More, seu amigo, Juan Luis Vives escreveu em 1526 “De Subventione Pauperum”, ao Prefeito da cidade de Bruges, onde, pela primeira vez, propõe uma renda mínima garantida a seus habitantes. Por essa razão, Thomas More é considerado um dos pensadores que melhor fundamentou a Renda Básica de Cidadania.

Muito melhor do que distribuir armas será assegurar a Renda Básica de Cidadania para todas as pessoas.

O abraço amigo, Eduardo Matarazzo Suplicy

São Paulo, 9 de julho de 2020.

Enviei o livro ontem, em envelope, por sedex, para o Presidente, no Palácio da Alvorada. O Correio informou que deve chegar até terça feira.

Quem acompanha um pouco a história e o trabalho de Eduardo Suplicy não se surpreende com tal ato. O ex-senador e atual vereador aparenta ser uma pessoa bastante tolerante e moderada. Que não faz as coisas apenas para ganho de capital político, como quando ele publicou um agradecimento para a deputada Tabata Amaral, hoje com a imagem bastante queimada entre setores da esquerda, pelo tratamento que ela deu ao projeto econômico dele e também a sua pessoa.

Suplicy se mostra alguém que não tem problema em circular em diferentes grupos. Academicamente isso é visível quando ele, mesmo de um partido de esquerda, defende um projeto de renda mínima, tal qual Milton Friedman. Economista ganhador do Nobel e um dos maiores símbolos do chamado “Neoliberalismo”, que Suplicy conheceu pessoalmente e conversou a respeito do projeto. Socialmente, quando ele está no meio da plateia do show dos Racionais. Aliás, Eduardo é amigo de Mano Brown.

Esse texto não tem intenção de fazer propaganda para Eduardo Suplicy (embora possa acabar tendo esse efeito no final), mas apenas refletir sobre a ação de Suplicy ao mandar tal livro para Jair Bolsonaro. Claro, pode ser apenas uma forma de se autopromover, que se ele tivesse apenas a genuína intenção de desejar melhoras para Bolsonaro e fazê-lo refletir sobre o efeito negativo das armas na sociedade e os benefícios da renda mínima para todos os cidadãos, ele poderia ter mandado o livro sem postar isso na internet.

Mas pensemos sobre o ato e o contexto em que ele ocorre. Ainda estamos vivendo num período de grande polarização, mesmo os que não são extremistas acabam sendo puxados e tendo que escolher um lado, mesmo que não se sintam confortáveis em se encontrar nessa posição. Essa polarização é alimentada por Jair Bolsonaro, não há dúvida quanto a isso. Que ele, seus filhos e seus apoiadores são o combustível para isso. Mas temos aqui dois polos. O outro polo também faz a sua parte para que esses tempos de pouco diálogo e muito ataque permaneça vivo. Suplicy preferiu não fazer isso e, ao postar sua ação nas redes sociais, convida seus apoiadores e outras pessoas para fazerem o mesmo.

Talvez devamos pelo menos considerar tal convite.

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