A implausibilidade de uma epidemia (e muito menos uma pandemia) de peste negra em 2020

Bubonic plague 
A bactéria Yersinia pestis, o patógeno responsável pela peste negra

Em um ano que já virou piada devido à quantidade de desastres, relatos da peste negra “retornando” (como se em algum momento tivesse desaparecido) assustam e repercutem mais do que em tempos normais. O mundo já vive uma pandemia, mas que alguns insistiram em chamá-la de “gripezinha” por conta de sua real letalidade certamente ficar abaixo de 2%, então a chance da pandemia com 30% – 60% de letalidade soa como se o próprio Satanás resolvesse tirar sarro da ignorância e arrogância humana diante das forças da natureza, não é?

Bom frisar que eu sou cristão e não acho que uma pandemia ocorra por “vontade divina”, que acaba no momento em que o Altíssimo julgar oportuno. Numa interpretação ortodoxa da Bíblia, os flagelos que a humanidade enfrenta provém do pecado, porque Deus havia criado o mundo de forma harmônica e desprovida de mal – foi o próprio ser Homo sapiens que caminhou em direção ao mal e deturpou a Criação. De mesma maneira, aqueles que perecem em desastres não são mais pecadores do que aqueles que sobrevivem a eles. Tem gente que fala em nome de Deus e diz ver seu nome em coisas que julga positivas, bem como naquelas que julga negativas, mas lhe falta uma leitura mais atenta das Escrituras – o que, convenhamos, não é nada muito inédito na história humana. Mas como isso aqui não é um texto religioso, vamos logo ao que interessa.

Em primeiro lugar, vamos esclarecer alguns conceitos.

Doença endêmica, epidemia e pandemia são termos diferentes para fenômenos diferentes. Segundo a definição da OMS: “[Uma epidemia] corresponde à propagação de uma nova doença em um grande número de indivíduos, sem imunização adequada para tal, em uma região específica. Já pandemia diz respeito a uma doença que se alastrou em escala mundial, em mais de dois continentes”. Além disso, a epidemia difere de uma doença endêmica, segundo a doutora Rosalind Eggo: “uma infecção endêmica está presente em uma área permanentemente, o tempo todo, durante anos”, como a varicela e a malária; epidemia “é o aumento nos casos, seguido por um pico e depois diminuição” e pandemia “é a epidemia que ocorre ao redor do mundo aproximadamente ao mesmo tempo”.

Nas atuais circunstâncias, a peste negra – causada pela bactéria Yersinia pestis contamina entre 1.000 e 2.000 pessoas todos os anos, sendo uma doença endêmica da República Democrática do Congo, Madagascar e Peru. Outros países registram casos de maneira ainda mais esporádica, como é o caso dos Estados Unidos, que registra em média 7 casos da doença todos os anos. Em outros locais, a bactéria causadora da peste bubônica (uma das três formas de infecção) é encontrada em animais, como é o caso do Brasil, que inclusive registrou um caso de peste negra em 2005.

bubonic plague mapped
Países onde ainda se encontra a peste negra. Como a imagem evidencia, diversos surtos já aconteceram no século XXI.

Em 2010, o Peru registrou 32 casos da peste, tendo um deles evoluído para óbito (letalidade de 3,1%). Outro surto tinha acontecido em 2001, quando 4 pessoas foram contaminadas e outra morreu (letalidade de 20%). Madagascar registrou um surto de relativa grande dimensão em 2017, quando cerca de 2.575 pessoas foram infectadas pela peste negra, sendo que 221 delas vieram a óbito (letalidade de 8,6%), e outro surto já tinha acontecido em 2014, quando 263 casos e 71 óbitos foram registrados (letalidade de 27%). Já a República Democrática do Congo já chegou a reportar 1.174 casos suspeitos, e 50 mortes (letalidade de 4,3%), entre 2005 e 2006. Esses são somente alguns exemplos de surtos de maior dimensão em tempos modernos, que ilustram bem como casos de peste negra no século XXI não são nenhuma novidade.

O que todos esses episódios citados têm em comum? Em primeiro lugar, nenhum desses surtos evoluíram para uma epidemia, mesmo quando os casos suspeitos ou confirmados ultrapassaram um milhar, eles ficaram restritos a uma região específica e a um número relativamente pequeno de pessoas. No momento, o surto da Mongólia e China conta com cerca de 4 casos confirmados e 34 pessoas em quarentena, e não há nenhuma razão para temer um escalamento da crise sanitária local, porque ambos os países tomaram medidas preventivas adequadas. Além disso, a Rússia também implementou medidas de segurança. Vale lembrar que tanto a China quanto a Mongólia já tinham registrado casos de peste negra nos últimos anos, porque na região da Mongólia (tanto no país em si quanto na Mongólia Interior, que faz parte da China) existe o hábito de ingestão da carne crua de marmotas, que são um reservatório em potencial da bactéria Yersinia pestis, devido a crença de que o animal teria propriedades medicinais.

Outro ponto que merece destaque é que, diferentemente do século XIV, quando a peste negra matou cerca de 100 milhões de pessoas na Europa, Ásia e África, com uma letalidade que pode ter chegado a 90% em algumas regiões, nenhum desses episódios recentes registrou uma letalidade superior a 30%. Aliás, o CDC americano crava uma estimativa de 11% de letalidade para a praga nos dias de hoje, com um número potencialmente maior para países subdesenvolvidos, enquanto a OMS fala numa letalidade de 8 – 10%. Por que a letalidade de uma mesma doença diminuiu tanto? A resposta é simples: antibióticos modernos, como a estreptomicina, gentamicina, doxiciclina e ciprofloxacina. O grande problema da peste nos dias de hoje é a chance de uma pessoa morrer antes do diagnóstico e apropriado tratamento médico, pois a letalidade pode chegar a 100% em casos não tratados.

E isso nos leva ao ponto final: o desconhecimento a respeito das formas de transmissão, quadro sintomático, medidas de prevenção e tratamentos de uma doença são os fatores que mais favorecem as chances dela se tornar uma epidemia, que então poderia se transformar numa pandemia. Além disso, como a pandemia de Covid-19 ilustra, outro fator decisivo é a ausência de imunidade prévia à doença em populações humanas, uma vantagem que infecções novas possuem. No entanto, a peste negra é uma doença já muito bem conhecida, mapeada, suprimível (sabemos o que fazer contra ela) e com tratamentos eficazes, comprometendo severamente as chances da Morte Negra voltar a aterrorizar a humanidade como um todo. Outro fator decisivo que dificulta a vida da Yersinia pestis é o fato que o mundo obviamente mudou muito desde a Idade Média, especialmente no que diz respeito às condições sanitárias de centros urbanos e na higiene geral da população, não é ao acaso que os países em que a peste negra é endêmica são aqueles que contam com alguns dos piores sistemas de saneamento básico do mundo.

Claro, obviamente a peste negra é uma doença seríssima e jamais devemos subestimá-la, apenas um indivíduo clinicamente insano falaria que uma doença com 10% de letalidade e taxa de contágio considerável não é um problema em potencial. Portanto, meus parabéns às autoridades que – aparentemente – agiram de acordo com os procedimentos necessários para controlar um surto de peste negra, o mundo agradece pelo mínimo de bom senso. Aliás, os roedores silvestres do Brasil podem ser reservatórios naturais da Yersinia pestis, então sempre precisamos ter um moderado grau de atenção com as pulgas desses animais (e obviamente, deve-se evitar comê-los, especialmente sem cozimento).

Enfim, a medicina moderna e o sanitarismo praticamente mataram as chances de uma Quarta Pandemia de Peste (a Primeira Pandemia foi entre 541 e 750/767; a Segunda foi a pandemia do século XIV, mas com desdobramentos que chegaram até no século XVIII; e a Terceira Pandemia aconteceu no final do século XIX e começo do século XX, centrando-se principalmente na Índia e China). O mundo contemporâneo deve sempre ficar atento à peste negra, mas não há nenhuma razão factual para se arrancar cabelos temendo uma epidemia ou pandemia da doença. Felizmente, estamos em 2020, e não em 1320.

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