Entenda: A ligação entre o advogado de Bolsonaro e a seita acusada de sequestrar crianças

Nessa última quinta-feira (18 de junho) foi preso o ex-assessor Fabrício Queiroz. Ele trabalhava para Flávio Bolsonaro (atualmente do Republicanos-RJ) e é amigo da família do presidente da República. Queiroz é investigado por supostamente ser um “laranja” e repassar o salário dos funcionários do gabinete de Flávio para o próprio político. Queiroz foi preso em Atibaia na casa do advogado Frederick Wassef que trabalha para a família Bolsonaro.

Operação prende Queiroz na casa do advogado de Flávio Bolsonaro. Foto: Reprodução/TV Globo.

Em meio às informações que foram levantadas no dia de ontem, uma chamou atenção: Wassef já teve uma prisão preventiva decretada contra ele, embora não tenha sido acatada pela Justiça, por envolvimento em uma seita acusada de matar uma criança em um ritual. A criança do caso era Leandro Bossi.

Uma reportagem da Época de 2019 já falava sobre o caso de Wassef. Na época, ele trabalhava para o senador Flávio Bolsonaro e conseguiu uma grande vitória quando o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, suspendeu todas as investigações feitas com base no compartilhamento de dados bancários sem autorização judicial. Wassef é ainda o advogado do presidente no caso Adélio.

Wassef conhece a família do presidente desde 2006, mas o que quase lhe rendeu uma prisão preventiva aconteceu em 1992. Quando tinha 26 anos, ele foi advogado de Valentina de Andrade, uma líder de uma seita chamada LUS (Lineamento Universal Superior), fundada na Argentina.

Matéria do Jornal do Brasil de 1992 fala do pedido de prisão contra o casal Valentina de Andrade e Jorge Teruggi, e do advogado Frederick Wassef. Foto: Reprodução.

A seita acreditava em contatos com extraterrestres, segundo o texto da Época, e era acusada de participar de rituais de magia negra com sacrifício de crianças. Wassef convivia com os membros da seita e era próximo de Valentina, por isso foi feita uma prisão preventiva contra ele.

Mas no final Valentina não foi indiciada e a prisão temporária do advogado nem foi apreciada pela Justiça. O próprio Wassef prestou depoimento na delegacia por iniciativa própria. A relação entre os dois, segundo o próprio Frederick Wassef, teria começado quando eles começaram a trocar correspondência após ele ler o livro da líder, intitulado “Deus, a grande farsa”.

As investigações eram um desdobramento da investigação do caso Evandro.

Desaparecimento de crianças

O caso Evandro chocou por sua violência e brutalidade. Também conhecido como As Bruxas de Guaratuba, o ocorrido foi o desaparecimento em 6 de abril de 1992 de Evandro Ramos Caetano de apenas 6 anos. Seu corpo foi encontrado dias depois, mutilado e desfigurado.

Beatriz Abagge e sua mãe, Celina, foram acusadas pelo crime. Elas teriam cometido as atrocidades em um ritual de magia negra. Elas foram julgadas em 1998 e inocentadas, mas o júri foi anulado no ano seguinte e o julgamento foi retomado em 2011. Beatriz foi condenada a 21 anos e 4 meses de prisão, mas conseguiu um perdão de pena em 2016.

Além delas, também foram julgados o pai de santo Osvaldo Marcineiro, Vicente Paulo Ferreira e Davi dos Santos Soares. Condenados pelo caso em 2004. Outros dois foram Francisco Cristofolini e Airton dos Santos, absoldivods em 2005.

Vale ressaltar que em 2011 a revista IstoÉ publicou uma reportagem denunciando que Beatriz Abagge e sua mãe foram vítimas de tortura por parte das autoridades para que falassem que cometeram o crime. Outra vítima disso teria sido o pai de santo Osvaldo Marcineiro.

Tudo isso e muito mais sobre o caso pode ser ouvido no podcast “Projetos Humanos” do professor e jornalista Ivan Mizanzuk que há anos trabalha no caso. Ele publicou ainda em março desse ano áudios que comprovariam a tortura sofrida pelas investigadas do caso, como mostra o G1. Mas como tudo isso se relaciona com Frederick Wassef?

No mesmo ano de 1992, dois meses antes do desaparecimento de Evandro, também em Guaratuba, desapareceu o garoto Leandro Bossi de apenas 8 anos. Seu caso passou despercebido na mídia até que ocorreu o caso de Evandro. Até hoje não se sabe o que aconteceu com Leandro.

Como consta no texto da reportagem do Poder 360, os investigados no caso Evandro teriam confessado que também haviam sequestrado Leandro e o entregue a uma mulher estrangeira: Valentina de Andrade.

Foto: Reprodução/ Acervo Estadão.

O jornal Estadão da época com o título “Polícia pede prisão de líder da seita satânica”, publicou um texto falando sobre os pedidos de prisão, feito pelo delegado Luis Carlos de Oliveira, contra Jorge Teruggi, esposo de Valentina e classificado como líder da seita, e Frederick Wassef.

Como mostra a reportagem do Poder 360, Wassef na época do desaparecimento de Leandro estava hospedado no hotel Vila Real, onde a mãe do garoto trabalhava. Ele estava ali acompanhava o grupo Lus. Valentina chegou a se abrigar inclusive na casa de Wassef em Atibaia. A mesma onde estava Queiroz.

O portal Metrópoles fala ainda que os investigadores do caso Leandro Bossi encontraram uma fita que mostraria Jorge Teruggi pedindo para que Valentina de Andrade matasse uma criança.

Ainda segundo o Poder 360, os investigadores não encontraram ligação entre a seita e os desaparecimentos dos dois garotos. Valentina ainda foi investigada pelo caso dos Meninos de Altamira, uma série de assassinatos, abusos e mutilações de jovens, entre crianças e adolescentes.

O caso chamava tanta atenção por sua violência e horror que até mesmo a OEA estava pressionando para que a justiça fosse feita.

Na época os membros da seita Anísio Ferreira de Sousa e Césio Brandão foram acusados de terem cometido os crimes em rituais de magia negra, junto a outras pessoas. Mas de novo aqui encontramos suspeitas de que confissões foram feitas sob tortura, como traz o texto de Bruno Paes Manso no Estadão. Valentina foi absolvida do caso e em 2003 o mecânico Francisco das Chagas Rodrigues de Brito assumiu a autoria dos crimes e foi condenado.

O envolvimento de Frederick Wassef no desaparecimento das crianças no Paraná também foi descartado pela polícia.

Por fim, vale ressaltar que o portal de notícias do STF publicou um texto em 2003 falando que “Também fez questão de frisar que, no Paraná, “restou evidenciado que nem Valentina, nem o seu então marido José Teruggi e tampouco os membros do LUS – Lineamento Universal Superior – estavam envolvidos no desaparecimento de menores paranaenses, tanto que sequer indiciados foram no inquérito instaurado a respeito”.

Uma edição do Jornal do Brasil de 1992 salva no arquivo da Biblioteca Nacional também mostra que o casal Jorge Teruggi e Valentina de Andrade já não eram mais suspeitos pelo desaparecimento das crianças em Guaratuba. Sobre a fita, eles disseram que ocorreu um mal-entendido, e que os investigadores entenderam que o argentino falou “mate a criancinha que eu lhe pedi” quando na realidade eles teriam se confundido por causa do espanhol do líder da seita, que quis dizer “mas tem criancinhas que são experientes”.

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