Lançado em momento oportuno, novo filme de Spike Lee tenta dar voz e rosto à experiência afro-americana no Vietnã

No começo de maio, pouco depois do anúncio de que filmes lançados diretamente em serviços de streaming durante a pandemia de covid-19 seriam elegíveis ao Oscar, a Netflix anunciou que o novo filme de Spike Lee, Da 5 Bloods (no Brasil Destacamento Blood), seria lançado no dia 12 de junho na plataforma. Dificilmente os executivos da plataforma ou Lee pensavam que o lançamento do filme se daria em um momento tão oportuno.

No filme, Lee tenta dar conta da experiência afro-americana na guerra do Vietnã a partir da experiência de quatro veteranos afro-americanos que retornam ao país asiático para recuperar um baú de ouro que eles enterraram durante a guerra e os restos mortais de Stormin’ Norman (Chadwick Boseman), antigo companheiro de esquadrão e mentor político deles que foi morto em combate. Para tal, o cineasta aposta em uma estrutura clássica de aventuras hollywoodianas com eventuais contextualizações de época, com uma narrativa que varia entre presente e passado, sempre realçados por uma mudança muito clara na razão de aspecto e na granulação da imagem.

O personagem que ganha mais destaque e desenvolvimento durante a jornada é Paul (Delroy Lindo), que ao mesmo tempo em que nunca superou a morte de Norman, precisa lidar com a relação complicada que tem com seu filho, David. Lindo vive Paul com tanta intensidade que rouba qualquer espaço que os outros personagens poderiam ter e se torna o motor da trama. Se Lindo vive Paul com muita intensidade, ele também dilui qualquer chance dos outros personagens se desenvolverem de forma satisfatória.

O excesso de personagens talvez seja o grande problema de Da 5 Bloods. Lee e seus três co-roteiristas tentam abarcar tantos elementos na trama que todos acabam um tanto desconexos e mau desenvolvidos. No começo do filme faz-se questão de afirmar (e ilustrar) que Paul é um eleitor de Donald Trump e posteriormente o personagem aparece vestindo um boné com a frase de campanha do republicano, mas o desenvolvimento dessa questão se limita a isso, sem em nenhum momento tentar entender como alguém que em um flashback se revolta com o assassinato de Martin Luther King se tornaria trompista após algumas décadas.

Dentre tantos elementos desconexos, talvez o que seja mais interessante no filme seja o retrato de uma dominação simbólica e cultural dos estadunidenses. Não apenas os veteranos de guerra são tratados cordialmente como turistas por diversos vietnamitas (com algumas exceções que os confrontam frontalmente) mas vemos diversos símbolos imperialistas nas paisagens do país estrangeiro tratados de forma natural (como um McDonald’s na rua e um letreiro da Budweiser dentro de uma boate) e, consequentemente, uma fetichização da guerra e da barbárie promovida e cometida pelos americanos. Apocalypse Now se torna tema de festa, a cavalgada das valquírias que guia os helicópteros de Coppola aqui ilustra um passeio de barco e os horrores da guerra são vistos sob o filtro nostálgico película de 16mm.

Temendo que seu filme se limitasse a um olhar nostálgico a um passado efervescente, Lee faz questão de ilustrar todas as citações a pessoas e eventos reais que seus personagens citam, com a inserção de imagens de arquivo e legendas. Se a iniciativa de dar face à história é notável e rende um momento memorável quando num jogo de sobreposição de imagens muito forte, na maior parte do filme acaba se limitando a um didatismo irritante e desnecessário.

A partir dessa tendência ilustrativa na qual Lee aposta desde a sequência de abertura do filme chamam atenção as cenas de violência muito bruta que Lee recupera dos arquivos. Nesse ano o cineasta também lançou o curta-metragem 3 Brothers: Radio Raheem, Eric Garner and George Floyd, no qual ele recupera as imagens do assassinato ficcional de Radio Raheen (personagem de sua obra-prima, Faça a Coisa Certa) e dos assassinatos reais de Eric Garner e George Floyd pela polícia.

Assim como em Destacamento Blood, Lee não se furta a confrontar o espectador com imagens reais de execuções de crianças e bebês vietnamitas. No curta-metragem ele também obriga o espectador a assistir a imagens de assassinatos reais muito revoltantes, de forma que ao mesmo tempo em que retrata que nada mudou no trato da polícia aos afro-americanos, gera uma revolta no espectador ao apelar primordialmente ao páthos.

A estratégia em Da 5 Bloods é similar. Lee busca expor em imagens o horror que foi a ação estadunidense no Vietnã, por mais que o filme nunca se aprofunde na questão muito além do choque superficial de reproduzir imagens já há muito tempo difundidas que tentam dar visão ao horror e que, em muitos casos, acabam exauridas.

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