Podcast: o fenômeno em amplo crescimento

A ABPod (Associação Brasileira de Podcasters) divulgou este ano que há mais de 7 mil programas de podcast ativos no país. E de acordo com dados do Spotify, o Brasil já é o segundo maior consumidor do formato, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.

Para quem não sabe, podcast é como um vídeo na internet. Pode ser colocado para “rodar” a hora que o usuário quiser, com a diferença de que não há imagens como num vídeo do YouTube, apenas áudio. Como um programa de rádio. Com a vantagem de que, como dito, pode ser tocado a hora que a pessoa quiser e hoje há vários produtores de podcast.

Professor e podcaster Marcelo Abud com seu equipamento de gravação.

Perguntando sobre a diferença entre rádio e podcast, o professor Marcelo Abud da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), com passagem na Rádio Gazeta, diz que para ele é a liberdade:

“O podcast para mim representa liberdade, basicamente é a linguagem radiofônico nas suas mais variadas formas, só que com uma liberdade de tempo, conteúdo, com uma infinidade de assuntos que eu não poderia abordar no rádio e que a internet permite. Essa é a principal diferença que eu vejo”

Abud é um pioneiro desse formato digital no país, tendo criado em 2006 o “Peças Raras”, podcast sobre a história do rádio e entrevistas com comunicadores. A ideia de criar algo do tipo surgiu ainda em 2005 quando o professor universitário viu uma matéria de uma revista sobre podcasts e que falava sobre o projeto de Adam Curry, ex-VJ da MTV e empresário que criou o primeiro agregador de podcasts. O podcast como conhecemos hoje se deve a Curry.

2019: o ano decisivo

Marcelo Abud acredita que o grande ano do podcast foi 2019: “Foi o que marcou a popularização dessa mídia em todas as camadas sociais. Rádios comunitárias reproduzem podcast, então chegou para todo mundo. Isso muito em função do investimento do Google e do Spotify que entrou com tudo para ser o que chamam de “a casa do podcast”, e aqui no Brasil quando o sistema Globo entra nesse panorama, a coisa se disseminou”.

Imagem: Reprodução/G1.

A entrada do sistema Globo de rádio com a CBN e outros como o Morning Show da Jovem Pan ilustram o fim da resistência das emissoras ao podcast. O fim da imagem como “a mídia que rouba audiência”, algo que também era vislumbrando no conflito “TV tradicional vs Vídeos/Streaming”.

“Acho que a audiência no rádio, junto ao público jovem, realmente caiu bastante, e por um descuido do próprio rádio. E não tem a ver com a linguagem, tanto que os podcasts estão ocupando esse espaço. O “Café da Manhã” da Folha, é um dos 10 mais ouvidos do Brasil, e eu tenho relatos de pessoas adultas, não só jovens, que estão trocando o noticiário que ouviam no rádio pelo “Café” da Folha”.

O professor universitário ainda fala sobre um amadurecimento do formato no Brasil. Embora o formato que ainda prevaleça seja aquele da “conversa descontraída com diferentes pessoas”, base de muitos podcasts que se inspiraram no Nerdcast, hoje há outros modelos no ar. A ABPod constatou um aumento no número de podcasts no país. E com isso, mais assuntos são tratados nessa mídia.

Marcelo Abud exemplifica isso mostrando que até a indústria do entretenimento adulto está se lançando para essa mídia. Citando o aumento de podcasts ativos. Abud fala como isso cria um meio em que as pessoas estão falando para todo mundo. “Milhões pra um”. Enquanto a mídia tradicional seria um canal falando para um, os podcasts são vários canais falando para um:

“Então cada um vai encontrar aquele que curte. Muitas vezes o podcast vai ter dez pessoas que ouvem, participam ativamente, então é isso, é um universo infinito”, explica o professor universitário.

Marcelo Abud também fala como esse “boom” dos podcasts mudou o cenário para o seu podcast:

“Eu tenho hoje menos audiência do que tinha em 2006 porque na época eu não tinha concorrência”, conta Abud, rindo. “Eu concorria com cinco canais, cheguei a ser o podcast mais ouvido do Brasil, ganhei concurso de melhor podcaster, tudo isso em 2007. O retorno que eu tinha antigamente era muito maior”.

Novas iniciativas

Quem também passou a produzir podcast e com um conteúdo um pouco mais diferenciado, no caso filosofia, é Gustavo Dainezi, professor formado em relações publicas pela USP e doutorando em Comunicação e Consumo pela ESPM. Ele conta que pessoas próximas já haviam sugerido dele fazer um projeto do tipo, mas nunca tinha tempo com o trabalho, estudos e a vida pessoal. Algo que mudou quando em um acidente em casa ele quebrou o pescoço e precisou se tratar e descansar:

“Eu percebi que eu tinha muita coisa boa para dizer nesse momento em que as pessoas precisam tanto, que é esse momento de pandemia, isolamento social. Eu quis trazer um momento de conforto e de esperança, uma mensagem que ajude as pessoas a encontrarem uma saída, mesmo que seja uma saída filosófica. A saída filosófica é uma saída prática. E aí eu comecei o meu podcast “Filosofia na Quarentena””.

Podcast de filosofia do professor Gustavo Dainezi. Foto: Reprodução.

Dainezi conta ainda de como está sendo sua experiência como produtor de conteúdo e falou sobre o mercado digital. Para ele há uma dupla face: Ao mesmo tempo em que existe a impressão de que é um mundo super vasto de produção em que é possível ganhar dinheiro, ser alguém, a comunicação de hoje de fato seria muito mais concentrada do que ela já foi um dia.

“Eu digo isso por um motivo muito simples: hoje a comunicação digital tem no máximo 4 centros. Não tem um bilhão de centros como seria imaginado no ponto de vista do produtor. Se você produz um produto e coloca ele no YouTube, o dono dessa comunicação é o YouTube. Você não controla as condições dessa comunicação. Então o mercado digital é mais concentrado do que nunca”.

Dainezi diz que procura nesse meio produzir um conteúdo que não tenha interesse nos “jogos da comunicação digital”, dos digital-influencers: “Meu objetivo não é conectar anunciantes a compradores, mas sim conectar mensagens importantes as pessoas e essa é a minha presença nesse grande universo digital de produção de conteúdo”.

Gustavo está muito contente com a repercussão de seu podcast. Ele conta que ficou surpreso com o alcance, sendo que seu conteúdo não é entretenimento, mas filosofia. Dainezi recebeu mensagens de alunos de graduação e pós-graduação dizendo que seu trabalho “deu uma luz” para o que iriam pesquisar de carreira.

Questionado se as pessoas hoje estão se interessando mais por filosofia, ele discorda: “Acho que existe uma necessidade muito grande de reflexão sobre a vida, sofrimentos e angustias que a gente passa. As pessoas procuram alguma forma de tentar resolver essas questões”.

Entre as formas ele cita as que classifica como “mais produtivas” que incluem tratamento com profissionais como psiquiatras.

“A filosofia também é uma dessas formas. Ela é um exercício mental, que muitas vezes traz sofrimento. Mas eu tento sempre trazer uma saída. Eu nunca termino uma aula sem dar uma função para aquilo que aprendeu, uma alternativa, ou pelo menos o lado bom desse aprendizado que pode ter sido deprimente. Eu entendo que a filosofia seja uma das melhores maneiras intelectuais para a gente buscar respostas. Claro que em complemento as terapias que eventualmente sejam necessárias de se fazer”.

Outra forma que as pessoas buscariam, mas “muito menos eficientes do ponto de vista de ganho real”, segundo Dainezi, são o que ele chama de “coachs da vida” e também os livros de autoajuda. Aos quais o doutorando em Comunicação e Consumo atribui a função de maquiar o sofrimento de uma maneira eficiente, mas somente isso.

À esquerda o cantor Serginho Tanigawa sendo entrevistado pelo podcaster Mario Okuhara.

Outra pessoa que também começou a produzir seu próprio podcast foi Mario Okuhara, formado em Direito, produtor e dono da MJ Produções. Fã de podcasts, ele contou escutar vários, entre eles o Café Brasil, Xadrez Verbal e o 80 Watts. Okuhara também escuta canais americanos e japoneses.

“Eu consigo perceber um vasto universo de podcast que não é só o clássico que a gente costuma ver por aí que é o “papo de boteco”, junta três pessoas que começam a falar. Tem coisa com uma produção dedicada por trás, audiodrama também, o “Contador de Histórias” faz um trabalho maravilhoso”, conta Mario.

Do audiovisual para o som

Para ele a produção de podcast de temática japonesa, o “+81 Código de Área do Japão”, representou uma transição do audiovisual para o som. Seu pai era dono da produtora M. Okuhara TV Produções Ltda, que fazia o Imagens do Japão, programa de variedades que passou por algumas emissoras, a primeira sendo a Rede Tupi.

“Comecei a pensar num modelo que pudesse encaixar essa tradição da família, esse intercambio entre Brasil e Japão. Só que eu não queria fazer um podcast como fazíamos antigamente o “Imagens do Japão”. Então eu fui escutando, anotando o que eu achava legal.

Mario também contou com a experiência com o rádio adquirida na rádio Bandeirantes e na rádio Capital de Bastos em que ele faz programa de música com sua mãe, cantora e que já foi apresentadora do Imagens do Japão nos anos 1970.

Podcast sobre injúria racial contra japoneses no Brasil. Foto: Reprodução.

Um dos episódios do podcast trata inclusive sobre injúria racial contra amarelos. Um tema que ele trabalhou muito no “Projeto Abrangências” e em seu documentário “Yami no Ichinichi – O Crime que abalou a Colônia Japonesa no Brasil”.

“A gente fala muito sobre o passado, Segunda Guerra Mundial, mas e agora? Comecei a pesquisar sobre isso e tive a sorte de achar alguns relatos, até publicados na imprensa, de injuria racial contra nipo-brasileiros. Não adianta falar só sobre o passado, que dá todo o embasamento histórico, tem que combatar no presente. Você vê essa questão aqui, coronavírus, é o vírus chinês, como fala? Então eu acho que hoje falar sobre injuria racial é mais necessário do que nunca”.

Mario também avalia que é percepítivel o aumento do consumo de podcasts, algo possibilitado também pelo Spotify que ajuda muito na disseminação desse formato e que facilita o acesso para usuários. Porém ele acredita que mesmo assim ainda não é uma mídia muito popular: “Há ainda esse ponto de popularizar, tem muito chão ainda”.

Uma nova forma de ouvir

Sobre o futuro do podcast, o professor Marcelo Abud também acredita que haverá uma mudança na forma de consumí-los, algo que já está acontecendo nesse período de pandemia do Covid-19:

“Eu acredito que em relação ao podcast o que tem acontecido é justamente essa percepção de que as pessoas não ouvem o podcast para passar o tempo, não ouvem porque estão muito atarefadas e o podcast pode seguir na academia, no ônibus. Elas param para ouvir também, dedicando um horário específico para isso, essa é uma mudança. Tanto para o rádio quanto para o podcast”.

O professor da FAAP explica que as pessoas pararam de escutar com atenção o rádio, que teria passado a ser uma ruído de fundo. Hoje ele considera que os ouvintes estão parando para entender e ouvir com maior foco. Eles estariam se preocupando mais com o que estão ouvindo. Até pelo excesso de fake news nas redes sociais. O que influencia numa volta para os meios de comunicação tradicionais e aos comunicadores que gostam.

“O publico vai procurar informações e conteúdo em que ele possa perceber que não é algo feito de qualquer jeito. Seja entretenimento ou informação. Que tem uma dedicação para o ouvinte”.

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