“Have a Good Trip”: Documentário da Netflix que conta experiências psicodélicas de famosos é criativo, mas não garante todas as risadas

Um dos lançamentos do último mês de maio da Netflix foi “Maior Viagem: Uma Aventura Psicodélica”, um documentário que explora e ilustra as experiências bizarras de personalidades famosas após tomarem LSD. O filme – que é talvez mais conhecido por seu nome original Have A Good Trip: Adventures In Psychedelics – tem como grande chamativo o seu elenco de entrevistados, incluindo os músicos Sting e A$ap Rocky, os comediantes Sarah Silverman e Nick Kroll, e a saudosa Carrie Fischer, dentre muitos outros. Some-se a isso a ideia de materializar as histórias mais malucas por meio de animações e está aí um candidato promissor para a sua próxima escolha de streaming na quarentena. Porém, à medida que se desenvolve, Have A Good Trip produz piadas que nem sempre fazem jus à fama de seus entrevistados, bem como revela a limitação de sua proposta.

O documentário traz uma abordagem claramente humorística. Não à toa, foi escrito e dirigido por Donick Cary, que construiu uma carreira de sucesso na comédia televisiva americana, tendo créditos de roteirista no Late Night With David Letterman, “Os Simpsons” e em Parks & Recreation, além de produtor nestes dois. Logo, Cary vai procurando os detalhes mais engraçados nos depoimentos do seu time de famosos.

Mas, vai além disso e também explora as experiências espirituais e epifanias das pessoas após tomarem LSD ou outras substâncias alucinógenas, além dos perigos das bad trips. Sting é um que frisa sobre como o ácido o ajudou a ter uma relação melhor com o mundo e consigo mesmo, e o médico e autor Deepak Chopra desenvolve acerca de conceitos relacionados às experiências psicodélicas da mente. Também somos apresentados a perspectivas históricas e atuais envolvendo a pesquisa médica dessas substâncias para tratamentos, enquanto um professor de psiquiatria da UCLA é a única voz que efetivamente representa a pesquisa médica no filme. 

Adam Scott como o apresentador do fictício “LSD Afterschool Special”, que aparece durante o documentário. Segmento é um dos mais irregulares. Foto: Netflix.

A produção, à cargo de outras figuras ligadas à comédia como Ben Stiller (que também conta sua “aventura psicodélica”), se juntou ao diretor Cary para trazer participações de grandes nomes desse meio dos EUA, e não apenas para dar entrevistas. Nick Offerman, por exemplo, aparece como uma espécie de apresentador do documentário, interpretando um caricato cientista que vez ou outra guia o espectador em meio aos temas levantados pelas entrevistas. Já Adam Scott apresenta um falso e piegas Afterschool Special – programas especiais exibidos nas TVs americanas para a conscientização de jovens sobre temas sensíveis, especialmente o uso de drogas; muito utilizados nas décadas de 1970 e 80. Cary se utiliza desses mecanismos de um filme dentro de outro para satirizar as velhas e estereotipadas visões das autoridades sobre os psicotrópicos. Por outro lado, na tentativa de dar dinamismo e diversidade de linguagem, estes segmentos, na prática, não são tão engraçados quanto parecem querer ser. 

Em meio à boneca russa de imagens, Have A Good Trip acerta ao separar os relatos de cada personalidade em episódios, ainda que não se prenda totalmente a isso. Há as histórias mais leves e mais sérias, e dentre elas, inevitavelmente, as mais e menos interessantes, as mais divertidas e outras sem muita graça. Destaca-se o relato do músico Adam Horovitz (o Ad-Rock do Beastie Boys), que, quando sob efeito de ácido, achou uma boa ideia ser levado por homens desconhecidos a um local onde alegaram que poderiam ajudá-lo a trocar o pneu furado de seu carro. E vale ressaltar também a experiência descrita pelo, já falecido, chef de cozinha e apresentador Anthony Bourdain, que viu uma recém-conhecida quase morrer de overdose depois de consumirem um verdadeiro coquetel de drogas.

Os atores Blake Anderson e Adam Devine em reconstituição barata da história contada por Bourdain. Foto: Netflix/Observador.

Os relatos de Ad-Rock e Bourdain são exemplos das distintas ideias de representação das viagens dos entrevistados que o filme apresenta. A história do primeiro é mostrada como uma animação e a do outro por uma reencenação de baixíssimo orçamento, onde Bourdain é interpretado por Adam Devine. Variar os mecanismos de materialização dos relatos contados mostra-se como outra ideia interessante, e mais engraçada, para não deixar o filme repetitivo e nem cansar o espectador, ainda que isso acabe acontecendo um pouco. 

Donick Cary parece querer usar todas as artimanhas que tem em mãos para tornar o seu filme em algo além de uma longa conversa do espectador com os seus amigos chapados ou de uma sequência de entrevistas de seus ídolos famosos falando de suas experiências com alucinógenos. No entanto, Have A Good Trip termina por ser isso com lampejos de criatividade e uma ou outra sacada hilária.

Os famosos advertem: “Quando estiver numa trip, não olhe as suas mãos.” Foto: Reprodução Trailer/Netflix.

Tendo em vista a sua proposta interessantíssima e criativa, o documentário também deixa a desejar quanto às possibilidades de representação que uma arte como a animação permite. É bem verdade que há uma evidente diferença de estilo e técnica para cada vez que é utilizada – ora traço de desenho infantil, ora uma animação cartunesca, ora rotoscopia (animação sobre uma imagem captada em live-action). Mas, para um tópico onde o assunto é a percepção da realidade humana completamente alterada, é passada a sensação de que o uso da animação poderia ter ido mais longe. É um recurso utilizado de uma forma que ainda se limita um pouco ao literal das falas no filme, de modo que certos segmentos animados poderiam ser facilmente substituídos por reencenações. As artes animadas são um dos pontos fortes do filme, mas ainda falta uma maior exploração do abstrato à lá Yellow Submarine (1968), clássico longa-metragem de animação inspirado na obra dos Beatles e que também explora a estética psicodélica.

Have A Good Trip é um filme que se assume como entretenimento, mas não deixa de conscientizar sobre o uso dos alucinógenos, algo que, em falta, poderia facilmente ter trazido uma consequência problemática para a produção. Diversos membros do elenco alertam que a droga não é para qualquer um, além de contarem alguns traumas com suas bad trips e soltar dicas para o uso seguro. E isso é feito sem soar muito brega ou moralista.

Sem atingir tudo aquilo que poderia ser, tendo em vista os nomes envolvidos e as diferentes linguagens à disposição, Have A Good Trip pode ficar mais limitado a seu nicho de interessados pelo tema dos psicotrópicos e fãs dos entrevistados. Mesmo assim, ainda diverte, sem perder o tato de informar enquanto faz suas piadas.

O filme está disponível no catálogo do Netflix.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s