Coluna: A fidelidade da torcida corintiana à democracia

Em tempos de crise do coronavírus, há um fato que chamou a atenção da imprensa durante às manifestações que polarizaram o Brasil no ultimo domingo: a presença de torcedores uniformizados do Corinthians na Avenida Paulista. Unidos aos manifestantes que foram às ruas em prol da democracia e contra as atuais tendências governamentais de promover uma ruptura entre as instituições democráticas do país, os corintianos se fizeram presentes para demonstrar insatisfação com o governo de Jair Bolsonaro. E o mais chocante: manifestaram-se contra o governo ao lado de uniformizados torcedores do arqui-rival, Palmeiras!

O estopim para a ocorrência das manifestações no último domingo foi o assassinato brutal do norte-americano negro George Floyd, ocorrido em 25 de maio deste ano, no Estado norte-americano de Minnesota. O assassinato foi promovido por um policial, cuja cor de pele era branca, que utilizou o joelho para impedir a respiração de Floyd, já imobilizado, durante aproximadamente oito minutos.

As manifestações de revolta contra o ocorrido começaram em âmbito local. Mas após a notícia se difundir, houve uma sucessão de movimentos nos Estados Unidos que conferiram ao crime uma notoriedade em escala global. Manifestações anti-racistas mobilizaram pessoas de diversas partes do país, que condenaram com veemência a atrocidade e reivindicaram medidas efetivas no combate ao racismo e a todas as formas de violência dele decorrentes.

As manifestações norte-americanas repercutiram no Brasil e serviram como pretexto para que as pessoas fossem às ruas protestar contra a violência praticada contra os negros há seculos no país. Contudo, no Brasil, as manifestações tiveram uma peculiaridade: foram voltadas não só à condenação de práticas discriminatórias, mas também contra o momento crítico enfrentado pelo país. Com mais de 30.000 brasileiros vitimados pela pandemia do coronavirus, e diante de um governo cujos discursos acenam para uma possibilidade de fechamento do STF e do Congresso Nacional, manifestantes foram às ruas para pedir respeito incondicional aos valores consagrados pela Constituição Federal e ao Estado Democrático de Direito.

Em meio a esse tenso momento político vivido pelo país, um fato notório das manifestações em São Paulo foi presença de torcedores do Corinthians ao lado de palmeirenses uniformizados. Os torcedores de ambos os times ignoraram por um momento a rivalidade centenária entre os times para se unirem a um movimento cuja finalidade é a preservação da democracia. Pelo menos naquele momento, os torcedores deixaram de lado a rivalidade esportiva para lutarem por algo mais relevante do que qualquer rivalidade futebolística.

A presença de corintianos nas manifestações reafirma a idoneidade do clube de se mobilizar quando os pilares da democracia estão em risco. Desde a Democracia Corintiana, liderada por ídolos corintianos como Wladimir, Zenon, Sócrates e Casagrande, que consolidou o engajamento político do clube durante a ditadura militar, a torcida corintiana demonstra proatividade nessa luta, mesmo que para isso seja necessário manter uma proximidade com os torcedores rivais.

Simples atitudes tomadas à época pelo clube, como a necessidade de submeter à votação popular a possibilidade de contratação ou demissão de jogadores, foram suficientes para caracterizar a Democracia Corintiana como um movimento pautado pelos ideiais democráticos. A redemocratização do país recebeu do clube um tratamento tão prioritário quanto a necessidade de conquistar um título.

Como corintiano que sou, afirmo que é esse o motivo pelo qual recebemos a alcunha de “Fiel”. Não somos fiéis apenas a um time. Somos fiéis à resistência contra regimes autoritários e à luta do povo contra todas as formas de opressão. Somos fiéis à luta dos negros desse país, que vivem em situação de vulnerabilidade e são as maiores vítimas de diversas formas de discriminação e violência. Somos fiéis à todas as formas de liberdade. Somos fiéis à Democracia.

Por isso, não há palavra que nos defina melhor do que essa: “Fiel”.

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