Regina Duarte: despreparo, descaso e desrespeito

Regina Duarte, secretária da cultura, apresentou nesta semana, em entrevista à CNN Brasil, seu lado mais obscuro. Se antes as diretrizes da secretaria já eram duvidosas, agora está claro que são baseadas em egoísmo, descaso e rejeição à opinião.

Logo de início, Regina Duarte apresenta uma contradição. Diz na entrevista que aceitou o cargo na Secretaria de Cultura para servir ao país, mas logo depois afirma estar a serviço do governo do presidente Jair Bolsonaro. Entre outros absurdos, Regina afirma que o fato de uma de suas nomeadas ser filiada ao PSDB foi um problema burocrático que levou à revogação da nomeação. Após ser questionada pelo entrevistador, a secretária afirma que a cultura está acima de partidos, mostrando que, certamente, a questão é ideológica, mais do que burocrática.

A secretária afirma ainda que sua assessoria cobrou da Secretaria de Cultura um posicionamento público sobre as mortes de pessoas importantes para a cultura, mas a secretária optou por enviar mensagens privadas às famílias, pois a secretaria não deveria virar um obituário.

É de extrema importância que, quando um colega de profissão falece em circunstâncias tão adversas, como é o caso do ator Flávio Migliaccio, haja um pronunciamento, não apenas de Regina Duarte como atriz, mas da Secretaria de Cultura. Tratar as mortes desta forma demonstra não apenas uma falta de tato para lidar com a questão, mas falta de empatia com os colegas como pessoas, mais até do que como profissionais, e seus familiares e fãs.

Regina ainda justifica seu silêncio com o fato de não conhecer pessoalmente algumas destas pessoas, por exemplo Adir Blanc, desmerecendo assim tudo o que estes finados artistas significaram para a classe artística, como se tivesse mais importância a relação informal com a secretária do que o legado de grandes artistas para o país. Sem nenhum apreço pelo luto dos artistas que não conhecia pessoalmente, Duarte sugere a criação de um obituário no site da Secretaria de Cultura com uma pequena biografia de cada artista falecido.

Logo em seguida, Regina é questionada sobre, como artista, estar associada ao governo de Jair Bolsonaro, que inúmeras vezes criticou a classe artística e defendeu ditadores e torturadores. A secretária responde que acredita que a cultura está acima de direita e esquerda e que segue apoiando o governo, pois acredita ser a melhor opção e as coisas que aconteceram durante a ditadura devem ser esquecidas, deixadas para trás e diminui a gravidade do período afirmando que em toda a humanidade há morte e não deseja arrastar um cemitério de mortes em suas costas, desmerecendo toda a luta contra a ditadura e a censura, dizendo que a COVID-19 traz uma morbidez que a secretária não suporta.

Nesta fala, notamos mais uma vez a falta de empatia com as milhares de famílias que sofreram durante a ditadura e sofrem ainda hoje, sem nunca ter tido notícias de seus entes queridos que, muito provavelmente, foram brutalmente torturados e assassinados. O discurso de Regina mostra também o descaso com todos os sobreviventes das atrocidades cometidas pelos militares no período em questão.

Mais uma vez trazendo seu descaso e falta de empatia, Regina Duarte minimiza a necessidade e a urgência da classe artística, dizendo que os trabalhadores informais já receberam o auxílio emergencial de R$600,00 durante três meses, e, depois disso, decidiram o que será feito se o problema da pandemia não estiver solucionado.

Duarte apresenta uma enorme falta de consideração com colegas de profissão que estão começando e não têm como se manter durante a pandemia, e deixa claro que não consegue ver além de seus privilégios. Aos olhos da secretária de cultura, a flexibilização de prazos para pagamentos é mais que suficiente para o artista local, e ainda deixa claro que haverá a exigência de documentos que comprovem a necessidade. Assim, Regina se contradiz, inserindo na carga do trabalhador informal e artista local a burocracia que ela mesma critica durante a entrevista.

Após muito desmerecer o trabalho dos pequenos artistas, a secretária segue repetindo que o auxílio emergencial é suficiente e traz a questão dos circos, os quais afirma ter auxiliado pedindo para que cada prefeito incentivasse a população local a doar cestas básicas e outros essenciais, pois aqueles não poderiam receber o auxílio, uma vez que eram itinerantes e não possuíam endereço ou registro. Neste ponto da entrevista, Regina Duarte segue desmerecendo o pequeno artista, esquecendo-se de que um dia foi uma artista local, e tratando artistas itinerantes como indigentes.

Durante todos os momentos, Regina também faz questão de deixar claro que não se importa com a oposição ao seu trabalho, afirmando que quem está descontente com seu apontamento para o cargo é “uma minoria gritalhona”. Neste momento, fica claro que a secretária apresenta uma certa dificuldade em ouvir críticas. Ainda esbraveja e faz a mesma pirraça que criticou a ouvir críticas de um comunicado da atriz Maitê Proença. Após muito interromper, criticar e silenciar os jornalistas, Regina entra em colapso ao ser contrariada pela ex-colega de profissão.

Regina Duarte afirma, na entrevista, que quer deixar um legado como secretária da cultura, mas o que aparenta estar se preparando para deixar, sempre repetindo que a mídia e a oposição estão desenterrando mortos, é um legado de desrespeito, intolerância, descaso e desprezo. A secretária evita se posicionar sobre o evidente preconceito do governo que apoia e segue diminuindo anos de lutas, mortes, censura e tortura durante a ditadura militar. Regina não consegue demonstrar o mínimo de empatia com famílias que nunca conseguiram enterrar seus parentes e com sobreviventes que foram torturados dos modos mais brutais.

A secretária da cultura também demonstra um crescente descaso com a classe artística, se esquecendo veementemente dos pequenos artistas, dos que estão começando, e trata como problema menor a dificuldade que muitos estão passando. Regina, de sua confortável cadeira na Secretaria de Cultura, se esquece que também começou de baixo e, apesar de fortemente criticar a burocracia, impõe que haja mais burocracia para o artista e autônomo local.

Falta em seu discurso coerência, empatia, respeito e solidariedade com os colegas de profissão e a classe artística, que vem acertadamente rechaçando os discursos de Regina e cobrando dela posicionamento e apoio à sua classe, mais do que ao seu candidato. Além de falhar em dar este apoio e se posicionar, Duarte nos mostra, num surto, que não aceita ser contrariada e traz a mesma birra que diz que sua oposição apresenta.

Regina Duarte mostra não apenas despreparo para o cargo que ocupa, mas também falhas de caráter, diminuindo mortes pelo fato de não ter conhecido os finados pessoalmente e menosprezando atrocidades da ditadura militar pelo fato de que a morte está associada à humanidade. Completo desrespeito à classe artística, à própria profissão e seus colegas, aos jornalistas, a qualquer um que se oponha à sua opinião e, principalmente, às vitimas das barbáries da ditadura militar.

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