Crônica: um ditador sem ditadura

Aviso: Qualquer semelhança com a realidade é mera tragédia.

O ano era 1999 quando um deputado federal de roupa xadrez e cabelo penteado para o lado deu uma entrevista para a TV Bandeirantes. Nessa entrevista ele prega o fechamento do congresso (mesmo ele sendo parte dele), defende a ditadura, a tortura, fuzilar o então presidente Fernando Henrique Cardoso, e é categórico ao dizer que se eleito “daria golpe no mesmo dia”.

O ano era 2016. O país sofre por causa de mais um processo de impeachment em sua curta história tanto de existência quanto de democracia plena. Um por um, os deputados na Câmara falam ao microfone para justificarem seu voto se a então presidente Dilma Rousseff deve ser retirada do poder ou não. A maioria deles tentando se autopromover, nem citam o crime das pedaladas fiscais, que é o motivo pelo qual tudo aquilo está acontecendo. Não é algo midiático o bastante pelo visto.

Midiático é o que aquele mesmo homem que em 1999 esteve na Band fez ao falar ao microfone e, ao invés de homenagear algum familiar seu como muitos estavam fazendo, homenageia o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, considerado torturador pela Justiça. Ustra foi chefe do DOI-CODI. O homem que discursa sabe disso. Sabe que Dilma denunciou tortura, ao qual ela também sofreu. E assim brada “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de tudo, o meu voto é sim”.

Em 2018, esse homem se tornou presidente da República Federativa do Brasil. Eleito democraticamente. Ele chegou ao nível máximo do poder criticando e atacando o sistema que naquele momento o colocou naquele lugar.

A partir daqui é difícil dizer o que é mais relevante entre seus diversos ataques contra a democracia, as instituições, a imprensa, e ações autoritárias.

Esse homem desfrutou muito na democracia. Se elegeu deputado federal, lançou seus filhos a cargos políticos, e apesar de seus discursos e falas grosseiras, parecia um homem bem mais de bem com a vida do que o atual que está na presidência.

Agora negocia com o Centrão após perder vários aliados e possíveis aliados logo no início de seu governo (que não tem nem dois anos de existência), ministros caindo, Polícia Federal investigando sua família, a imprensa falando mal dele todos os dias.

E ainda precisando lidar com uma pandemia global de uma doença que ele disse se tratar apenas de uma “gripezinha”. Isso também depois de ter criado quase que uma guerra com os governadores por eles estarem tomando medidas para enfrentar a crise enquanto ele, em Brasília, escondia seu exame médico.

Cada vez mais aquele que um dia já foi um deputado federal que era apenas uma fonte de piadas, que atraía tanto apoiadores quanto ódio para si (consequência de seu próprio ódio), afirmou: “eu sou a Constituição”. Um dia após um ato pró-golpe.

Ele não se encontra em uma posição fácil. E isso se deve em muito a ele mesmo. Sua pessoa, apesar de ter tido uma boa vida na democracia, não parece combinar muito com ela.

Esse homem, não fala explicitamente, mas expõe nas entrelinhas ideias assustadoras quando fala “Temos as Forças Armadas do lado do povo” em meio a uma manifestação contra o Congresso e o STF. As FA disseram estar ao lado da democracia e contra os ataques a jornalistas.

Esse homem é um homem que quer ser ditador, mas para isso ainda lhe falta uma ditadura. E que continue assim. Pois ele não merecia a presidência. E nenhum país merece um presidente como ele.

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