Mensalão e Lava Jato: quem são os políticos do Centrão com quem Bolsonaro está se aliando

O governo Bolsonaro desde o começo vem enfrentando truculências e obstáculos. Um dos motivos para isso é a falta de habilidade para negociar e dialogar com os membros da Câmara e do Senado. A falta de tato inclusive resultou na ruptura do presidente e seus filhos com seu próprio partido, o PSL.

Apesar do governo ainda ter conseguido a aprovação da reforma da Previdência, uma das grandes pautas de sua pasta econômica, a tensão do presidente com os líderes do Congresso Rodrigo Maia e Davi Alumbre, ambos do DEM, continuou.

Recentemente, Jair Bolsonaro começa a tentar costurar alianças com membros do chamado Centrão. Hélio Schwartsman, em sua coluna na Folha, credita isso ao fato da palavra “impeachment” voltar a assombrar Brasília.

No noticiários se fala que o presidente estaria acordando cargos importantes para políticos e partidos em troca de apoio. Mesmo aliados antigos de Bolsonaro se mostram insatisfeitos com isso.

Valdemar da Costa Neto. Foto: Agência Brasil.

Valdemar da Costa Neto

Segundo a CNN Brasil, Bolsonaro teria entrado em acordo para dar ao PL a presidência do Banco do Nordeste e a secretaria de vigilância em saúde no Ministério da Saúde. O PL que é o partido de Valdemar da Costa Neto, que esteve nos noticiários na época do Mensalão, o escândalo da compra de votos de parlamentares que sacudiu o primeiro mandato do presidente Lula (PT). Costa Neto foi julgado e condenado a sete anos e dez meses de prisão pelo esquema.

Na sua vida pública, ele foi eleito deputado federal pela primeira vez em 1991. Costa Neto foi oposição a Collor, aliado de Itamar, atuando na Câmara para a aprovação do Plano Real. Esteve do lado de FHC, mas por pouco tempo, já em 1995 já era oposição.

O parlamentar denunciava irregularidades no Ministério das Comunicações, BNDES e na SEBRAE.

Em 2002, Costa Neto foi um importante nome nas eleições que levaram à vitória de Luiz Inácio Lula da Silva. Nesse mesmo período, ele se tornou presidente e secretário geral do recém criado PR, resultado da fusão entre o Partido Liberal e o PRONA.

Em 2005, o parlamentar renunciou ao seu mandato por conta do Mensalão, quando foi teve seu nome envolvido na investigação. Costa Neto assumiu sozinho a responsabilidade sobre o acordo financeiro que viabilizou a aliança entre o PT e o PL para as eleições de 2002. Mas logo voltaria à política em 2007 novamente como deputado federal.

Em 2013 ele renunciou mais uma vez ao cargo ao ser condenado pelo esquema do Mensalão. Costa Neto foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Ainda no mesmo ano foi investigado pela Operação Porto Seguro que investigava um suposto esquema de fraudes em pareceres técnicos e em agências reguladoras e órgãos federais.

Na época o procurador Roberto Gurgel disse que Costa Neto usava sua influência política prestar e solicitar favores a Paulo Vieira (também conhecido como Paulo Preto) que seria futuramente preso em 2019 pela Operação Lava Jato. A Porto Seguro interceptou milhares de ligações entre Costa Neto e Paulo Vieira, então diretor da Agência Nacional de Águas (ANA).

Em 2014, Costa Neto conseguiu autorização para cumprir o restante da pena em prisão domiciliar. Em 2016, o STF lhe concedeu um indulto que permitiu que ele não precisasse cumprir o restante da pena.

O indulto foi concedido pelo ministro Luís Roberto Barroso (que também autorizou a prisão domiciliar em 2014). Segundo O Globo, os critérios para o indulto se encaixavam no decreto feito na época pela então presidente Dilma Rousseff. O jornal também noticiou que a análise do indulto estava atrasada devido à mensagem enviada pela ex-mulher do deputado, Maria Christina Mendes Caldeira, para o então Procurador Geral da República, Rodrigo Janot.

Na mensagem ela pedia para que o indulto não fosse concedido, pois Costa Neto teria cometido atos ilícitos e a ameaçado, segundo O Globo.

Brasília – O senador Ciro Nogueira, autor do projeto de lei que dispõe sobre a exploração de jogos de azar em todo o território nacional, durante sessão da CCJ Senado (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Ciro Nogueira

Anteriormente Partido Progressista (PP), ao Progressistas, segundo a CNN Brasil teria ficado a presidência do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e também do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs). A legenda é atualmente presidida pelo senador Ciro Nogueira.

Nogueira é de uma família de forte tradição política. Pelo extinto PFL ele ingressou na vida pública como deputado federal em 1994. Ele ingressou no PP em 2002. Pelo partido se elegeu senador em 2010.

Em 2016, a Polícia Federal pediu seu indiciamento por supostamente receber propina da construtora UTC em troca de favorecimento em obras públicas.

O senador é ainda investigado pela Operação Lava-Jato por organização criminosa em suspeita de um esquema de desvios na Petrobras. Em fevereiro deste ano, a PGR denunciou o senador por supostas propinas de R$ 7,3 milhões da Odebrecht.

Brasília – O presidente da Comissão Mista de Orçamento, deputado Arthur Lira, encerra reunião devido à falta de quorum, pelo segundo dia seguido (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Arthur Lira

A Veja noticiou mais recentemente que Bolsonaro prometeu para o partido de Arthur Lira o Banco do Nordeste, um banco de desenvolvimento. O texto da Veja ainda aponta para uma possível disputa, visto que o mesmo havia sido prometido para o PL.

Arthur Lira atualmente é deputado federal pelo Partido Progressista (PP) e chegou a criticar algumas vezes Bolsonaro no início de seu mandato, mas recentemente gravou um vídeo com um enorme sorriso ao lado do presidente.

Sua carreira política começou como vereador em Maceió em 1992 e logo subiu para deputado estadual em 1998 e em 2001 conseguiu se eleger deputado federal. Foi membro do extinto PFL e passou pelo PSDB, PTB, PMN até chegar ao PP em 2009.

Ainda quando estava no PMN, em 2008, Lira foi preso por obstrução da justiça. Na época, ele estava afastado de seu cargo de deputado estadual e fora indiciado pela Operação Taturana.

Lira teria desobedecido uma ordem judicial relacionada ao processo movido por Jullyene Lins, ex-mulher do parlamentar que acusou-o de agressão em 2006, depois deles terem terminado o casamento. A prisão acabou sendo revogada.

Mas a Operação Taturana voltaria atrás de Arthur Lira em 2011, quando o juiz Helestron Costa, da 17ª Vara da Fazenda Pública de Maceió, determinou o afastamento dos cargos públicos e também bloqueio dos bens dele, na época deputado estadual, e também de outros políticos. Mas o Tribunal de Justiça de Alagoas suspendeu os efeitos de decisão por entender que Lira não teria como atrapalhar o andamento do processo.

No ano seguinte, Lira foi condenado em uma ação civil por improbidade administrativa resultante da Operação Taturana. A acusação foi de que ele teria feito descontos indevidos de cheques da Assembleia Legislativa de Alagoas quando era primeiro secretário da Mesa Diretora. Ele recorreu da condenação.

Em 2013, o STF abriu uma ação contra Arthur Lira por suspeita de lesão corporal ainda por conta da acusação movido por Jullyene Lins. Mas em 2015 ele foi absolvidoe. Os motivos foram que o conjunto probatório não seria suficiente e o a defesa do deputado alegou que a ex-mulher de Lira se retratou posteriormente, negando que tivesse sido agredida. 

No mesmo ano, o então procurador-geral da República Rodrigo Janot apresentou denúncias ao STF contra Lira, então deputado federal. E também contra seu pai, o senador Benedito de Lira. As acusações foram de envolvimento em esquema de corrupção na Petrobras investigado pela Lava Jato.

O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, condenado no Petrolão, disse em delação premiada que repassou R$ 1 milhão para a campanha de Benedito de Lira em 2010. Isso feito por intermédio do doleiro Alberto Youssef. Youssef, também em delação premiada, afirmou que o dinheiro teria pago despesas de campanha de Arthur Lira.

O doleiro disse ainda que Arthur recebia repasses mensais entre R$ 30 mil e R$ 150 mil da “cota” do PP. Além disso, o empresário Ricardo Pessoa falou em delação premiada que tanto Lira quanto seu pai recebiam dinheiro desviado da Petrobras. A PF apontou indícios de corrupção passiva dos dois em relatório enviado ao STF e pediu o afastamento deles dos cargos públicos.

Vale lembrar que na época Arthur Lira era um aliado do então presidente da Câmara Eduardo Cunha, tendo recebido aval dele para presidir a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

Em 2016, o STF determinou o sequestro de bens de Arthur e Benedito de Lira. O MPF pediu a condenação dos dois por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Em entrevista à Veja em dezembro de 2019, Jullyene Lins acusou novamente o ex-marido, dessa vez de ocultar patrimônio que chegaria ao valor de R$ 40 milhões, que inclui fazendas e apartamentos. A revista ainda falou sobre os R$ 600 mil que ela cobra na Justiça pela pensão dos dois filhos. Na acusação, Jullyene juntou extratos bancários, recibos de compras de fazendas e informações sobre laranjas.

Roberto Jefferson. Foto: Agência Brasil.

Roberto Jefferson (PTB)

Muito presente nos noticiários por conta do Mensalão, o parlamentar Roberto Jefferson voltou a ser destaque nos jornais após fazer uma live em que acusou o presidente da Câmara Rodrigo Maia de preparar um golpe para derrubar Jair Bolsonaro. Bolsonaro inclusive fez uma transmissão ao vivo em que mostra ele assistindo a live.

Segundo o portal Uol, Jefferson não apresentou provas da existência do plano para derrubar Bolsonaro.

Roberto Jefferson formou-se em Direito em 1979 e ganhou fama na TVS (que seria sucedida pelo SBT) em que se apresentava no programa “O Povo na TV” como o “advogado dos pobres” na década de 1980.

Na política ele passou pelo MDB, PDS (atual PP) e chegou ao PTB em 1980. Partido fundado por Getúlio Vargas e que na sua fundação teve inclusive a participação do avô de Jefferson. De 1999 até 2002 ele foi presidente da Câmara dos Deputados.

Em 1992, Jefferson foi um dos deputados da “tropa de choque” que defendia Collor e era contra o processo de impeachment. No ano seguinte, seu nome foi citado num esquema de propina na CPI do Orçamento.

Em 2003 ele virou presidente do PTB, cargo que ocupou até 2005 quando se licenciou por estar sendo acusado de envolvimento em irregularidades no Correios. No mesmo ano teve o mandato cassado e os direitos políticos suspensos por oito anos.

No ano de 2005, Roberto Jefferson ganhou os noticiários ao alegar que recebeu R$ 4 milhões do PT para que o PTB apoiasse Lula no parlamento. Fato que o Partido dos Trabalhadores sempre negou. O então deputado também disse que o mentor do esquema era o o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu, que foi condenado pelo STF pelo Mensalão. Isso antes de seu nome ser mencionado na Operação Lava Jato.

Cassado, Jefferson se aposentou no mesmo ano como deputado. Em 2012, foi condenado a sete anos e 14 dias de prisão pelo STF por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. No ano de 2015, por autorização do ministro Luís Roberto Barroso, Jefferson passou a cumprir pena em regime semiaberto. Baseado no mesmo decreto que beneficiou Valdemar da Costa Neto, Barroso indultou Jefferson que quitou sua dívida com a justiça.

Brasília – O ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, Marcos Pereira, lança as discussões sobre o Novo Ciclo de Política Automotiva e a Rota 2030 para a mobilidade e logística do país (José Cruz/Agência Brasil)

Marcos Pereira

Ainda segundo a matéria da CNN Brasil, outro beneficiado do Centrão pelo Bolsonaro seria o Republicanos, comandado pelo deputado Marcos Pereira. No caso, uma secretaria no Ministério de Desenvolvimento Regional.

Marcos Pereira além de deputado já foi advogado e é bispo licenciado pela Igreja Universal do Reino de Deus. Atualmente ele é o primeiro vice-presidente da Câmara dos Deputados. Apesar deste ser seu primeiro mandato como deputado, Pereira já possui experiência como político.

No ano de 2016, Michel Temer o nomeou ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. Pereira pediu demissão do cargo em 2018 quando seu nome foi mencionado na Operação Lava Jato como beneficiário de propina da Odebrecht.

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