“O que fez eles irem para as carreatas não foram as notícias falsas, mas sim interesses econômicos”, diz doutora em ciberjornalismo

A desinformação e as notícias falsas continuam presentes no cotidiano das pessoas. Conteúdo infundado que vai desde que o Covid-19 foi criado em laboratório na China para prejudicar a economia dos outros países, até que beber água a cada 15 minutos previne da doença.

Os jornais estão trabalhando a todo vapor para manter a população informada a respeito de tudo que diga respeito ao Coronavírus. Como mostra uma matéria da Folha que diz que em março a audiência dos telejornais explodiram.

Para falar sobre esses e outros assuntos, buscando esclarecer determinados assuntos e também dar a sua opinião, o Converge entrevistou a doutora em comunicação e jornalismo digital Caru Schwingel, formada em Jornalismo pela UFRGS, pesquisadora, autora, empreendedora, professora e ativista. Vice-presidente da Associação Profissão Jornalista – APJor e membro da Rede de Inovação Política na América Latina

Ela também é membro do Conselho Estratégico da organização argentina Asuntos del Sur. Co-fundadora da Casa da Cultura Digital-SP, co-propositora do coletivo Jornalistas Livres, e ex-consultora PNUD/ONU na Secretaria Nacional da Juventude.

CONVERGE: É seguro dizer que no mínimo boa parte das pessoas que participaram das carreatas contra a quarentena tem uma concepção errada da situação, concepção causada por notícias e informações falsas?

Caru Schwingel: A grande maioria ou todos que participaram da carreata têm uma concepção errada da situação em que estamos vivendo. A questão da pandemia ela é mundial. Muita desinformação foi criada. Desde a própria natureza do vírus até muitas questões que terrorismo contra raça, posições, visões, ideologias, etc. Mas vincular essa concepção errada a notícias e informações falsas talvez seja demasiado.

Eu não acredito que a maioria dessas pessoas foi para as manifestações por informações falsas. Eu acho que elas têm uma concepção de vida, preconceitos, questões que se acham diferenciadas. Elas têm uma concepção errada de vida e num momento como esse em que a referência delas é um presidente que toma determinadas ações, elas tomam a liberdade de seguir da mesma forma essa figura.

Então se isso é uma concepção, que elas tiveram em função de fake news, eu não faço essa vinculação direta. Elas foram para as carreatas por interesses econômicos, visão de mercado. Elas tem uma perspectiva de vida onde elas se acham indestrutíveis, acima do bem e do mal, que não tem responsabilidade social, apenas com seus valores e interesses.

CONVERGE: Você a partir de toda a sua experiência como profissional, poderia dizer de onde vêm as fake News relacionadas ao Coronavírus? Quem as produz? E como se beneficiam com elas?

Caru Schwingel: As fake news relacionadas ao Coronavírus certamente vem da mesma fonte que criaram as notícias falsas da campanha presidencial de 2018. E que estão desde então num processo de desinformação. A gente tem estudos, análises, percepções do que foi essa concepção com interesses transnacionais de estarem desenvolvendo desinformação no Brasil por interesses econômicos e políticos.

Então essa fonte continua a ser a mesma. Algumas pessoas chamam de Escritório do Ódio. Certamente são pessoas com os mesmos interesses e preconceitos que vem desde a eleição de 2018 que bate com o discurso que foi produzido a partir do grande capital internacional. Isso é visível nos EUA com o apoio ao Trump.

E hoje temos essas mesmas pessoas produzindo informações erradas, preconceito e ódio contra os chineses, o povo oriental, a ciência, o próprio jornalismo, a ação de vigilância do interesse público. Essas pessoas buscam desconstruir todas essas bases democráticas da nossa sociedade.

Agora, afirmar quem está produzindo isso, ou como estão se beneficiando, isso requer uma análise um tanto mais ampla e vinculação de provas que eu acredito que no momento ninguém tenha. O que está sendo feito no agora é que as pessoas que tem consciência sobre esse discurso de ódio, se elas replicam essa informação, ela está ajudando nesse processo de desinformação.

CONVERGE: Como os jornalistas e os cidadãos podem combater fake News quando estás são reproduzidas por figuras de autoridade, como um médico mesmo ou um presidente da república?

Caru Schwingel: O jornalista combate com a forma que sempre utilizou: apurar, checar as fontes, trazer o fato, o acontecimento jornalístico e demonstrar o que não tem fundamentação. As pessoas acreditam nas fake news porque elas têm uma pré-disposição a acreditar naquilo, o trabalho do jornalismo, ou do cidadão que quer desconstruir essa desinformação, é bastante cansativo, porque tem que buscar informações, bases, dados, o fato.

Fazendo esse trabalho jornalístico, bem fundamentado e com fontes verdadeiras se desconstrói esse discurso de autoridade, como mesmo um médico e, infelizmente no nosso caso, o nosso presidente.

Quando uma figura diz que receita um medicamento que é experimental, o que interessa aí? O jornalismo vai buscar o laboratório desse medicamento, vai ver que esse laboratório tem vinculações com Donald Trump como o NY Times fez, e vai ver que a pessoa que está receitando, e sem ser médico, está infringindo questões legais.

As dessinformações não são criadas sem um interesse político ou economico. Como se diz no jronalismo americano: “vá atrás do dinheiro”.

No caso do cidadão, é parar de transmitir fake news, contextualizar, buscar informações que desconstruam aquele discurso. Ele pode combater a desinformação pegando essa notícia falsa e encaminhar, se for contra um país, ao consulado dessa nação. Ou então para a Polícia Federal. Buscar formas de denunciar nas plataformas. Denunciar o perfil que soltou a informação falsa. Não replicar. Perguntar para quem te mandou porque está passando aquela informação, qual a fonte dela.

Passar informação descontextualizada já é um problema, inverídica então é questão legal.

As notícias falsas podem gerar pânico, tumulto. Isso é um crime previsto na legislação. E também pode ser crime de lesa-humanidade. Ele, como figura publica, causa uma desinformação tremenda, contraria a toda defesa da humanidade, da vida humana. Isso sem contar os crimes ambientais e de preconceito.

CONVERGE: De que maneira pessoas que estão acostumadas com correntes de notícia falsa, conteúdo vindo de figuras que não são reconhecidas em seus meios acadêmicos, fontes duvidosas, enfim, como fazer pessoas que consomem esses produtos passe a buscar informação mais confiável, verificada ou de consenso científico?

Caru Schwingel: A primeira coisa, a pessoa tem que se conscientizar de que os veículos jornalísticos têm um papel social. Se a pessoa não reconhece o jornalismo como um dos alicerces de uma sociedade democrática, é bastante difícil ela deixar de acreditar no vizinho que mandou uma fake news que ouviu de uma tia ou de um primo.

Mas para essas pessoas é importante buscar veículos e sites que demonstram se é verdadeiro ou falsa a informação. Temos várias agências de fact-checking na internet, que fazem um trabalho sério. Se a pessoa tem um pouco de senso crítico, ela vai atrás da informação.

É interessante os jornalistas terem também a responsabilidade de pessoas reconhecidas em suas áreas de conhecimento como suas fontes, e não o amigo do amigo do amigo como se fez muito.

O próprio jornalismo tem muita responsabilidade pelo que está acontecendo em termos de desinformação. Porque não explicitamos o nosso processo de produção. A apuração com critérios de noticiabilidade, as fontes, o vigilantismo dos poderes instituídos, o não compactuar com interesses econômicos. Sobre esse último, nós temos uma história nos veículos um tanto quanto permissível a isso. Passaram-se determinados limites e temos como formadores de opinião gente que não merece ser ouvida dando sua opinião.

CONVERGE: Acredita que o jornalismo da grande mídia esteja tendo uma recuperação de moral e força? Já que durante a eleição foram diversas as correntes de Whatsapp e blogs alternativos que eram compartilhados e agora temos pessoas recorrendo aos veículos de informação para manterem-se informados? As pessoas irão valorizar mais o bom jornalismo depois dessa pandemia?

Caru Schwingel: Sim. Acredito que o jornalismo das grandes empresas teve uma recuperação moral na sua atuação social de interesse publico. O jornalismo no Brasil durante 10, 15 anos, parece muitas vezes ter esquecido sua atuação nesse sentido e ação de vigilância dos poderes instituídos.

Muitos veículos passaram a fazer assessoria de acordo com seus proprietários, interesses econômicos e políticos, temos concessões publicas de radio e televisão na mão de políticos efetivamente, e de igrejas com interesses bastante pontuais e nada jornalísticos.

Acredito que estamos num momento que leva para uma recuperação dos alicerces de sua sociedade, não apenas instituições como o jornalismo. Agora é o momento para os jornalistas, empresas de comunicação, pessoas interessadas pela democracia, é um momento impar para nos posicionamos e mostrarmos a importância do jornalismo.

A edição do Jornal Nacional depois do pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro na terça-feira foi histórico. Foi um posicionamento exaustivo para os jornalistas que estavam ali. Jornalismo não é ficar fazendo firula, mostrando coisas engraçadas, mostrar o que é de interesse público.

Porém, ontem saiu uma matéria no R7 que dizia: “Governo de São Paulo erra nos números”. Dizendo que o governo afirmava que teríamos 1300 mortos por causa do Covid-19, mas que estávamos com 600. Essa manchete traz o interesse da quebra do isolamento. Isso precisa ser explicitado. Isso é manipulação da informação. Ali está o interesse econômico, não o publico.

Precisamos de uma educação de mídia, de informação nessa sociedade da informação. Infelizmente não tivemos, não temos, e hoje temos Jair Bolsonaro e toda essa desinformação reproduzida mesmo durante uma pandemia mundial.

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