A GRANDE EPIDEMIA: Como o Brasil lidou com a Gripe Espanhola

1918. Rio de Janeiro, Brasil.

O cheiro é insuportável. Urubus sobrevoam a cidade. O sistema funerário agora é resumido a caminhões que passam com pouca frequência para coletar os corpos que poluem as ruas. As ruas são vazias, exceto por soldados e policiais patrulhando elas para impor a quarentena, de vez em quando obrigando os poucos pedestres a cavar valas coletivas para os mortos. A morte ceifa cada vez mais vidas brasileiras, e o seu instrumento parece invencível.

A Gripe Espanhola.

Como que chegou a este ponto?

Em 1918, já fazia 4 anos de guerra na Europa. O norte da França e a Bélgica estavam reduzidos à ruínas, crateras, corpos, ratos  e trincheiras cercadas por arame farpado.

Era um ambiente no mínimo insalubre. E também era só questão de tempo para que mais uma doença se espalhasse entre as tropas estacionadas por ali.

Graças a uma mistura de falta de higiene, uma concentração enorme de gente (muitos soldados aglomerados em buracos defensivos), uma falta de conhecimentos médicos e censura, uma infecção viral causada pelo vírus do H1N1 (Influenza A) se tornou pandemia.

E o Brasil nisso? O Brasil era um país neutro, e estava sob a presidência do Wenceslau Braz, um dos vários presidentes que fizeram parte da famosa Política do Café-com-Leite. Nessa época o país estava passando por uma fase de “industrialização” rudimentar, uma forma dos barões do café suprirem a falta de produtos vindos da Europa, e, é claro, exportando muito café (e borracha). Nós até que participamos da guerra ao lado da Tríplice Entente em 1917 (depois dos alemães torpedearem dois dos nossos navios comerciais na costa da França) enviando uma missão médica, uns pilotos e uma frota naval que não chegou a entrar em combate. Essa frota naval perdeu 10% de sua tripulação; não para os alemães, mas para a Gripe Espanhola.

Como foi mencionado antes aqui, uma das razões da doença se alastrar tanto e tão rapidamente foi a censura. Inclusive, a Gripe Espanhola não veio da Espanha: isso é produto político. Grande parte das potências europeias praticavam a censura, principalmente em tempos de guerra. Isso quer dizer que quando começaram a aparecer os primeiros casos da gripe, poucos sabiam, exceto na Espanha, onde a imprensa era livre para publicar sobre a epidemia. Por uma combinação disso e birra das outras nações por sua neutralidade na guerra, o nome colou. Enfim, o que a censura essencialmente fez foi calar a doença até chegar a um estágio onde o controle e combate à gripe ficasse extremamente difícil.

A doença chegou eventualmente a portos brasileiros, e a calamidade que observávamos à distância veio e nos atingiu em cheio.

Mas o que é exatamente a Gripe Espanhola?

Uma infecção viral causada por uma mutação da Influenza (provavelmente vinda de aves), ela infecta as células do pulmão, o que leva a uma superestimulação do sistema imune, em um processo chamado de cykotine storm, onde o corpo acaba fabricando mais células brancas do que precisa, e, no caso da Gripe Espanhola, uma migração de leucócitas ao pulmão, destruindo o tecido do órgão, vazando líquido para dentro dele, e impossibilitando a respiração.

O processo todo leva a outros sintomas como:

– Febres muito altas

– Lesões na pele causadas pela febre

– Fadiga

– Dores musculares intensas

– Perda de apetite

– Náusea

– Vômito

– Diarréia

– Perda de pressão no sangue

– Aceleração cardíaca

– Dores de cabeça

– Delírio

– Alucinações

– Tremores

– Perda de coordenação

– Surdez

– Excreção de sangue (por meio de vômitos ou urina)

Era, em geral, uma versão da Influenza extremamente agressiva e contagiosa.

E qual era o Brasil que essa doença desembarcou, quando a Demerara aportou por aqui, onde iria ceifar o que se estima a ser 300000 vidas?

Bem, o país, e mais especificamente, a sua capital, era no mínimo complicado.

Primeiramente deve-se ter em mente que era um país instável. Estava em um regime novo, e revoltas e revoluções armadas eram constantes. E, em uma epidemia, onde é importante acima de tudo a eficiência médica, o nosso departamento não era só algo nascente, mas era também visto com certo desgosto, tanto pela sociedade da época quanto pelo governo federal que os sustentavam. E não era inteiramente sem razão.

Desde meados do século XIX, as teorias do racismo científico eram febre entre as comunidades científicas da Europa e dos Estados Unidos, e não demorou muito para virar por aqui também. O grande dilema do Brasil republicano, principalmente o da Primeira República, sempre foi achar a identidade da nação e, durante essa época onde ser uma grande potência, forte, intelectual e sofisticada era tudo, avançar o país também. E os caras tinham uma grande ideia do que deveria ser o Brasil, e neste caso da Gripe espanhola especificamente, os caras que eram graduados da Academia Nacional de Medicina, no RJ. Eles achavam que, para o Brasil ser comparável aos outros países de influência, teríamos que emular a França, e também, como em Paris, fazer uma “limpeza”, uma “higienização”. Isso muitas vezes significava simplesmente expulsar a população mais pobre, mais especificamente os mulatos e aqueles de pele escura (coisa que para eles era bom, pois achavam que só país de gente branca tinha o potencial de ser desenvolvido), dos centros das cidades, o que ajudou a originar as favelas. E não era só isso: queriam sim erradicar as muitas doenças que de longa data assolavam o Brasil, mas de uma forma que não só causava desconforto à população, mas que também violava a Constituição Federal.

O que isso quer dizer pode ser resumido por meio de um exemplo, que, do ponto de vista de 1918, não era longe:

1904. O governo de Rodrigues Alves. O renomado médico, Oswaldo Cruz, que chefiava a Diretoria Geral de Saúde Pública desde 1903, promove uma campanha de saneamento público, que envolvia vacinar as pessoas contra a varíola. Essa proposta em específico foi a gota d’água para eclodir manifestações abertas de oposição às formas explicitamente autoritárias da DGSP lidar com as diversas epidemias da cidade.

O órgão tinha foro especial, com juiz próprio para julgá-los, e tinha o direito de invadir, fiscalizar, vistoriar e demolir prédios e edifícios em geral com o apoio da lei, algo que foi usufruído bastante por eles. Inclusive, o Dr. Cruz tinha estruturado sua campanha em bases militares, e fez com que os funcionários do órgão sempre estivessem acompanhados de brigadas de militares e policiais, para minimizar resistências, e sempre indo desinfectar e higienizar principalmente as áreas mais pobres da cidade.

Então quando foi sugerido e aprovado pelo Congresso a vacinação obrigatória nacional contra a varíola, projeto que muitos acreditaram que envolveria soldados entrando na tua casa e te vacinando sem seu consentimento, muitos ficaram irritados, inclusive militares, algo que quase deu em golpe de Estado, na famosa Revolta da Vacina.

Desde então, as autoridades da saúde não só se queimaram nos olhos do povo, mas também do governo que ligava mais para o andamento da economia de exportação do café do que qualquer outra coisa. Em 1918, a mídia inclusive acusava os membros da Academia de Medicina de planejarem uma ditadura científica. Então quando chegou o vírus por aqui, estávamos mais ou menos lascados, ainda mais considerando que naquela época nem se conhecia o conceito de vírus, muito menos como curá-lo.

Quando a Gripe Espanhola começou a contagiar as pessoas por aqui, os primeiros a morrerem foram os idosos, coisa que inclusive fez veículos de mídia chamarem a preocupação dos médicos de alarmismo, citando o autoritarismo deles, e chamando a doença de um simples “Limpa-Velhos”. Estas publicações evidentemente envelheceram como leite, pois logo os jovens também começaram a morrer, efeito da superestimulação do sistema imune que a doença causa. E com o povo morrendo, e a comunidade médica entrando em pânico junto com quem tratavam, o governo foi forçado a entrar em cena.

O governo federal nessa época, hiper-federalista, graças principalmente ao Presidente Campos Salles, teve relativamente pouco espaço de ação, primeiro porque quem tocava as bandas locais eram realmente os Presidentes dos estados (que na prática eram quase lordes feudais), e também porque o governo federal simplesmente não queria se importar com a calamidade. Mesmo quando se pediu medidas de isolamento ou quarentena, o governo foi devagar para atender, tanto o federal quanto os estaduais, como o Borges de Medeiros por exemplo (o Presidente/dono do RS), que tinha descrito a doença como “benigna”, afim de fazer a economia continuar a rolar. O mesmo aconteceu em muitos dos outros estados. Na capital, o governo de Wenceslau Braz se certificou de censurar a mídia. A mídia em si também subestimou a gripe, espalhando teorias conspiratórias como por exemplo, que era uma forma de arma biológica alemã. Quando realmente se decretou a quarentena, já era muito tarde, e o Carlos Seidl, Diretor-Geral do Departamento da Saúde, ficou como bode expiatório, não que ele não tivesse culpa nisso também, interrompendo a quarentena uma vez, tendo que decretar de novo quando piorou novamente a situação. O presidente também ficou odiado durante a pandemia, pela sua maneira porca de ter lidado com ela. Se fechou os comércios, ficando apenas abertos as padarias e farmácias, todos ficaram trancados em casa, e caminhões e soldados levavam os corpos a valas comuns, os médicos já desistindo dos doentes, aceitando suas mortes como certas, e muitas vezes deixando-os sem cuidado algum. Pessoas comuns tentavam se medicar com receitas caseiras, inclusive.

Chegou a hora das eleições no final de 1918, e Rodrigues Alves fez campanha para se alavancar de volta ao poder como o homem que, junto ao Oswaldo Cruz, erradicou a peste bubônica e febre amarela da Capital do país, e que ajudou a sanear o Brasil. Até lá, já tinha sido demitido o Seidl, e posto no cargo dele o Teophilo Torres, homem que chamou o Carlos Chagas, mão direita do Oswaldo Cruz, para ajudar a acabar com a gripe. Tinha sido formado também a Liga Pró-Saneamento do Brasil, organização que durou até 1920, quando se criou o Ministério da Saúde. O Rodrigues Alves, com sua campanha de acabar com a doença, ganhou as eleições, mas, logo antes de sua posse, morreu pela gripe também, assumindo então, interinamente, o vice, Delfim Moreira, que também morreu em 1920 da gripe (a sua sífilis certamente não ajudou), até que eleições novas fossem convocadas para o fim daquele ano de 1919 (regras de sucessão funcionavam de forma diferente naquela época).

Então como que acabou essa gripe?

No final de 1919, quase ninguém mais se adoecia da Gripe Espanhola.

Se achou uma cura?

Não. O que ocorreu ainda é debatido na comunidade médica, mas o que se estima é que o vírus passou por algum tipo de mutação que o deixou mais fraco, possibilitando assim que nosso corpo o combatesse. O mundo mudou muito por causa desta doença, seja cientificamente, politicamente, economicamente, até culturalmente, e por aqui também, trazendo por exemplo, a confiança da população brasileira nos profissionais da saúde.

E o que aprendemos e podemos aprender com isso?

Podemos começar vendo que, apesar da História não se repetir, ela rima bastante, e que, por ela, dá para entender bastante do que acontece agora. Também seria uma boa você confiar na ciência, pois ela hoje não é a mesma de 1918. Fique em casa.

Bibliografia

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Ferreira Antunes, José Leopoldo (1998). Medicina, leis e moral: pensamento médico e comportamento no Brasil (1870-1930).

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