“Nos cortes de agora vi muitas pessoas apoiando e acreditando na ciência”, diz doutoranda ofendida por ministro da Educação

No dia 18 de março foi publicado no Diário Oficial Único (DOU) a portaria de número 34. A portaria determina que cursos com nota igual a 3 no conceito da Capes ficam sujeitos a uma redução de até 50% nos benefícios. Os mais bem avaliados terão os cortes limitados a 20%. Mas o site Gauchazh publicou uma matéria mostrando que diferentes universidades disseram ter tido bolsas em cursos com nota superior a 3 cortadas, o que vai contra a nota da Capes que nega o ocorrido.

As denúncias de cortes em pesquisas e projetos ocorrem em meio a pandemia de coronavírus em que muito se discute o papel e importância da ciência para a sociedade.

No dia 27 de março, por sua conta oficial no Twitter, o ministro da Educação Abraham Weintraub soltou um vídeo e uma mensagem dizendo “Não houve redução  alguma em nenhum curso bom. Independente do IDH”.

Nisso, Diana Navroski, de 23 anos, formada em Física-Licenciatura pela Universidade Estadual do Centro-Oeste, mestrado em Física e que atualmente está no Doutorado, escreveu um tuíte para o ministro dizendo “Houve (cortes) sim, minha pesquisa seria sobre uma liga semicondutora capaz de melhorar a eficiência de células solares. Nosso trabalho é feito em parceria com um grupo renomado dos EUA. Agora não poderei realizar este trabalho, pois tive a bolsa cortada”. Ela ainda colocou a hashtag #Revogacaodaportaria34.

Weintraub então respondeu “Para uma cientista de ponta, você anda assistindo muito BBB”. Indignada, Diana publicou a threat da conversa em seu Facebook num post que alcançou mais de 5 mil reações e 5 mil compartilhamentos.

O Converge entrou em contato e entrevistou Diana Navroski. Confira a seguir:

CONVERGE: Qual é a sua formação e o que faz atualmente.

DIANA Navroski: Durante a graduação fiz iniciação científica, por isso decidi tentar o mestrado. Iniciei o mestrado em Física no ano de 2018 na Universidade Federal de São Carlos. Neste trabalho tivemos parceria com um grupo espanhol, que nos cedeu às amostras que estudei. Defendi minha dissertação agora no começo do ano. Como tivemos resultados interessantes, decidi no doutorado focar nas ligas semicondutoras com base em antimônio. Essas amostras foram cedidas por um grupo do Arkansas.

Defesa da dissertação de mestrado de Diana. O títutlo foi “OTIMIZANDO A EFICIÊNCIA DE CÉLULAS SOLARES BASEADAS EM NANOESTRUTURAS SEMICONDUTORAS TERNÁRIAS”. Foto: Redes sociais.

Esse tipo de parceria é muito comum em nosso grupo, pois a técnica de crescimento dessas amostras, chamada de Epitaxia por feixe molecular, requer um equipamento muito caro e não temos muitos disponíveis no Brasil. Essa foi a parceria que citei na publicação. Nesse ano, iniciei o doutorado, inclusive frequentei algumas aulas e estive no mês de março acompanhando a rotina de laboratório de um colega, para na sequência iniciar as análises das minhas amostras.

CONVERGE: Queria saber como foi, no meio acadêmico, a recepção da notícia sobre a Portaria 34 e, no seu âmbito pessoal, quais os impactos que você viu dessa medida do governo.

DIANA Navroski: A notícia deixou todos os novos doutorandos da nossa pós-graduação abalados. No início do ano foram divulgadas 6 bolsas para o doutorado. Eu havia, inclusive, sido aprovada em outro programa de pós-graduação, porém como estou interessada no projeto que tenho na UFSCar, decidi continuar aqui. Como eu estava em 4° lugar na classificação fiquei despreocupada. Porém, recebemos um e-mail do coordenador da nossa pós-graduação dizendo que todas as novas bolsas foram recolhidas. A princípio ele acreditou que havia alguém erro no sistema, mas depois de falar com outros coordenadores ele percebeu que as bolsas haviam sido recolhidas.

Fiquei em choque, pois minha família não tem como me manter morando longe deles e eu necessito da bolsa para desenvolver o doutorado. Assim como eu, meus colegas que também estavam classificados necessitam da bolsa e demostraram tristeza e frustração com o ocorrido. Além dos afetados, todos os professores da pós-graduação e os outros estudantes demostraram preocupação, pois o corte previsto para nosso curso era de 45% e as 6 bolsas recolhidas não representam essa porcentagem, ou seja, nas próximas seleções, mais bolsas serão recolhidas, fazendo com que nosso programa permaneça com pouquíssimos alunos.

CONVERGE: Como era a situação dos pesquisadores no país antes da Portaria 34? Levando em conta que desde governos anteriores a ciência e pesquisa no país vêm sofrendo cortes. E ainda, tivemos três portarias recentes (18, 20 e 21) e que diziam respeito às bolsas.

DIANA Navroski: A situação da pesquisa brasileira difere muito entre as universidades e os programas de pós-graduação. Existem grupos muito bem equipados e grupos que precisam de investimentos. A portaria 34 também é preocupante por causa disso. Ela visa favorecer com mais bolsa, programas que possuem notas maiores, e que por consequência estão mais bem equipados, e puni programas com notas menores.

Esse tipo de atitude fará com que cursos novos, ou em regiões com menos investimentos sejam sufocados e extinguidos, e não os apoia para que cresçam. Em relação à quantidade de bolsas, no ano em que ingressei no mestrado na UFSCar, o número de bolsas disponíveis no doutorado era de 12. Porém, no ano de 2019 houve um corte significativo. No mestrado eu recebia bolsa CNPq, lembro que houve um anuncio que talvez não houvesse dinheiro para pagar as bolsas. Felizmente isso não ocorreu, mas os alunos que recebiam bolsa CNPq ficaram muito preocupados. E desde então, no meio acadêmico, temos essa sensação de instabilidade, o que me levou várias vezes a pensar se seria realmente bom tentar um doutorado. Quanto as portarias 18, 20 e 21, estas mantinham em nosso grupo o número de 6 bolsas, o que fez com que nosso coordenador nos afirmasse que haveriam bolsas.

CONVERGE: O que a impulsionou a querer questionar o ministro Abraham Weintraub em sua conta oficial no Twitter? Você já esperava que ele daria o tipo de resposta que deu?

DIANA Navroski: Em conversa com nosso representante discente, ele nos aconselhou a tentar mostrar para as pessoas o que estava acontecendo em relação às bolsas. Em uma situação normal, esse tipo de assunto repercutiria muito na mídia, porém com a situação do Covid-19, os cortes obviamente não ficaram em evidência. Em geral não uso muito o Twitter, porém decidi tentar ter voz por essa rede social.

A Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) está à frente das mobilizações e nos mantendo informados das situações das bolsas. Foi pelo Twitter que descobri que muitos cursos com nota 7 (nota máxima) também tiveram cortes. Perante as manifestações, tanto no Twitter quanto em outras redes sociais, a Capes postou um vídeo dizendo que não houve cortes, que houve remanejamento de bolsas dos programas com notas menores para cursos de notas maiores (mesmo com relatos de estudantes de cursos bem avaliados que ficaram sem bolsa).

Este vídeo foi compartilhado pelo ministro, onde, em seu Twitter, também afirmava que não houveram cortes. Essa situação me deixou um pouco frustrada, até por que havia um comentário dizendo que os cortes deveriam ser feitos das pesquisas que não tinham “importância”. Neste comentário o ministro respondeu que era exatamente isso que estavam fazendo. Foi então que decidi comentar que houve cortes sim, que eu fui uma das afetadas e falar sobre a minha pesquisa e sua importância. Sobre a resposta, eu realmente não esperava. Eu acreditava que meu comentário ficaria perdido em meio a muitos outros comentários de alunos relatando cortes. Eu fiquei em choque no momento e demorei pra acreditar no que havia acontecido.

CONVERGE: Na sua mensagem para o ministro você menciona um projeto sobre “uma liga semicondutora capaz de melhorar a eficiência das células solares”. Como você explicaria para um público leigo o que é essa liga e qual é a sua importância?

DIANA Navroski: A minha pesquisa envolve ligas semicondutoras a base de nitrogênio e antimônio. No mestrado trabalhei com uma super-rede composta por GaAsN/GaAsSb. Decidimos estudar essa liga porque recentemente, um tipo de célula solar que utiliza um composto muito parecido, o GaInNAsSb, apresentou eficiência de 43,5% na conversão de energia solar em energia elétrica. Só para comparação, as células mais comuns disponíveis no mercado, compostas por Silício cristalino (Si) e Arseneto de Gálio (GaAs), apresentam eficiência de aproximadamente 26,7% e 29,1%, respectivamente.

Nosso intuito em usa a super-rede de GaAsSb/GaAsN é reduzir defeitos que a liga GaInNAsSb possui intrinsecamente, fazendo com que apresente eficiências maiores. Esse trabalho foi feito em parceria com o Instituto de Micro y Nanotecnología da Espanha que fui convidada para conhecer por duas vezes no mestrado. Esta viagem foi paga pelo próprio instituto.

No doutorado, meu foco seria em poços quânticos compostos por ligas com base em antimônio. Estas amostras foram cedidas pelo Institute for Nanoscience and Engineering, da Universidade do Arkansas. Elas possuem tanto aplicação no melhoramento de células solares, quando aplicação na telecomunicação. Além disso, nós realizamos toda a caracterização optoeletrônica dessas amostras, isso pode fazer com que outros pesquisadores encontrem ainda mais utilidades para esses materiais.

CONVERGE: Você expôs a discussão que teve com o ministro e outras mensagens dele no Facebook em um post que teve mais de 5 mil reações e quase 5 mil compartilhamentos. Você esperava que tivesse tanta repercussão? Você recebeu muito apoio depois disso? Houve críticas?

DIANA Navroski: Primeiramente eu expus o acontecido para alguns amigos, e uma amiga sugeriu que eu tentasse mostrar para um número maior de pessoas. Quando publiquei no Facebook, fiz como um gesto de desabafo e indignação com a postura do ministro. Acredito que pessoas em cargos importantes como esse devam ter uma postura de resolver o problema e atuar em função do povo.

Quanto à repercussão, eu não esperava que fosse desse tamanho, acreditava que ia atingir somente os meus amigos do Facebook. Na própria postagem houve muitos comentários de pessoas indignadas, tanto com o acontecido, quanto com os cortes das bolsas. Muitas pessoas entraram em contato comigo no Messenger mandando mensagens de apoio. Eu fiquei realmente surpreendida com a repercussão. Quanto a criticas, houve algumas. No próprio comentário do ministro, tiveram pessoas me chamando de mentirosa e pedindo pra eu, de alguma forma, provar que eu realmente era pesquisadora, pediram até meu currículo Lattes. Porém, o número de mensagens de apoio e solidariedade foi muito maior.

CONVERGE: Você acha que as pessoas agora estão dando mais valor para a ciência e pesquisa nessa crise do Covid-19?

DIANA Navroski: Eu acredito que sim. No ano passado inclusive, quando houve cortes, vi pessoas dizendo que realmente deveriam cortar das pesquisas, que queriam seus impostos aplicados em outras áreas. Porém, nos cortes de agora, vi muitas pessoas apoiando e acreditando na ciência. Inclusive vi muitas pessoas que ficaram chocadas, que justamente agora ocorram cortes na ciência. Em contrapartida, ainda existem pessoas que não apoiam as ciências e pessoas que acham que só é um bom investimento se for aplicado na área das exatas e biológicas. Isso me preocupa um pouco porque a área das humanas, que desenvolve pesquisas muito importantes, continua sendo deixada de lado.

CONVERGE: Tem esperança de que a Portaria 34 seja revogada?

DIANA Navroski: Na data de ontem (01 de abril) a capes anunciou que houve um erro na distribuição das bolsas, que gerou um corte de 6 mil bolsas. Isso vem em contramão do que eles haviam afirmado até agora. Eles anunciaram, ainda, que essas 6 mil bolsas vão ser distribuídas para os programas de pós-graduação. Porém, eu acredito que o melhor seria a revogação da portaria, pois, caso ela se mantenha, essas 6 mil bolsas vão ser distribuídas entre os programas mais bem avaliados, deixando muitos estudantes desamparados, e muitos programas com pouquíssimos pesquisadores. Além disso, há projetos de decreto legislativo para serem votados, tanto na câmara, quanto no senado. Esses decretos pedem a suspensão da portaria 34. Eu espero que sejam votados logo, e que a portaria seja revogada.

Nota: Até o momento da publicação, o Ministério Público Federal (MPF) entrou na Justiça para que a Capes suspenda a portaria.

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