O Poço é um filme de horror com muito mais a dizer do que apenas chocar

O filme O Poço, lançado em setembro de 2019 na plataforma de streaming da Netflix, é um filme de horror que surpreende o espectador com uma crítica socioeconômica forte. A metáfora é bastante clara: apesar da condição ser ridiculamente desigual entre as pessoas, quem está no patamar de cima não se preocupa com quem está abaixo.

Nesse período de exclusão social, temos visto a elite brasileira atuando da mesma forma, estocando produtos em suas casas e deixando os supermercados com prateleiras de produtos essenciais vazias, como papel higiênico e álcool em gel. Mas, o filme antecede a pandemia do coronavírus. Ele retrata uma desigualdade mais enraizada na nossa natureza como seres humanos.

Na situação limite em que os personagens se encontram, a administração (parte que pensa a prisão) diz que todos devem entrar em “solidariedade espontânea” para sobreviverem em harmonia. Ao invés disso, praticamente nenhum prisioneiro se solidariza com o próximo e vira uma verdadeira carnificina na metade debaixo da prisão (parte que vive ela).

Só há uma forma de interação entre os diferentes andares: violência. Andares acima cospem no pratos dos debaixo. Ao final do filme, Goreng (Ivan Massagué) abusa dos cabos de ferro de sua cama para fazer com que os detentos não comam mais do que o necessário do banquete.

Oprimidos, quando sobem para andares mais altos, viram opressores. Os que estão em andares acima sempre se esbanjam do banquete, enquanto o restante come as suas sobras. No mês seguinte, são estes que ficarão sem comer e os famintos que irão se empanturrar. Não é atoa que a palavra preferida do Trimagasi (Zorion Eguileor) é “óbvio”. A conduta na prisão é dessa maneira e não tem porque ser questionada.

Cena do filme O Poço, primeiro longa-metragem do diretor espanhol Galder Gaztelu-Urrutia. Foto: Divulgação

Mesmo que 300 andares separem a primeira da última dupla que se alimenta do banquete da plataforma, o filme mostra que as pessoas são bastante parecidas entre si. O diretor Galder Gaztelu-Urrutia explicou, em entrevista ao portal iHorror, sua visão sobre o filme durante a exibição no Festival de Toronto. “[O filme] não se trata de mudar o mundo, mas de entender e colocar o espectador em vários níveis e ver como eles se comportariam em cada um deles. Dependendo da situação na qual você se encontra, você vai pensar e se comportar de uma maneira diferente. Então, estamos provocando o público para entender os limites de sua própria solidariedade. O Poço quer colocar o espectador em uma posição que o faça pensar em como ele se comportaria em certas situações em relação ao que está acontecendo no mundo real”, disse o cineasta. Então, qual seria a verdadeira natureza humana? Egoísta e má? Altruísta e boa?

Claro, ainda pode-se fazer várias outras interpretações sobre o filme, tantas quantas a sua imaginação conseguir pensar. Podemos imaginar o poço como o inferno e que cada pessoa estaria pagando por seus pecados. Trimagasi, ao descobrir que havia sido enganado por um comercial de facas, ficou irado e matou um rapaz. Goreng estaria pagando por sua preguiça de não conseguir parar de fumar.

Ou podemos entender a falta de comunicação entre os presos e a administração como uma metáfora para os governos que não conversam com sua população. O preço que os detentos pagam faz referência às más condições de vida dos mais pobres.

O sucesso de O Poço nas redes sociais é muito merecido. O filme não é genial, mas levanta muitas reflexões em qualquer pessoa. Há várias teorias de especialista e leigos pela internet afora. Destaco o texto que o historiador Leandro Karnal realizou para o seu perfil do Instagram.

Em momentos de quarentena, só nos resta assistir à filmes dentro de casa. O Poço é uma boa opção.

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