Abalos recentes na política e economia

Em um evento de cisne negro, como é o caso da epidemia recente, a ortodoxia econômica sempre se retorce, se adequa a seus mestres políticos ou simplesmente deixa de existir. “É a economia, estúpido”, célebre frase popularizada na gestão de Bill Clinton, explica desde o colapso do regime soviético até a recente democratização do Brasil, e é foco principal de qualquer governante que queira continuar popular e votado por seus leais seguidores. Ou melhor, este foco não é tão direcionado à economia em si, mas sim em como obter benefícios de qualquer situação, seja ela uma catástrofe ou bonança.

No caso atual, os líderes europeus, e principalmente o presidente americano, estão em uma cruzada contra um mal ainda pior que a morte de centenas de idosos inocentes: serem culpados de uma recessão como nunca houve na história pós segunda guerra mundial. Os números são desesperadores, mais de três milhões de novos desempregados em território americano pediram seu auxílio governamental em apenas uma semana; na Espanha, já se fala em congelamento de pagamentos de aluguéis, e ofertas de benefícios do tipo Universal Basic Income, ou seja, programas de renda mínima, estão sendo discutidos até pelos setores mais direitistas do Partido Republicano.

O impasse em que esses governos estão é multilateral. Diante da omissão chinesa frente à potencial letalidade e contágio do vírus, a guerra comercial sino-americana ganha um novo front de batalha. Diante do avanço do “vírus chinês”, como menciona o presidente Trump, as possibilidades de retaliação são múltiplas. Fala-se em boicote de produtos e até mesmo em total rompimento com companhias chinesas, como mencionou Boris Johnson, que também afirmou que o número de infecções e mortos na China foi escondido pelas autoridades comunistas. Trata-se de uma nova guerra fria se desenrolando diante de nossos olhos, com a Inglaterra pós Brexit se alinhando firmamente aos EUA.

Enquanto nos Estados Unidos, Trump conseguiu a impressionante marca de aumento de 5 pontos percentuais em sua popularidade depois do início da crise, ao se posicionar como um presidente em tempos de guerra, uma decisão sábia valendo-se da história, em que nenhum presidente americano deixou de ser reeleito durante uma guerra.

Na União Europeia pouco se fala em sinais otimistas de parte dos governos. Na Hungria, por exemplo, um estado autoritário se formou nos últimos dias, com o presidente Viktor Orban assinando uma lei que o permite governar por decreto, sem limites de tempo. Uma expulsão por parte da UE é uma resposta lógica, mas isso pode levar a outros países, como Polônia e Eslováquia, a cortarem relações com o bloco, ainda que parcialmente.

Nos países mais afetados, a situação é similar. Na Espanha, sentimentos pró UE, ainda que abalados pelas recentes declarações de autoridades holandesas de que a superlotação nos hospitais no Sul da Europa é causada por fatores culturais de excessivo apego aos idosos, que deixou furiosas autoridades de Espanha e Portugal, continuam majoritariamente positivos.

Já na Itália, há profunda insatisfação com a União, especialmente por causa da falta de ajuda de países como Alemanha. Como estavam em crise já antes da epidemia, sua população está ainda mais sensível, e recentes doações vindas de países como China e Rússia são o canário na mina de carvão, alertando que há instabilidade e possíveis conflitos futuros podem acontecer neste país.

Como um terremoto, esta epidemia veio para sacudir a velha ordem de Bretton-Woods. Um novo gigante, a China, finalmente despertou como pólo de influência, controlando instituições pelo mundo. Estados Unidos luta para permanecer no topo enquanto a Europa, agora impotente diante do poder politico e econômico dessas superpotências, percebe o quanto sua suposta união é sensível e burocrática, escondendo profundas rivalidades internas. Resta aos governantes do mundo conduzir a situação de volta a uma normalidade, que com certeza será já muito diferente.

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