Fascinante e Repulsivo, Dau Vai Além da Pecha de Filme-Escândalo

Provavelmente, se escrito há cerca de duas semanas, esse texto começaria com alguma afirmação categórica como “Nenhum filme vai gerar tantos debates em 2020 como os provenientes do projeto Dau.”. Entretanto, na atual conjuntura, na qual qualquer debate no campo estético parece ínfimo quando comparado aos reais problemas que vivemos, frases como essa parecem inócuas, tendendo a um certo mal gosto.

Assim, com a consciência da quase irrelevância das polêmicas levantadas nesse artigo, me coloco no direito de afirmar que, mesmo quase irrelevante em nosso contexto social, os dois primeiros filmes do projeto apresentados no último festival de Berlim, como projeto artístico, são incontornáveis, por mais que em nosso “mundo real”, longe das telas dos grandes festivais e tentando levar um dia após o outro, sejam quase que completamente irrelevantes.

Mistura de experimento social e projeto audiovisual transmídia, Dau é o projeto cinematográfico mais ousado (e sim, pretensioso e megalomaníaco) que surgiu em muito tempo. O projeto partiu da vontade cineasta russo Ilya Khrzhanovskiy de realizar uma cinebiografia do físico soviético vencedor do prêmio Nobel Lev Landau.

Cena do trailer do filme Dau. Foto: Divulgação.

Contudo, o diretor, financiado por um bilionário russo, decidiu reconstruir o instituto de Landau em tamanho real, com ruas, cafés, cantinas e apartamentos funcionais, onde, entre 2009 e 2011, viveram numa reprodução fidedigna da União Soviética dos anos 40, 50 e 60, mais de 400 pessoas. Essas tinham empregos e desempenhavam papeis dentro desse mundo paralelo e esporadicamente eram filmadas.

Khrzhanovskiy não desempenhava um papel ativo no set, apenas instigava situações que eram registradas pelo veterano diretor de fotografia alemão Jürgen Jürges (que coleciona colaborações com grandes nomes como Fassbinder, Wenders e Haneke) registrava, numa câmera na mão sempre em função dos atores, o que acontecia, por vezes de forma mais espontânea que outras.

Após cerca de 10 anos sendo alvo de polêmicas, com diversos boatos de abusos que teriam ocorrido dentro do instituto, nenhum deles comprovado, e dúvidas se um dia os filmes ficariam prontos, finalmente foram exibidos os dois primeiros filmes provenientes da empreitada, da qual resultaram 700 horas de material gravado montados em 14 filmes de durações variadas.

Festival de Berlim

Cena do filme Dau. Natasha. Foto: Divulgação.

Na competição da Berlinale foi exibido Dau. Natasha, de 2h20 de duração, e, em uma sessão especial fora de concurso, Khrzhanovskiy apresentou Dau. Degeneration, série de quase seis horas de duração que o cineasta afirma ser uma versão encurtada de um filme com duração de nove horas.

Ambos os filmes são impressionantes, com tamanha coerência interna e consciência discursiva que parecem exaustivamente planejados. Mesmo que com alguns planos fora de foco, o trabalho de câmera de Jürges é soberbo, cuja câmera captura tudo com urgência e curiosidade num trabalho que remete ao cinema de Lars Von Trier. Talvez o maior fator de confluência à coesão interna dos filmes seja a decisão de Khrzhanovskiy de ter um codiretor diferente para cada filme, o que trás uma perspectiva pessoal diferente ao material utilizado em cada filme.

Co-dirigido por Jekaterina Oertel e ambientado na década de 50, Dau. Natasha parece um filme-tese sobre como, em sociedades autoritárias como a retratada, relações tóxicas de abuso de poder de reproduzem em todas as instâncias do convívio social. O filme acompanha, em cenas alongadas compostas por planos longos repletos de longos diálogos, Natasha, gerente de uma cantina dentro do instituto e Olga, mulher mais jovem que trabalha subordinada a ela. As duas tem uma relação que oscila muito rapidamente entre o afeto e o ódio profundo, de forma que ela é repleta de abusos físicos e psicológicos.

Elas convivem com pesquisadores no expediente e passam longas noites regadas a muita vodka com eles após o fechamento da cantina. Após Natasha transar com um físico francês convidado do instituto, em uma cena longa e completamente explicita, ela é capturada, interrogada e torturada por um agente da KGB (interpretado por um ex-agente real) em decorrência de ter se relacionado com um estrangeiro, ato proibido dentro do instituto.

Durante as longas sessões de interrogatório, Natasha e seu algoz desenvolvem uma relação de cumplicidade. Assim como Olga aceita os abusos de Natasha como algo natural, Natasha também naturaliza a violência que sofre do agente. Após sofrer tais torturas Natasha continua maltratando Olga normalmente. Na obra de Khrzhanovskiy a violência passa por um processo de naturalização até chegar à banalização.

É interessante que o primeiro “produto” de Dau apresentado seja um filme tão intimista no qual a figura de Landau é completamente irrelevante, muito mais interessado em capturar a riqueza do cotidiano na reprodução de época fidedigna do que em explorar o que seria de interesse mais óbvio dentro do projeto, desde a biografia de Landau até a estrutura de funcionamento do instituto, de forma que a primeira impressão que fica de Dau é de algo realmente radical, violento e até mesmo inescrupuloso, mas também dotado de grande riqueza humana.

Segundo filme

Cena do filme Dau. Degeneration. Foto: Divulgação.

Dau. Degeneration tem pretensões muito mais complexas. Co-dirigido por Ilya Permyakov e ambientado nos anos 60, o épico narra a degradação do instituto até o seu fim trágico. Possivelmente o mais roteirizado dos filmes (Khrzhanovskiy afirmou no debate após a exibição que era o mais ficcional dos 14 filmes, por mais que as cenas não estivessem completamente escritas, ele só decidia elementos e acontecimentos que seriam inseridos nas vidas dos participantes do projeto), é dividido em duas partes e, cada uma delas, em três capítulos.

Na primeira parte os cineastas registram, sem muita preocupação com arcos, o cotidiano de um determinado grupo de pessoas dentro do instituto, desde pesquisadores até dirigentes.

Nesse canto dos cisnes desse microcosmo, quando Landau já estava velho e catatônico, acompanhamos muitos momentos banais dos personagens vivendo suas vidas normalmente, mas também as sucessivas demissões, aposentadorias forçadas e substituições de diretores do instituto por razões morais, que vão desde motivos sérios como assédio sexual até besteiras moralistas como ser flagrado jogando “strip-dominó”.

Aliás, por mais soturnos que sejam os filmes eles são dotados de muito senso de humor, inclusive, antes dos eventos mais difíceis de assistir acontecerem nas duas sessões, a plateias berlinenses riam muito durante ao decorrer das projeções.

O clima muda abruptamente na segunda metade, que é onde são inseridos os elementos moralmente mais complexos do projeto, que levaram a perguntas muito ríspidas no debate. No meio do caos já vivido no instituto, um grupo de neonazistas (todos extremistas reais cujo líder inclusive se encontra preso na Rússia) é levado para lá como participantes de experimentos de um psicólogo estadunidense que parece seguir alguma corrente behaviorista quase que num simulacro do que é experimento Dau como um todo.

Eles convivem normalmente com os outros personagens mas vão adquirindo uma presença e influência cada vez maior dentro do instituto até que, perto do colapso, o diretor do instituto, que vinha tentando tomar medidas para colocar uma certa ordem no local, pede que eles destruam o local e matem todos que lá vivem.  

Esse segundo filme de Dau tem ambições muito maiores que Natasha, Khrzhanovskiy e Permyakov aparentam construir o colapso do microcosmo como uma alegoria para a queda da União Soviética e as bases sob as quais a Rússia pós-soviética foi construída. Se é ambicioso, tão impressionante como projeto estético quanto Natasha e fascinante em sua construção narrativa e alegórica, também é moralmente controverso, em alguns momentos até mesmo repulsivo.

A decisão de colocar um grupo real de neonazistas para conviver com os outros atores-cobaias do experimento (todos participantes voluntários que podiam deixar o instituto quando quisessem) parece incorrer em uma irresponsabilidade em relação à segurança desses voluntários. Logicamente quando se confina um grupo de pessoas em um espaço conflitos e abusos vão surgir e não se pode culpar Khrzhanovskiy por tudo que poderia ter ocorrido lá dentro. Contudo, a inserção do grupo de extremistas foi uma decisão ativa do cineasta feita puramente em prol da narrativa.

Polêmicas

Cena do filme Dau. Natasha. Foto: Divulgação.

Se nenhuma pessoa foi ferida pelos nazistas (uma atriz é filmada tendo diversas relações sexuais com o líder deles, mas segundo ela e o diretor foi algo voluntário por parte dela), existe uma cena de uma brutalidade intragável envolvendo um porco que os extremistas cometeram a pedido do diretor. Já nos 40 minutos finais do longuíssimo filme, completamente embriagado e afirmando estar fazendo um experimento, o líder dos neonazistas, com ajuda do resto do grupo, tira um porco de um laboratório, o maltrata, escreve diversas ofensas antissemitas no animal e o leva para o apartamento onde estavam bebendo com outros personagens. Lá, se exibindo na frente de todos ele tortura, mata e degola o animal. Já tiveram muitos casos de animais “sacrificados em nome da arte”, mas nunca com tamanha brutalidade.

Na coletiva de imprensa de Natasha tanto o diretor quanto a atriz principal afirmaram que as cenas de tortura e abuso sexual do filme foram simuladas. Se os dois lados confirmam essa versão não cabe-me especular que teria ocorrido de forma diferente, porém a violência contra um animal vista em Degeneration é absolutamente repulsiva e condenável, filmada numa mistura de voyeurismo e sadismo insuportável.

Todavia, se objetos de repulsa, esses dois primeiros resultados de Dau não deixam de ser fascinantes. Os atores não profissionais estão tão naturais em seus personagens que parece que eles conviveram tanto tempo sob tais personas antes de Jürges começar a captar o material que de certa forma eles quase se converteram nos personagens, o que foi corroborado no debate quando uma das atrizes afirmou que sentia que até alguns anos após o fim do experimento ela ainda não tinha conseguido abandonar completamente a personagem.

Após uma jornalista indagar os diretores se alguns abusos registrados no filme haviam ocorrido de verdade, uma curadora do festival que mediava o debate interveio e afirmou que para ela era justamente sobre essa dúvida que era o projeto e justamente por isso ele era tão fascinante e relevante. Se a afirmação parece questionável quando se discute o filme sob um ponto de vista ético, ela também não é errônea. Se os filmes aparentam se apresentar narrativamente como ficções, existe um lado claramente documental na espontaneidade das situações.

Se a discussão a respeito da performance e as linhas que separam o ficcional e o documental não é uma novidade e vêm sendo exaurida a décadas por grandes cineastas como Orson Welles e Eduardo Coutinho, contudo tais filmes, a exemplo de F For Fake e Jogo de Cena costumam estar mais ligados estruturalmente ao cinema documental. Existem exemplos mais recentes como A Vizinhança do Tigre, dirigido por Affonso Uchoa nos quais vemos as pessoas interpretando a elas mesmas, mantendo seus nomes e fisionomia, em uma projeção de autoficção.

O que diferencia o processo de construção performática de Dau é que nota-se claramente uma construção meticulosa de cada personagem, tanto na concepção de histórias pregressas quanto na entrega física dos atores, uma atriz inclusive afirmou que ganhou 10 quilos para “envelhecer em tela” na passagem da década dos anos 50 para os 60. Se a existe uma construção de personagem ficcional, os filmes não deixam de ser um documento do físico dos atores e do comportamento desses quando submetidos a situações insólitas dentro do experimento.

É difícil criar conclusões objetivas sobre um objeto cinematográfico tão ousado e complexo quanto Dau. Após dois filmes fica um misto desconfortável e estimulante de fascínio e repulsa concomitante a uma necessidade de se submeter aos outros 12. Talvez o que fique dessa experiência inicial da obra monumental de Khrzhanovskiy seja justamente a necessidade de aprender a abraçar o contraditório, aceitar que uma obra pode ser capaz de te causar fascínio e aversão ao mesmo tempo e esses dois sentimentos não são necessariamente excludentes, que podemos admirar uma obra de arte sem endossar os métodos utilizados para concretiza-la.

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