Mesmo com o Covid-19, a máquina de queimar reputações continua ativa

O Brasil, assim como diversos outros países no mundo, enfrenta a pandemia de coronavírus. A estranha e altamente contagiosa doença que parecia para nós tão distante na China já causou mortes em nosso território e centenas de outras pelo resto do globo. Nisso, autoridades e especialistas tentam conscientizar a população. Enquanto outros tentam queimar a imagens dos desses.

Vídeo do Nerdologia do começo de fevereiro informando sobre o coronavírus.

Atila Iamarino é biólogo e pesquisador e doutor em microbiologia pela USP. Apesar de já ser conhecido por apresentar o canal Nerdologia e ter participação no MOV Show do Uol e no podcast do Jovem Nerd, Atila se tornou conhecido pelas pessoas fora desse círculo YouTube/Redes sociais, seja por suas entrevistas em jornais ou pelo compartilhamento de seus vídeos no WhatsApp.

Os vídeos e transmissões ao vivo do biólogo estavam recebendo muitos elogios, até o dia em que ele utilizou um estudo feito na Inglaterra e que projeção poderia ser feita baseada nele no Brasil. A conclusão foi que se nada fosse feito para deter o coronavírus poderíamos alcançar a marca de 1 milhão de mortos.

Apesar da informação ser preocupante, as pessoas se confundirem e acharam que a previsão de 1 milhão de mortos era inevitável, como uma previsão do tempo para chuva. Atila gravou um vídeo depois explicando mais essa situação.

Nisso muitos se desesperaram nas redes enquanto outros começaram a questionar os dados e o conteúdo. E a própria figura de Atila. Não com novas pesquisas e estudos, mas atacando sua imagem e sua pessoa.

Montagem: mensagens nas redes sociais descredibilizando Atila Iamarino.

Outra figura pública que teve sua imagem atacada nos últimos dias foi o médico Drauzio Varella. Drauzio já incomodava certos setores mais conservadores por seu ativismo social e de defesa dos direitos humanos e tentaram queimar de fato sua reputação no caso do Fantástico com a reportagem sobre detentas trans nas prisões.

A despeito das críticas ao que foi feito na reportagem (muitas delas imensamente válidas), críticas foram direcionadas a figura do médico, que disse não saber dos crimes da detenta Suzy (seguindo a ética médica que ele carrega para outros aspectos de sua vida) e pedindo desculpas, visto que foi ele quem apresentou a reportagem e mandou uma mensagem de solidariedade para a mãe do menino morto.

Começou a circular na internet vídeo que dá a entender que Drauzio é hipócrita, quando ele apenas compartilha as informações com os novos dados e notícias que não tínhamos na época em que o vírus começou a se espalhar na Europa.

Recentemente, um vídeo de janeiro de Drauzio, que também faz divulgação sobre cuidados médicos, circulou intensamente após o senador Flávio Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles o compartilharem como se fosse atual. O vídeo, antigo, informa que não é necessário fazer quarentena, sem mencionar que na época em que foi gravada a Itália tinha apenas dois casos de coronavírus registrados.

O caso gerou tanta repercussão que Ricardo Salles pediu desculpas pelo ocorrido e o Twitter tirou o vídeo do ar tanto que o ministro quanto que o senador publicaram. O vídeo não apenas foi usado com intenção de atacar Drauzio, mas também apoiar a ideia de que a quarentena seria “desnecessária” e que é preciso voltar a trabalhar.

Montagem: mensagens compartilhadas no Twitter.

No pronunciamento feito no dia 24 de março, Bolsonaro citou de forma irônica o médico ao dizer: “No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão”, fazendo referência ainda a informação desatualizada do vídeo antigo.

Isso é reflexo tanto da cultura virtual do cancelamento (embora associada mais a pessoas que dizem defender visões mais progressistas, também é uma estratégia de indivíduos de posicionamentos mais reacionários) quanto da polarização entre esquerda e direita que se intensificou nas eleições de 2018 e ainda se faz presente. Politizando assuntos sérios e urgentes. E é esse conjunto ao qual me refiro “máquina de queimar reputações”.

Mais do que querer defender lados, é preciso escutar os especialistas e o consenso entre eles e sua comunidade. Tomar todos os cuidados necessários, pois os problemas do vírus não são apenas sua mortalidade, mas seu alto grau de contágio e o caos que ele pode provocar nos sistemas de saúde. E buscar compreender o significado do conteúdo das mensagens que nos são dadas.

PS: Vale ressaltar também que para este autor, apesar de tudo, encontrou com muito mais facilidade mensagens de apoio e incentivo ao Atila e ao doutor Drauzio Varella.

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