”I Am Not Okay With This”: Netflix encontra em Charles Forsman o alvo perfeito para métrica de seu algoritmo.

Olá, meu nome é _________. Eu não me encaixo no mundo. Eu sou diferente. Esse é o(a) _____________, ele(a) é a pessoa mais popular do colégio, e também um idiota. O colégio provavelmente será o pico da sua vida. Não da minha, eu sou diferente.

Se os parágrafos acima pudessem ser o nome de um gênero, a Netflix estaria lutando pela patente.

A incessante guerra entre novas plataformas de streaming já era o assunto mais relevante para  o mercado audiovisual nesse ano. A nova realidade mundial, então, coloca a discussão em patamares estratosféricos. Cinemas fechando e quarentenas obrigatórias colocam o foco nesses serviços, cuja concorrência só tende a crescer.

Enquanto novos serviços buscam garantir uma fatia do mercado através de IP’s [do inglês: Intellectual Property; Em tradução: Propriedades Intelectuais] –  como a Amazon adquirindo Senhor dos Anéis e apostando em séries que sejam comercializadas como franquia. A Netflix implementa essa estratégia usando a engenharia de seus algoritmos para minimizar o risco na criação de novos produtos. Ou seja, são produzidas séries que já apetecem ao gosto do público que se quer atingir. Um dos públicos mais cobiçados é de 13-21 anos, devido a sua grande capacidade de envolvimento e tempo hábil para usar o serviço.

Surgem assim produtos como o em questão, I Am Not Okay With This. A série parece uma mistura de tudo que vem agradando esse público nos últimos anos. Stranger Things; IT; 13 Reasons Why; Riverdale são alguns exemplos.  Os protagonistas inclusive, são membros do elenco de IT. O mais importante, porém, é The End of The F***ing World. As séries não só compartilham de similaridades tonais óbvias, como tem a mesma equipe de criação e são baseadas em quadrinhos do mesmo autor.

Da esquerda para direita, Sophia Lillis e Wyatt Oleff, protagonistas da série. Foto: Divulgacão.

Charles Forsman, o autor americano em questão, tem uma bibliografia que apesar de inegavelmente autoral e independente, parece também vinda de um algoritmo. É artístico, porém é lugar comum e facilmente classificável. É o alvo perfeito para os olhos da Netflix. 

Em I Am Not Okay With This, o quadrinho, Forsman escreve sobre as angústias adolescentes mais comuns: o não pertencimento, a dificuldade de equilibrar vida escolar com vida pessoal e como essas coisas afetam a autoestima levando a depressão e perigando pensamentos suicidas. É ilustrado de forma simples, mas estilística sem dúvida. Feita para parecer traços que remetem mais tirinhas do que traços complexos de graphic novels de grandes editoras. Simplicidade que, no desenho, não é problema, mas revela-se um empecilho gigante ao equilibrar com o roteiro. Falar de suicídio requer complexidade, que não parece caber na tentativa de humor ácido e atitude do autor.

É uma obra rasa mas que, fala com seus leitores como ninguém. Intencionalmente ou não, joga-se com a angústia do público-alvo . A maioria se sente diferente e excluído, se apegando a um protagonista que não só compartilha de seus anseios mas revela-se especial e fora da curva – aqui no caso, manifesta super poderes. Os recursos de gênero então, terminam de construir uma obra de identidade pasteurizada mas com grande apelo justamente por suas escolhas estilísticas.

Traço da protagonista na graphic novel original de Charles Forsman. Foto: Divulgacão.

Essa também é a grande crítica ao modelo Netflix, que submete desde de sua base, as decisões artísticas a um modelo específico. 13 Reasons Why, sendo o exemplo mais polêmico, tenta falar de suicídio entre adolescentes – um tema que é válido, porém imposto a caber em uma caixa que atenda o estilo de série que o público-alvo consuma, no caso, romances adolescentes com grande foco na construção de casais. 

Com o tempo e diversas críticas ferrenhas de instituições protecionistas, parece que o modelo Netflix tendeu a solucionar os problemas se simplificando mais ainda. Remove-se não a imposição ao gênero, e sim a identidade artística. Os produtos se tornam gênero puro, de modo que os roteiros parecem saídos de inteligências artificiais após serem alimentadas com todos os exemplos do que faz sucesso. Uma crítica não tão diferente da feita ao cinema blockbuster atual, o qual os streaming, de início, pareciam ser a fuga.

Na versão televisiva de  I Am Not Okay With This, tudo, inclusive as tentativas do quadrinho de falar com propriedade de assuntos mais sérios, é escrito de um modo tão seguro, que é impossível de apontar certas coisas como ruins. Os personagens são bem construídos dentro do óbvio e os atores fazem um bom trabalho pois atuam como se atua em dezenas de outras produções do estilo. Agrada perfeitamente quem tem que agradar, não é difícil e nem ruim de assistir e ao final dos 7 episódios, dificilmente seria descrito como uma experiência desagradável.

O problema, então, é que a arte nesses produtos torna-se tão intrinsicamente associada  ao estilo que é ao mesmo tempo nula o suficiente para não incomodar, já que não corre risco nenhum, e perfeitamente comunicativa com seu público para ser tida como funcional e fazer sucesso. Autores como Forsman são exatamente o que se procura. Textos cuja identidade é naturalmente fabricada, uma espécie de conformidade não intencional, já que tem estilo e voz autoral para não serem artisticamente nulos mas desenvolvimento fácil e seguro de tão afundados em tal estilo.

”I Am Okay With This” já está disponível na Netflix Brasil.

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