Europa em crise : consquências do coronavírus no velho continente.

Um continente surpreso e assustado. Essa é a Europa no mês de março de 2020. Nas principais ruas de cidades como Milão ou Madri, o burburinho dos turistas foi substituído por um silêncio desolador. Os mais atingidos, Itália e Espanha, recorreram a medidas dracônicas contra a propagação da doença, gerando grandes debates sobre o limite em que os governos podem chegar diante de crises como a atual.

Recentemente, a lei de quarentena italiana foi ampliada de modo a permitir a prisão de cidadãos que ousem viajar entre cidades nas regiões atingidas. Na Espanha, a saída de casa sem motivos claros (que foram listados préviamente pelas autoridades) pode levar a multas de no mínimo 100 euros. Mesmo na Inglaterra, que tradicionalmente tem uma postura mais liberal diante da autoridade estatal, uma nova lei está em trâmites que pode autorizar a detenção de indivíduos infectados pela polícia. Os mesmos cidadãos que em janeiro viam a lei marcial ser aplicada na China, e que podem ter pensado que isso nunca aconteceria em seus países de origem, foram surpreendidos pelas recentes ações.

Diante do novo status quo europeu, crise econômica parece se tornar o novo medo entre as populações em quarentena. Bolsas de valores ao redor do mundo caíram em ritmo frenético nas últimas duas semanas, apesar de medidas expansivas assombrosas, como um pacote americano de 1,5 trilhão de dólares, e reduções de juros ao redor do mundo. A possibilidade de sair da quarentena e ser recebido com uma carta de demissão é um grande temor de assalariados europeus. E se destaca também o debate entre estabilidade econômica e saúde, que pode ter influenciado a suposta demora em agir de governos como o espanhol e o inglês.

Contradições e insegurança surgem entre as novas medidas aplicadas. Por exemplo, na Espanha, enquanto pequenos comerciantes, donos de restaurantes e prestadores de serviços sofrem com a proibição à abertura de seus estabelecimentos e também ao comparecimento de seus clientes, as grandes empresas seguem abertas, já que os escritórios não foram fechados e ir trabalhar é permitido. Esse fator, combinado com o da crise e desemprego, pode gerar uma nova onda de populismos de esquerda e direita na Europa, insatisfeitos com o resultado da recuperação da ultima crise, furiosos com o tratamento especial dado pelo governo a grandes empresas e bancos, e que podem encontrar em uma nova recessão econômica a oportunidade perfeita de finalmente estar ao controle de grandes nações europeias.

Em uma Europa dividida politicamente entre mainstream e novas forças extremas crescentes, prejudicada pelo Brexit e por crises financeiras, e com suas contradições escancaradas pelo cenário presente, uma tempestade perfeita para o nascimento de uma reorganização política está presente. Já se podem presenciar também tentativas de grandes potências para abarcar nações europeias em suas esferas de influências. Estados Unidos proibiu viagens desde a Europa, mas continuou permitindo aviões vindos do Reino Unido por mais duas semanas, em um claro aceno a uma Inglaterra pós-Brexit. Já a China presenteou equipamentos de saúde e máscaras à Itália, com uma clara mensagem de que a UE não pode ajudá-los como os chineses poderiam.

Resta descobrir nos próximos meses como essa tempestade acabará. A estrutura burocrática e oligárquica da União Europeia, e a rigidez do Banco central Europeu e do Euro, certamente desagradam a muitos europeus, e as recentes demonstrações de força vindas dos governos nacionais, em caso de uma bem sucedida eliminação do vírus, podem tender mais e mais europeus ao nacionalismo e a rejeitar a ideia da UE, enquanto que a crise mundial subsequente pode ter sérias influências na política e economía de um continente que, com excessão de alguns outliers, ainda continua estável frente aos cambios mundiais de status quo.

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