Petição pela instalação de estátua de Iemanjá em Santos é criada após campanha para barrá-la

No dia 2 de fevereiro, durante a 20ª procissão de Iemanjá, estava programada a instalação de uma estátua em homenagem a divindade que é a Rainha do Mar e Mãe de todos os Orixás. A escultura de dois metros seria colocada na Praça Vereador Luiz La Scala, próximo ao Aquário de Santos. Porém, na data em questão, a obra foi apenas exposta e hoje há apenas o pedestal.

A estátua já está pronta e retrata uma figura feminina negra. Tal escolha tem um significado: “Geralmente as pessoas colocam estátuas brancas e foi de grande inteligência a gente colocar o que é realmente a representatividade negra, o que é a representatividade do candomblé”, explica Caio Mimary, terapeuta holístico e membro da comissão da procissão de Santos.

Nesse meio tempo em que a estátua não foi colocada, foi criada na internet uma petição contra a instalação da estátua de Iemanjá no local, alegando ser um espaço de patrimônio histórico tombado, e que o Estado não poderia nem gastar dinheiro nem executar esse projeto, alegando que privilegia uma religião específica e fere o estado laico.

Estátua de Iemanjá já está terminada. A obra é do artista Luís Garcia Jorge e teve custo de R$ 40 mil. Foto: Divulgação.

Representatividade negra

Nisso, Mimary, que também é membro da Comissão de Direito e Liberdade Religiosa da OAB de Guarulhos, criou uma contra-petição, a favor da estátua e alegando que os posicionamentos contrários a instalação possuem cunho de intolerância religiosa e até de racismo.

Ele também rebateu a acusação de ser algo que queira apenas atender um grupo religioso, dizendo que a estátua faz parte de um movimento cultural, traz representatividade para os negros, “Santos é uma cidade negra” e que traz benefícios e visibilidade para a cidade. Este ano, a procissão reuniu 5 mil pessoas na orla de Santos.

“Tem tantas cidades que a gente vê “Essa cidade pertence a Jesus Cristo”. No século XXI, o estado laico ter uma placa dessas, qual é o problema de eu colocar uma sereia negra? É uma representatividade cultural da mulher negra. É muito doloroso isso para a gente, o povo de matriz africana, mas a gente consegue”, afirmou Mimary.

Impedimentos

O terapeuta holístico explicou ainda o que ocorreu para a estátua não ter sido colocada e ter desencadeado as petições e acusações:

“O que acontece é que há dois anos, o babalorixá Marcelo entrou com um projeto de lei com vereadores, a comunidade do movimento negro, da tolerância religiosa, aqui de Santos, para colocar a estátua. Foi então anunciada à instalação dela no dia 2, tudo ia bem, só que houve um erro documental: incluíram o documento, de dois anos atrás, num projeto atual. Entraram com o impedimento porque esse documento tinha expirado”.

Babalorixá Marcelo de Logunedé é presidente da Procissão de Iemanjá e também quem comanda a procissão em Santos e também quem lida com as questões referentes ao governo: “Houve uma deficiência na questão do poder publico. Nós vamos acertar porque o prefeito tem que fazer um projeto de lei, que foi feito há dois anos, mas não sabíamos que tinha prazo de um ano só”.

A instalação da estátua ganhou um contratempo no dia 2 de março. Inicialmente, a proposta de autorização para que a obra fosse colocada na orla de Santos estava pautada no artigo 24 – projeto encaminhado ao plenário, sem discussão nas comissões do Legislativo. Mas o autor da proposta retirou a urgência e agora o projeto precisa passar pelo trâmite normal do Legislativo. A informação é do portal Boqnews.

A petição contra a estátua foi encerrada nesse dia, com a mensagem “vencemos a batalha”. Ela foi encerrada com cerca de 8 mil assinaturas. A contra-petição até o momento desta publicação conta com 14 mil.

À esquerda a petição contrária a instalação. À direita, a petição a favor criada por Caio Mimary. Foto: Divulgação.

Ainda segundo o jornal, no dia 27 de fevereiro em que foi votada a proposta de votação pelo artigo 24, apenas um voto foi contrário: o do vereador evangélico Adilson Jr (PTB). O político negou qualquer preconceito: “Apenas quero que o trâmite do projeto ocorra de forma normal, dentro da constitucionalidade”.

O líder religioso explicou ainda que na época em que o documento era válido não foi possível colocar a estátua: “Agora eles têm que fazer um projeto de lei para voltar para a câmara para eles votarem. Porque tudo que implica a orla da praia, como é um patrimônio, precisa passar pela votação da câmara, do legislativo. A lei orgânica do município exige isso”.

Instalação nos trilhos

À direita Caio Mimary. À esquerda babalorixá Marcelo. Foto: Divulgação.

Caio Mimary disse que as tramitações estão todas ocorrendo a favor para a instalação da estátua: “Não tem nada que possa impedir agora, até porque nós nos mobilizamos bastante com a prefeitura. Não ficamos calados. Mandamos os números da petição para mostrar que não estamos aqui para aceitar intolerância”.

O terapeuta também fez questão de deixar claro que a prefeitura não impediu a instalação por ser uma estátua de uma divindade do candomblé ou da umbanda, mas por causa do documento expirado.

A prefeitura de Santos enviou uma nota dizendo que “estão sendo definidos ajustes dos últimos detalhes técnicos e legislativos para a sua instalação no local”.

Print foi enviado ao Converge e verificado posteriormente. Foto: Divulgação.

A igreja Bola de Neve que divulgou a petição contrária à instalação enviou uma nota ao Converge dizendo que não iria se posicionar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s