Bandas cover se reúnem em show beneficente à vocalista com doença degenerativa

No dia 28 de março, os fãs do Rock ‘n’ Roll e do Metal poderão desfrutar uma grande noite com bandas cover de diferentes grupos consagrados, que inclui Nirvana, Metallica e Guns N’ Roses. O evento será um grande show beneficente para a vocalista Jeani Babini, mãe de duas crianças e que possui polineuropatia.

Jeani e seu piano. Foto: Luana Bonfá.

Jeani explica que sua doença veio por conta de uma outra que é desconhecida, apesar dos exames. Por conta da Polineuropatia, que ataca os músculos e nervos, atualmente ela tem afetadas as duas pernas, o braço esquerdo e o nervo por trás dos dois olhos. Não existe cura. A fisioterapia é importante para que o corpo não paralise de vez. Ela também toma remédios para diminuir a dor.

Seu estado atualmente é crônico, com dores fortes desde que acorda até quando dorme, “durmo coisa de quatro por horas por noite a nove anos”, ela conta. Jeani explica ainda que por conta das dores seu estado emocional muda muito, o que lhe é desgastante. Por conta disso ela toma trazodona que ainda ajuda para dormir, embora ela diga que o efeito não seja muito grande.

O mundo da música

Segundo Jeani, sua família vem de uma linhagem de músicos: “Meu tio, Rafael Babini, quando mais novo, tinha a voz super parecida com o Elvis Presley, e o sonho dele era ser um grande músico. Chegou a gravar um CD. Meu pai, Jean Carlos Babini, era violinista clássico. Se apresentava em lugares culturais”.

A mãe de Jeani, Maria de Fátima de Araújo, a incentivou a montar um grupo, já que sua filha cantava bastante em casa. Ela primeiro tentou em meados de 2007 montar um grupo não de rock, mas de pagode. “Eu escutava de tudo aos meus 13 anos. Rock, rap, pagode, MPB, sertanejo (antigo), entre outros (menos funk)”.

Pelo Orkut ela acabou encontrando roqueiros e na época montou a banda Dash com Maurício (bateria), Celso (guitarra) e Clayton (guitarra), mas não duraram muito. Jeani lembra que por morar em Diadema, São Paulo, era difícil encontrar pessoas para tocar.

Em 2008, com 14 anos, começou a trabalhar em uma pastelaria para pagar por aulas de música. Ela conta que recebeu muita ajuda do professor Hélio Ferreira, de quem comprou um piano elétrico que diz que “quando o viu foi amor a primeira vista”:

“Estava tão feliz que o tocava quatro horas praticamente todos os dias por dois anos e por conta da minha rotina eu dormia por volta das três da manhã. Depois aprendi a tocar de ouvido e sozinha. E então comecei a compor minhas músicas próprias.

Banda

Da esquerda para a direita: Daniel (ex-baterista da banda), Allan Ribeiro (guitarra), Jeani Babini (vocalista), Silver (baixista do dia), e Rian Penachi (guitarra).Foto: Luana Bonfá.

Quando tinha 17 anos, um ano após se casar, Jeani conheceu o baterista Viny e um ano depois o guitarrista Allan Karpienko. Com eles ela formou a banda Even Essence, cover da Evanescence da vocalista Amy Lee: “Meu objetivo sempre foi tocar Cover, para pegar experiência para tocar com banda autoral”, conta a musicista.

Em 2012 ela se separou do marido e em 2013 ela engravidou e se casou com Karpienko. No mesmo ano nasceu seu primeiro filho, Christopher. Nessa época ela finalizou o Even Essence e começou uma banda autoral chamada Starless Night, mas por já ter uma banda com esse nome, trocaram para Darkælium.

“Dark, em inglês, é escuro. Lium, em latim, é luz. Æ é nórdico e significa uma junção. Dark seriam as coisas ruins da vida e lium as boas, seria uma junção dos dois lados. Justamente as coisas que a banda se refere, coisas boas e felizes, e tristes, como a perda de uma pessoa querida. Foquei só na Darkælium até 2015 quando engravidei de novo”, relembra Jeani.

Seu segundo filho, Leon, nasceu no final daquele ano. Foi uma época difícil para manter a banda montada, segundo Jeani, pois era uma formação de seis membros e depois que o caçula nasceu ela ficou parada até o meio de 2016: “Foi quando reformulei a Even Essence. Chegamos até aparecer no G1 e fomos tocar no Rio De Janeiro (Trik Trik Pub) em setembro. Em dezembro a banda se desfez por falta de interesse do pessoal”.

Os filhos da vocalista Jeani Babini: à esquerda Leon e à direita Christopher. Foto concedida pela mãe.

No início de 2017, Jeani foi convidada pela segunda vez a entrar para a banda Fallen Angels, que também tocava Evanescence. E nesse ano sua banda autoral fez três shows. Porém, esse ciclo também se fechou quando ela saiu da Fallen Angels no fim de 2018 e a Darkælium parou mais uma vez.

Link das demos da Darkælium.

Da esquerda para a direita: Rian Penachi (guitarra), Felipe Rigby (baixista), e Allan Ribeiro Geremias (guitarra). Foto: Luana Bonfá.

Em janeiro de 2019, a Even Essence foi reformulado novamente, agora com os dois antigos guitarristas da Fallen Angels, Allan Ribeiro e Rian Penachi. O primeiro show foi logo marcado no mesmo mês. E no início de 2020 a Darkælium foi remontada: “também entrei para uma banda de Tristania Tributo, para evoluir minha área tecladista”, disse Jeani.

Gravação do show feito em janeiro de 2019 no Aquarius Rock Bar.

Saúde

Jeani percebeu problemas na perna direita já aos 17 anos e também em um caroço nas costas: “Eu sentia bastante dor e a perna paralisava esporadicamente”. Ela começou então a buscar ajuda de especialistas, primeiro em um ortopedista, até que descobriram que se tratava de algo neurológico.

“Fila de espera do SUS, exames, consultas e retornos. Fiquei por anos nessa. Só fui descobrir que tinha Polineuropatia em novembro de 2018. No entanto, é certo que tinha a doença desde 2011”, conta Jeani. “Antes de saber sobre a minha doença, muitos achavam que era frescura minha. A única pessoa que acreditava em mim era a minha irmã Márcia. Hoje, mesmo com o laudo, muitas pessoas ainda não acreditam. Mas pelo menos os mais importantes me ajudam com apoio”.

Gravação de ensaio mostra momento em que as pernas de Jeani começam a ficar mal. Nisso, o guitarrista Allan Ribeiro a ajuda.

Na época ela estava desempregada e achava que com um tratamento melhoraria e arrumaria um trabalho. Em 2017 fez um curso técnico de Auxiliar de Necropsia e realizou um estágio numa funerária, se tornando ainda técnica em tanatopraxia.

Por fim ela descobriu que tinha escoliose lombar e duas hérnias de disco comprimidas, mas achava que uma cirurgia poderia melhorar as coisas, até que em 2018 soube que sua doença é degenerativa e sem cura:

“Fiquei muito triste. Mas o que me ajudou a não desistir foi o filme do Stephen Hawking
(A Teoria de Tudo). Me fez ver o mundo de outra forma. Que ainda era possível ser uma pessoa ativa e feliz pelo tempo que eu tivesse em vida”.

Jeani conta que a doença a vem “corroendo” ao longo dos anos e ainda, por questão de saúde do coração ela quase morreu na gestação e no parto de seu primeiro filho. A gestação do caçula foi mais tranquila. Atualmente ela faz acompanhamento médico com Neurologista.

Preparo

A vocalista do Even Essence explica que tudo que for para ser feito, todos os dias, seu corpo não aguenta: “Se hoje faço faxina, amanhã fico de cama. A mesma coisa acontece com shows”.

Proteções de pé e mão.

Por conta disso, Jeani se prepara dois dias antes do show, sem fazer faxina e nem sair de casa. No dia do concerto, ela diz tomar remédios para dor da hora em que acorda até a apresentação. Além de ficar de cama o dia todo: “A única coisa que faço é comida e me arrumar para o show”. Ela também precisa de proteções nas pernas e nas costas para aguentar ficar de pé enquanto a música rola: “Depois eu já estou bamba e fico de cama três dias seguidos”.

Apoio

Por conta da Polineuropatia, Jeani tem dificuldade para se locomover e há três anos anda de bengala. Não por questão de equilíbrio, mas para ajudar a manter a força: “Várias vezes tentei arrumar emprego, mas quando as pessoas vêem uma bengala, já ficam receosas. E quando não é isso, eu que não aguento ficar no trabalho. Meu corpo é como uma bomba relógio, estou bem agora, mas daqui uma hora posso estar de cama”.

A vocalista disse também que não consegue levar e buscar os filhos na escola e o ônibus não é uma opção por conta da rota. Por conta disso, um amigo incentivou a criação de uma vaquinha virtual para receber ajuda para comprar um carrinho eletrônico:

“Assim eu poderia ir para minhas consultas médicas e levar e buscar meus filhos na escola sem ficar dependendo das pessoas. E aí, a Larissa, vocalista de uma banda Cover de Nightwish, deu a ideia de fazer um evento beneficente para mim. Fiquei surpresa e muito feliz, pois não tenho muitos amigos”.

Post no Facebook do show beneficente publicado pela página da Even Essence. Evento será realizado no The Mister’s Pub, na Rua Bernardo Daddi, 102 – Vila Dr. Eiras / São Miguel Paulista.

Link para o evento com todas as informações

Jeani conta que outra pessoa que a está ajudando é o Barba, dono do Container Stop Pub. Mesmo com os problemas de saúde e limitações, ela também se ofereceu para fazer parte do evento, “não quero ficar só sentada esperando a ajuda cair do céu”. Ela também sugeriu de fazerem mais shows, dessa vez para ajudar casas de repouso, orfanatos e outras pessoas que precisam de auxílio.

“Eu tenho recebido muita ajuda do Robson Diego Arruda. Estava prestes a ficar na cadeira de rodas no fim de 2018, e através do seu carinho e da sua ajuda me levando pra lá e pra cá, consegui superar”, conta Jeani. Ele também a ajuda comprando remédio, bengala nova, e dando apoio psicológico.

O apoio também vem por parte de sua mãe, que acompanha Jeani nos hospitais e em 2016 passou o dia inteiro de seu aniversário com a filha no Hospital São Paulo. Allan Karpienko, o esposo, deixou de lado o sonho de tocar para ajudar a cuidar das crianças e assim ela pudesse continuar na música: “Se não fosse assim, nós dois teríamos que parar”.

Allan ainda precisou vender a guitarra e o violão para compra de alimentos e remédios para a esposa e também para as crianças, visto que Leon nasceu com problemas de saúde no estômago e Christopher possui déficit de atenção, hiperatividade e um transtorno que os médicos ainda estão analisando.

Com ajuda e apoio, Jeani continua os ensaios e a música.

Health Metal Day – 28/03 (14h00 até às 03h00)
Bandas: Umbra Nightwish Cover e Autoral
Aneurysm Nirvana Cover
Mr. Nightrain – Guns n’ Roses Cover
Laroye – Pitty Cover
Kingmaker – Megadeth Cover
MotorBeer – Metallica Tribute
Even_Essence – Evanescence Cover
Local: The Mister’s Pub – Rua Bernardo Daddi 102, 08010270 São Paulo
Valor: R$ 10,00 (todo lucro será revertido para a compra de uma cadeira motorizada)

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