Filme vencedor no Festival do Rio traz personalidade à uma trama investigativa em meio ao pós-carnaval pernambucano

“Fim de Festa” e seu lançamento em momento oportuno já de cara anunciam uma metáfora de reconhecimento imediato e grande significado sobre o Brasil. Após a efervescência do carnaval, sempre há um clima estranho e curioso com a volta à realidade, o que, dependendo da relação de cada um com as festividades, pode ser bom ou ruim. O retorno também varia na medida de qual realidade estamos falando. Em meio à atual, particularmente no que se diz respeito à cultura e aos ataques que vem sofrendo, a promessa de ressaca que o filme promete apresentar é de uma bem pesada e desiludida.

A produção vem como grande destaque do quase não existente Festival do Rio de 2019, onde ganhou os prêmios de Melhor Filme de Ficção e Melhor Roteiro. Também  traz crédito de direção e roteiro para Hilton Lacerda, um nome bem importante para o célebre cinema pernambucano contemporâneo, autor dos roteiros de Amarelo Manga (2002) e Baile Perfumado (1996), dentre outros, e que aqui repete as duas funções que exerceu em seu seu filme anterior, Tatuagem (2013). Isso soma para que se crie grandes expectativas para a crítica do filme frente à realidade que um pós-carnaval brasileiro em 2020 apresenta. No entanto, na prática, isso parece se converter mais em pano de fundo da narrativa, que parece pintar mais um retrato sentimental de seu protagonista em meio a essa realidade do que dela em si, ainda que um não exclua o outro. 

Da esquerda para a direita, Safira Moreira, Gustavo Patriota, Amanda Beça e Leandro Villa em cena de “Fim de Festa”. Foto: Divulgação.

É na própria capital Recife que um crime, o assassinato de uma turista francesa, faz  o policial Breno (Irandhir Santos) voltar mais cedo do que o esperado de suas férias e surpreender um grupo de jovens que mal acorda do agitado carnaval. À convite do filho Breninho (Gustavo Patriota), sua amiga de infância (Amanda Beça) e dois amigos que conheceram no feriado (Safira Moreira e Leandro Villa) se hospedam no apartamento de Breno estabelecendo uma convivência entre os dois universos opostos nos próximos quatro dias. O que se segue é a investigação junto à família da vítima e do outro lado a rotina em clima de ressaca dos jovens, que insistem em manter o sonho do carnaval em curso. Em meio a isso, os mundos se entrelaçam e fazem ebulir tensões sociais e pessoais. 

Com a proposta de exercer uma “corrupção do gênero policial”, como o próprio Hilton Lacerda gosta de definir, o diretor e roteirista apresenta um filme que consegue intercalar linguagem mais artística de não tão simples absorção com elementos que entretém, como a trama de investigação, intrigante embora não tão elaborada, e momentos cômicos que funcionam. Diversos personagens representantes de diferentes origens trazem as discussões políticas e sociais que aparecem, em sua maior parte, de forma bem contundente. O roteiro tem êxito em amarrar pontos inicialmente distintos, como a relação temática de um dos membros do grupo com uma empregada e até com um personagem envolvido no crime investigado. 

Fatos ocorridos durante carnaval de Recife são ponto de partida para os conflitos do filme. Foto: Divulgação.

Porém, o grande número de personagens e a vontade em se afastar de um gênero  faz com que o filme perca um pouco de força por não passar tudo o que sua proposta tem de conteúdo. Com o objetivo de não jogar tudo na cara do espectador e trazer dubiedade para seus personagens, “Fim de Festa” acaba por deixar muita informação no subtexto, dificultando o entendimento do passado deles e, assim, afastando um pouco o espectador da compreensão de seus sentimentos. 

Este é um efeito que afeta mais os personagens secundários, não prejudicando muito a personagem interessantíssima de Irandhir Santos, que é ótimo no papel. O Breno que encarna, um sujeito cansado e perdido em meio à um país dividido, parece ser a síntese do pós-carnaval que o Brasil de 2020 tem a oferecer. A crônica sobre um país conservador e renegado à própria cultura, que Lacerda comentou em debate após uma pré-estreia do filme, revela-se então por meio dos sentimentos de seus personagens mais como metáfora e não como tema central da trama como sua fala e a proposta do filme pareciam sugerir.

“Fim de Festa” está em sua primeira semana em cartaz nos cinemas brasileiros.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s