Crônica: Billie Eilish, James Bond e conservadorismo de um fandom odioso

Desde o anúncio, eu já estava nervoso. Incrédulo, contemplei a notícia na minha frente com uma mistura de expectativa e temor. Expectativa porque sabia que a assinatura de Billie Eilish e do seu irmão Finneas na música tema do novo filme de 007 seria de uma proporção imensa para a franquia. A cantora de 18 anos capturou o título de platina no seu primeiro álbum da carreira, o “WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO?”, além de quatro Grammys, numa premiação que chocou o mundo. Coisa boa provavelmente sairia daí. Mas, o temor falava mais alto que a expectativa. Principalmente, pela enxurrada de comentários negativos instantâneos num grupo brasileiro adepto da franquia do espião mais conhecido do mundo.

“Essa menina é ridícula”, “Canta feito uma asmática”, e “Forçação da esquerda” foram alguns dos comentários – mais leves – que vi no contexto. Me recordo de quando entrei para o grupo, por volta de 2017, após me interessar pela história de James Bond quando assisti a trilogia da era do ator inglês Daniel Craig (Casino Royale, Quantum Of Solace e Skyfall). Dali, decidi tomar como desafio assistir todos os filmes de 007, e assim o fiz, ao longo daquele ano. Todos os filmes lançados no cânon oficial, desde a década de 60 com o suavismo de Sean Connery; passando brevemente pela madeiral atuação de George Lazenby; sofrendo com a “breguitude” de Roger Moore nos anos 70 e 80; me deslumbrando com a tonalidade mais dark da era de Timothy Dalton; suspirando com a ação de Brosnan; e, por fim, me conformando com o realismo de Daniel Craig. Já que não havia a perspectiva de nenhum filme novo naquela época desde o lançamento de Spectre em 2015, o grupo tinha poucas postagens. Então, eu movimentava um pouco, com comentários sobre trilhas sonoras de abertura, que sempre foram grande parte dos filmes. Alguns em particular, são basicamente impossíveis de se assistir sem se arrepiar. É, talvez eu seja um pouco passional demais nessa história de James Bond.

Com exceção da música tema instrumental de John Barry em Dr. No de 1962, os filmes do 007 passaram a ter uma canção na abertura de cada tento da franquia. Vozes poderosas assumiram o serviço com maestria, e nos entregaram alguns dos maiores hits da história. Dame Shirley Bassey (que de tão boa encabeçou três temas), Paul McCartney, a-ha, Duran Duran, Adele e Sam Smith foram alguns dos incumbidos dessa missão musical-cinemática. Desde então, o anúncio de um novo filme de James Bond sempre tem trazido consigo a expectativa de uma nova obra-prima que embalará a lembrança de gerações – e basicamente aí é que as coisas começam a dar errado.

Não me levem a mal. A partir do momento de lançamento da música nas plataformas digitais, eu me senti satisfeito com a música de No Time to Die, intitulada de acordo com o nome do filme. Billie Eilish mostra que não se resume ao rótulo de “voz de vídeo de ASMR” (é sério, foi assim que alguns definiram no grupo), usando de um domínio vocal poderoso e melancólico para a faixa do filme. Na verdade, me atrevo a dizer que tal música consegue ser melhor do que a vencedora do Oscar “Writing’s On The Wall”, de Sam Smith, que abre Spectre. A situação é que, para um fandom de um espião britânico, os brasileiros conseguem ser especialmente muito odiosos. O saudosismo cego de muitos imploram por temas do estilo poderoso de Shirley Bassey, ou a balada animada do Paul McCartney. O que esses se esquecem, é que os tempos mudaram. Eles sempre mudam. E quem não se atualiza de acordo, finda sendo deixado para trás. Por isso, esse apelo pop de James Bond é totalmente justificável. Agora, como explicar isso para uma pá de tiozões possessos no Facebook?

Os ataques a cantora partem principalmente pelo fato dela ser “muito nova para uma música de James Bond”, segundo eles. Críticas a sua voz, ao seu público, ao seu jeito de se comportar, e até ao seu cabelo. Boa parte dos “críticos” não falam da incongruência da música para o gênero de ação. Não falam em termos técnicos ao negócio. Falam apenas em Billie ser “indigna” de cantar a abertura. Se opondo a mudança, não reconhecem a progressão da música, do cinema, e do próprio personagem como um todo. Provavelmente, são os mesmos que criticaram a altura do Daniel Craig quando ele assumiu o papel. Ou os que surtaram quando surgiu o rumor de que Idris Elba poderia ser o novo espião, alegando que “James Bond nunca foi negro”, apesar do mesmo ser um personagem ficcional. Ou os mesmos que tiltaram quando foi mencionado que o filme teria um novo agente 007 no enredo – uma mulher.

A defesa do status quo de uma franquia de quase 60 anos pode jogá-la para o escrutínio do cinema. Em meio a filmes de heróis e grandes blockbusters, pedir uma vodca martini sempre batida e nunca mexida talvez possa provocar o desaparecimento do apelo ao filme do espião. Ora, eu entendo que a mudança sempre pode assustar. Mas, acho que existe outras formas de lidar com ela, além de atacar cegamente quem argumenta em prol da mesma. Eu que o diga, tendo que responder comentários de tiozões acima dos 50 anos, dizendo que isso é “coisa da esquerda”, “mimimi”, e “ideia ridícula”. James Bond continua trazendo novos atores para fazer o papel a cada pá de anos. Porquê manter a mesma mentalidade de 1962 quando o seu próprio herói, aquele que você defende a identidade conservada a todo custo, vive trocando de rosto?

Tentei responder isso ao senhorzinho de selfie dentro do carro com óculos escuro e um filtro do Bolsonaro. Ele me chamou de esquerdista e me bloqueou do Facebook. Tudo isso por causa da Billie Eilish, que meteu uns “hums” junto da música.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s