O que a conturbada semana para a imprensa brasileira nos mostra?

Na terça-feira, 11 de fevereiro, ocorreu mais uma sessão da CPMI das Fake News. Uma comissão formada no Congresso para avaliar as notícias falsas divulgadas com fins políticos. O tema foi bastante discutido em 2018, em meio a eleição presidencial quando a Folha de S. Paulo noticiou o uso de disparos no WhatsApp por empresários para a campanha de Jair Bolsonaro.

À esquerda a jornalista Patrícia Campos Mello. Na direita Hans River do Nascimento em depoimento. Foto: Divulgação.

A matéria foi escrita pela jornalista Patrícia Campos Mello que a partir desse momento passou a ser alvo tanto de críticas quanto de linchamentos por parte de apoiadores de Bolsonaro e pessoas que, de modo geral, já não confiavam na grande mídia.

Patrícia voltou a ser alvo de linchamento virtual quando na CMPI, Hans River do Nascimento, ex-funcionário da Yacows, empresa de marketing digital citada na matéria, insinuou que a repórter teria oferecido favores sexuais em troca de informação. Hans ainda disse que não sabe como a Folha chegou a ter acesso ao processo trabalhista que ele promovia.

A Folha fez uma lista mostrando ponto a ponto as mentiras que Hans teria falado em seu depoimento, mostrando provas e evidências disso. A Abraji também escreveu uma nota sobre o caso da jornalista Patrícia Campos Mello. Vários profissionais da comunicação, com destaque para as mulheres, se posicionaram em solidariedade para com a colega.

Foi assassinado o jornalista investigativo Léo Veras. Foto: Reprodução/TV Record.

Perda

Na quarta-feira, dia 12 de fevereiro, foi assassinado o jornalista Lourenço Veras, profissional do Porã News que cobria a disputa do narcotráfico entre Brasil e Paraguai. Lourenço, mais conhecido como Léo Veras, já vinha recebendo ameças de morte. A Associação Brasileira de Jornalistas (Abraji) publicou uma nota exigindo esclarecimentos do caso.

Léo Veras era conhecido por suas denúncias ao crime organizado e investigava o Primeiro Comando da Capital (PCC). Veras foi morto com ao menos doze tiros. Vários jornalistas lamentaram o ocorrido e enviaram condolências à família dele. O presidente do STF Dias Toffoli se pronunciou sobre o caso.

Adriano da Nóbrega era apontando como o possível chefe do Escritório do Crime e foi morto pela polícia. Reportagem da Veja aponta possíveis agressões antes de sua morte. Foto: Divulgação.

A morte do miliciano

Por fim, nesta sexta-feita, dois jornalistas da Veja foram detidos pela Polícia Militar na Bahia. Eles estavam investigando a morte do miliciano Adriano da Nóbrega, foragido, encontrado na casa de um político do PSL e morto. A matéria de capa da Veja desta semana foi sobre as imagens obtidas pela revista que indicam uma execução, e não uma morte decorrente de uma troca de tiros como foi a versão oficial.

Os jornalistas da Veja Hugo Marques e Cristiano Mariz precisaram parar o carro em que estavam e, mesmo identificado-se para as autoridades, tiveram o gravador com áudios de entrevistas confiscado e precisaram ir para a delegacia. Felipe Santa Cruz, presidente da Ordem dos Advogados (OAB) repudiou a ação.

Para discutir e comentar esses episódios, o Converge conversou com Cláudia Bredarioli, doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), jornalista com vinte anos de experiência em comunicação corporativa institucional e também professora universitária na ESPM-SP. Veja a seguir:

CONVERGE: Você acredita que cada vez mais seja necessário uma maior união e solidariedade entre os jornalistas visto os linchamento virtuais aos profissionais, por vezes incentivados até por políticos?

Cláudia Bredarioli: Sim, a questão da solidariedade entre os jornalistas está cada vez mais necessária, não só pelo dito “linchamento virtual”, mas também em função das questões que temos visto de sonegação de informação, outros meios de informação, muitas vezes por meio de redes sociais, por fake news, disseminando informação imprópria de dados que estão se proliferando no Brasil, EUA e outros lugares. Os jornalistas precisam checar a objetividade, checagem dos fatos, informações, o coração do jornalismo.

CONVERGE: Como os linchamentos virtuais, a desconfiança exagerada, atrapalham o meio jornalístico e seu trabalho?

Cláudia Bredarioli: Ela não gera desconfiança, esse linchamento gera empatia do público para saber o que está acontecendo e para de fato buscar as informações. Posso estar sendo otimista demais, mas acho que quando rebatemos informações falsas com veracidade, fatos e esclarecimentos, estamos prestando um serviço para a sociedade, é assim que o jornalismo atua na sua parcela mais cidadã, na construção da democracia.

CONVERGE: Na CPMI das fake news vimos um caso de calúnia e machismo com a jornalista Patrícia. Como você avalia que o machismo, misoginia, se relacionam com os setores que atacam a imprensa?

Cláudia Bredarioli: O caso da Patrícia Campos Mello eu acho muito triste. De fato houve muito machismo, misoginia, e ela rebateu com provas, vídeos e fatos. Ela foi bastante feliz nas respostas que deu, e acho que percebemos no caso dela isso que eu disse agora há pouco: a resposta dada por ela e seus seguidores, pelos compartilhamentos que foram conquistados a partir das manifestações que ela trouxe para confirmar que ela não estava agindo de má-fé e sendo vítima de machismo, isso tudo reforçou a postura dela. Ao contrário do que tinha sido dito inicialmente.

Claro que existe esse tipo de recurso misógino para tentar coagir uma mulher, jornalista, trabalhando no jornalismo investigativo, algo que ela faz muito bem. Essa questão da coação, que também aconteceu na Bahia, nós vemos coações, digamos assim, oficiais. Uma por parte de pessoas do legislativo, outra da polícia, mas de gente que quer minimizar o trabalho dos jornalistas. Que é diferente do que aconteceu no Paraguai, que é uma coação resultado de uma ação de bandidos, criminosos que executaram o jornalista na frente da família dele.

CONVERGE: Na Bahia, dois jornalistas da Veja foram detidos e tiveram até o gravador confiscado. O quão preocupante é isso?

Cláudia Bredarioli: Eu acho que o mais grave é essa coação, a questão de você tentar inibir o trabalho de um repórter que está investigando algo. Ali isso realmente foi dado, né? Os repórteres estavam na cidade, muita gente sabia que estavam lá, é uma cidade pequena, as pessoas ficam sabendo quem é de fora, e a polícia foi atrás deles. Não foi uma blitz de rotina, nada disso.

É muito preocupante, lógico, porque não sabemos até que ponto que as referencias oficiais, as pessoas que estão trabalhando nesses setores, podem ou não interferir no trabalho que os jornalistas fazem. Na verdade não poderiam se levarmos em conta a liberdade de imprensa, pois isso é proibido constitucionalmente. Jornalista tem que ter liberdade não apenas para apurar, como para escrever e veicular aquilo que ele acha que faz sentido.

CONVERGE: Para você, qual é a expectativa para o meio jornalístico? Melhora? Ou tem uma visão mais pessimista?

Cláudia Bredarioli: Não diria que tenho uma visão pessimista, mas tenho uma visão preocupada para o que vai acontecer. O que vemos que ocorre no mundo é um movimento que tenta de certa forma coagir a ação do jornalista, e assim se vai contra a construção de uma sociedade democrática. Se pensamos em pluralidade de vozes, discussões de questões, em evoluirmos como sociedade, precisamos do jornalismo para tudo isso.

E se o jornalista não consegue fazer seu trabalho, essa evolução se coloca sob ameaça. Eu não sei se sou tão pessimista de forma a achar que isso vá acontecer tão rápido, mas acho que vivemos sim sinais de preocupação. Precisamos prestar atenção no que acontece no entorno.

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