“Recusou apertar minha mão com medo de pegar coronavírus”, nipo-brasileiro relata caso de xenofobia

O surto de coronavírus, uma nova doença que começou na China, causou grande discussão e alerta entre as pessoas e autoridades. Casos desse novo vírus foram confirmados em outros países e a mídia deu uma grande cobertura sobre o caso, além de informar maneiras de como se proteger dele.

Muito também se especulou e debateu sobre a origem do coronavírus. Algumas suposições foram de que a contaminação tenha começado por um prato com morcego ou cobra, já que o vírus teria origem animal e teria sofrido uma mutação que o permitiu infectar humanos.

Uma matéria da Superinteressante de 2004 sobre a SARS já falava sobre a propagação de doenças por conta do consumo de certas carnes e da maneira como elas são mantidas. Uma questão bastante importante e relevante.

Mas ao mesmo tempo asiáticos e descendentes de povos orientais começaram a relatar casos de xenofobia. Para eles, certas pessoas estão usando o contexto do coronavírus para emitirem falas intolerantes e injúrias raciais. O colunista Leandro Sakamoto e Sisi Liao do canal “Pula Muralha” se posicionaram a respeito disso.

Um caso que repercutiu muito foi o vídeo de uma idosa no metrô. Ela xinga e ofende uma estudante de Direito nipo-brasileira a chamando de “chinesa porca” e ainda, como consta na matéria do G1, xinga diferentes povos asiáticos, portugueses e diz que “africanos não são sujos porque foram escravizados”.

Post em que o jovem afirma ter sido alvo de racismo e xenofobia. Foto: Reprodução.

Outra pessoa que denunciou ter sido alvo de intolerância foi Leonardo Yamaguti, 18 anos, natural de Mato Grosso e que atualmente trabalha em uma loja de tecnologia com um amigo.

Em seu relato, ele afirma que um cliente recusou apertar sua mão e disse: “Você não é chinês não né? Não quero pegar corona vírus”. De acordo com Leonardo, o homem em questão falava sério sobre saber se ele era chinês.

A denúncia foi feita em um post no Facebook que atualmente já conta com mais de 4700 reações, mais de 3 mil comentários e cerca de 2 mil compartilhamentos.

Leonardo tem 18 anos e trabalha em uma loja de tecnologia.

Yamaguti concedeu uma entrevista para o Converge para falar sobre o ocorrido e a repercussão de seu post:

Converge: No post você diz não se importar com algumas piadas com o fato de ser descendente de asiáticos, poderia falar por que não se acha que esses comentários mereçam muita bola?

Leonardo: Eu de fato não dou bola para comentários tirando sarro das minhas características físicas e descendência oriental. São comentários infantis que na maioria das vezes vem de jovens-adultos, no intuito de serem “engraçados”. No entanto, a comunidade nipo-brasileira já está saturada desses comentários. Acredito que o levante da cultura oriental pelo mundo acarretou no aumento do ódio das pessoas racistas e xenofóbicas, que aproveitam a cultura humorística do brasileiro de fazer “piada” sobre os asiáticos para discriminarem e constranger os mesmos, a fim de alimentar seu próprio ego xenofóbico.

Converge: Você já se sentiu discriminado antes da onda do coronavírus?

Leonardo: Já sim, foram incontáveis as vezes que já fui descriminado na rua apenas por ter olhos puxados. É muito frequente comentários tirando sarro ou compararando a algum influencer oriental, como se fossemos todos exatamente iguais. Foram muitas as vezes que me chamaram de vendedor de pastel, ou então que estava roubando empregos ou vagas de universidades, como se fosse um estrangeiro.

Converge: Você acredita que sim, o coronavírus abriu um contexto para as pessoas se mostrarem preconceituosas e xenofóbicas com asiáticos?

Leonardo: O surto do coronavirus nós provou a ignorância e preconceito generalizado que existe contra a comunidade oriental no Brasil, uma vez que, independente da nacionalidade, descendentes de asiáticos estão sofrendo com piadas de mal gosto e até discriminação racial em locais públicos, como o caso da Marie Okabayashi que recentemente foi vitima de comentários racistas enquanto estava em um metro. O corona virus abriu portas para racistas e xenofóbicos discriminarem a população oriental e descendentes, dando como desculpa a prevenção e medo de se contaminarem com a doença, quando na real o principal foco, é ofender.

Vídeo de idosa fazendo declarações racistas já conta com mais 18 mil compartilhamentos no Twitter. Foto: Reprodução.

Converge: Houve casos racistas semelhantes após ao relatado em seu post?

Leonardo: Houve vários, a prova disso está nos comentários da minha publicação, onde é possível encontrar vários comentários que comprovam a situação na qual nós somos obrigados aturar.

Converge: Você esperava a repercussão que o seu post teve no face?

Leonardo: Eu já imaginava que teria certa atenção, por ser um tema recente e muito delicado, mas o alcance de compartilhamentos e comentários foi surpreendente, não imaginava receber tanta atenção.

Montagem com alguns dos comentários do post original. Foto: Reprodução.

Converge: Quais foram os comentários e mensagens que você recebeu depois? Foram mais de apoio ou mais de crítica? E quais delas você acha que mais se destacaram?

Leonardo: Os comentários de ódio e criticas foram os dominantes na publicação. Infelizmente a nossa causa não é levada a serio e acaba se tornando motivo de piadas xenofóbicas, como citei na publicação, chegou ao ponto em que saturou esse tipo de brincadeira. Não tem mais graça, sem contar que ultimamente, na maioria das vezes, o comentário não vem na forma de brincadeira, mas sim para ofender.

Converge: As reações que as pessoas tiveram ao seu post foram as que você esperava?

Leonardo: Foram sim, esperava ter muito comentário idiota, tirando sarro da publicação, sendo julgado como ”frescurento”. Mas também recebi mensagens de apoio, por pessoas empáticas que entenderam o real motivo da publicação.

Montagem com alguns dos comentários do post original. Foto: Reprodução.

Converge: Você acha que, antes do coronavírus, as pessoas já tinham preconceito ou racismo com asiáticos?

Leonardo: Isso com certeza. Sempre foi muito comum se deparar com comentários ofensivos relacionados a nós, principalmente o pensamento generalizado de que todo olho puxado é japonês, ou que nos alimentamos de carne de cachorro e insetos.

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