Coronavírus como fator político

Qualquer notícia inusitada do cotidiano tem potencial de ser interpretada por quem recebe a informação. Seja uma partida de futebol que acaba em briga, ou uma tragédia como a de Brumadinho, passando por eventos que protagonizam conversas no Brasil e no mundo, todo fato que sacode a trama lineal dos acontecimentos é exaustivamente discutido por milhões de pessoas, especialmente nos dias atuais em que a Internet permite uma circulação instantânea de informações.

No último mês, a epidemia de coronavírus com epicentro em Wuhan cobriu jornais do mundo inteiro. Após um período de análise do fato, em que os jornalistas estiveram focados em descobrir qual era o potencial letal e de contaminação do vírus e quantas pessoas estariam em risco, começou um período de especulação sobre a real intensidade do problema, que é evidente tanto na mídia mainstream, que dá espaço a estes artigos de opnião em conjunto com manchetes mais objetivas, quanto na mídia alternativa, desde o Twitter até canais populares ou conspiratórios no Youtube, passando por fórums públicos e anônimos.

Uma coincidência oportuna que pode ter facilitado a especulação em torno do vírus e o interesse do público em informações alternativas foi a estréia recente do seriado Chernobyl, sucesso de público e crítica. A série, que atingiu um número enorme de telespectadores em todo o mundo, reconta o acidente nuclear a um público que em sua maioria havia esquecido grande parte desta história. Em especial, o foco em contá-la desde a perspectiva de pessoas qualificadas para seus trabalhos, mas despreparadas para a situação de emergência e restringidas por um governo autoritário e controlador da informação disponível, ecoou perfeitamente no desastre atual ocorrido em um país ditatorial e restrito, que como a União Soviética dos anos 80 pode hesitar em mostrar suas fraquezas para o mundo, mesmo que necessite de ajuda urgente para um problema que pode afetar toda a humanidade.

No entanto, a mídia mainstream lida com seus próprios viéses ideológicos quando mostra ao mundo a face do problema. Em especial, ao menos no que se refere à mídia europeia e norte-americana, se pode analisar seus artigos segundo a ideologia política dos jornais de modo a entender melhor o porquê da diferenciação na análise dos fatos. Para publicações de tendência à esquerda, se pode evidenciar confiança na capacidade do estado chinês em resolver o problema, o que se pode observar na matéria ´How to survive an Outbreak`, do New York Times (https://www.nytimes.com/interactive/2020/02/07/world/asia/wuhan-china-life.html) , ou então um foco em combater as possíveis reações racistas a chineses e asiáticos pelo mundo. Em geral pregam pela calma e fé nas autoridades, o que condiz com sua defesa do papel do Estado.

Já a midia inclinada à direita, e seus leitores ou apoiadores, noticia os fatos relacionados ao vírus com um foco mais desconfiado, duvidando da capacidade dos governos e agências de saúde globais como a OMS. Isso se relaciona à rejeição tanto à ONU quanto a governos de esquerda como o chinês pelas direitas globais. Sendo assim, seus artigos de opnião podem conter mensagens de um calibre mais conspiratório, como por exemplo um artigo publicado pelo jornal direitista espanhol La Razón, em que se denuncia que cemitérios da região de Wuhan estaríam queimando cadáveres em número muito maior do que a noticiada cifra de mortes pelo governo (https://www.larazon.es/actualidad/20200205/hr3r4bvdpvagnffcngq2myh5fy.html), ou canais de Youtube mostrando supostas projeções de contágio exacerbadas.

Sendo assim, se pode saber muito sobre tendências políticas de diferentes canais midiáticos ou de seus leitores apenas pela análise dos fatos do dia à dia. A importância de pensar criticamente e analisar fontes dos dois lados do espectro ideológico se torna cada vez mais essencial em um mundo dividido por opniões, já que cada evento pode esconder interpretações, nuances e formas de análise. Resta apenas manter uma postura cética e tomar as precauções necessárias, e a ação do tempo poderá nos dizer qual ponto de vista foi o mais correto. O coronavírus será o novo Chernobyl, ou provará, de uma vez por todas, a capacidade da China em vencer problemas emergenciais?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s