The Good Place acabou, e o universo das sitcoms jamais será o mesmo

Quando os usuais créditos de encerramento de The Good Place foram exibidos na transmissão da National Broadcasting Company (NBC) pela última vez após 53 episódios, o misto de sentimentos do público deve ter variado entre “realização total” e o “terrível vazio existencial”. A comédia situacional disfarçada de aula de filosofia durou quatro temporadas, e acompanhava as desventuras da desprezível personagem terrena de Eleanor Shellstrop (Kristen Bell), que após morrer, acaba por “engano” no Lugar Bom, e precisa de sustentar uma elaborada farsa para evitar ser jogada ao Lugar Ruim, com a ajuda do professor de filosofia e sua alma gêmea do paraíso Chidi Anagonye (William Jackson Harper), que não se sente muito confortável em esconder tamanha mentira do “arquiteto” do Lugar Bom, Michael (Ted Danson).

Pôster da 4ª temporada de The Good Place — Reprodução: National Broadcasting Company (NBC)

A premissa bem peculiar traz consigo um leque de possibilidades de se fazer piada, comum no gênero das sitcoms, as comédias de situação. No cerne de sua definição, a sitcom nada mais é que uma série de humor baseado em ocasiões da rotina de “personagens comuns”, seja no trabalho, em casa, no colégio, na faculdade, etc. Algumas das peças seriadas mais conhecidas da história da TV seguem essa fórmula, cada qual com o seu charme de fazer as coisas. Big Bang: A Teoria (CBS), Um Maluco no Pedaço (NBC) e Chaves (Televisa) são algumas das mais conhecidas, num âmbito geral.

Apesar das similaridades no gênero, cada série tem suas particularidades. No entanto, ao contrário dessas obras e de muitas outras, The Good Place tem algo em si que provavelmente, jamais foi feito – e se foi feito, não possui a mesma maestria da série de Michael Schur (Brooklyn 99, Parks and Recreation, The Office).

Cena de The Good Place — Reprodução: National Broadcasting Company (NBC)

Abordar tópicos complicados para o grande público por uma ótica nem tão conflitante têm sido uma tática usada com recorrência pelas sitcoms. Racismo, homofobia, consumo de drogas – só para citar alguns dos assuntos – geralmente são usados como pano de fundo em episódios dessas séries.

No entanto, o formato desse conteúdo, as histórias precisam precisa ser amarradas em até 20 minutos de episódio, retornando para o status quo ao final, como se nada tivesse acontecido, ainda que carregue um sentimento de triunfo e satisfação, graças aos desfechos positivos dessas histórias. Só que isso não acontece em The Good Place.

Como uma série dramática condensada em um quarto de hora, o “elefante na sala” faz parte da premissa principal: debater sobre perspectivas morais envolvendo a morte e o pós vida. E por incrível que pareça, tudo isso contrastando com a comédia sobre os mesmos assuntos. No papel, ver citações a nomes de filósofos como Platão, Sócrates e Kant na mesma medida que se tem referências a séries da cultura pop e Wrestling profissional pode parecer estranho, mas o criador da obra consegue casar de um modo brilhante.

Cena de The Good Place — Reprodução: National Broadcasting Company (NBC)

The Good Place, consegue distribuir a comédia e os ensinos da filosofia uniformemente ao longo de um episódio, além de explorar recursos de séries dramáticas raríssimos no gênero de sitcom, como ganchos e plot twists (meio que spoiler). E, uma das grandes diferenças da série para outras do nicho, é que o status quo, o “normal” da história está para sempre perturbado após um episódio. Os personagens tem motivações e um arco constante que provoca evolução a cada cena, e nada jamais é como havia começado.

Esse sentimento de progressão é bastante incomum para comédias, e se ele acontece, é de um modo muito, mas muito lento. E esses são apenas parte dos detalhes que fazem The Good Place ser tão especial. Em quatro temporadas de sua produção sob a bandeira da NBC e da distribuição internacional por parte da Netflix, a série revolucionou o universo das sitcoms, se tornando uma referência autoritária na “comédia pensante”. Claro que aqui não estamos negando os momentos tocantes e reflexivos em séries como Um Maluco no Pedaço, Big Bang: A Teoria e Chaves (Jesus, eu nunca superei Acapulco), mas, conseguir entregar isso de um modo regular nesse gênero é um feito – até agora – exclusivo de The Good Place. Ah, e tudo isso, sem risadas de fundo.

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