Jornalismo erra, mas mais do que nunca, continua fundamental

“O Caso Richard Jewell”, filme de Clint Eastwood que chegou aos cinemas brasileiros recentemente mostra como uma cobertura apressada e que visa apenas o lucro e o furo pode devastar a vida de um homem inocente. O filme é baseado numa história real. O tipo de história que já visto antes quando jornalistas cometem erros.  

Não é preciso ir até os Estados Unidos para ver um exemplo disso. No Brasil em 1994 ocorreu o caso “Escola Base” em que donos de uma escola e seus funcionários foram acusados de pedofilia e abuso de crianças. O caso teve grande repercussão na época na grande mídia, mas depois se descobriu que todos os envolvidos eram inocentes.

Créditos: Divulgação. O extinto Notícias Populares estampou a manchete “Kombi era motel na escolinha do sexo”. O jornal foi um dos veículos que foram processados depois por danos morais.

Um caso famoso também o de Judith Miller, uma das mais prestigiadas jornalistas do New York Times quando por volta de 2002 e 2003 publicou textos afirmando que o Iraque possuía armas químicas, o que mais tarde revelou-se falso. A ideia de que o país do Oriente Médio possuía armas tão mortais foi usada para apoiar o plano de guerra dos EUA na região.

Há histórias de jornalistas que não necessariamente acabaram ou tiveram potencial de acabar com a vida uma pessoa, mas que mentiram para seu público inventando fatos ou personagens: Jason Blair (New York Times), Claas Relotius (Der Spiegel), Janet Cooke (Washington Post) e Stephen Glass (The New Republic).

E ainda, claro, o puro erro humano não intencional, como no caso do El País ao divulgar para o mundo uma foto do então líder da Venezuela, Hugo Chávez, recebendo um tratamento contra o câncer em Cuba. A foto rapidamente circulou o mundo, até que foi descoberto que aquele na foto não era Chávez.

Crédito: Divulgação. El País errou ao divulgar a foto como sendo a de Hugo Chávez entubado.

Existe ainda o erro da mídia quando ela não distorce os fatos ou se engana a respeito de algo, mas quando sua cobertura acaba sendo prejudicial: o caso Eloá Cristina. Em 2008, Lindemberg Fernandes Alves invadiu o apartamento da ex-namorada, Eloá Cristina Pimentel, mantendo ela e a amiga Nayara Silva como reféns por quatro dias. O desfecho foi Lindemberg preso e condenado, Nayara com um ferimento no rosto e Eloá infelizmente morta.

Os questionamentos não foram apenas para a polícia e sua ação de resgate que terminou com uma das reféns sem vida, mas também para a cobertura midiática. Grandes jornais foram acusados de fazerem uma “espetacularização do crime”, o principal exemplo disso apontando foi a entrevista ao vivo que Sonia Abrão, na RedeTV, fez com o criminoso e a vítima.

Isso acarretou em uma ação contra a emissora movida pelo Ministério Público Federal em São Paulo. O motivo da ação foi que a entrevista citada, e outra que fora gravada, teriam interferido na atividade policial e colocado em risco a vida dos envolvidos do caso.

O erro, a prevenção e o reparo

Edson Capoano, pesquisador do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) da Universidade do Minho, em Portugal, trabalhou por mais de três anos na TV Cultura e por quinze anos atuou como professor de Jornalismo na Universidade Mackenzie e na ESPM. Para ele, há razões que levam as pessoas a perderem a confiança no jornalismo:

“Vários motivos podem fazer com que consumidores de jornal percam a confiança, como informações erradas, falta de provas nos textos e nas argumentações, da mesma forma que há vários para confiar: dar os dois lados da história, as fontes das informações, conteúdo claro e a explicação dos nossos processos de trabalho com checagem de dados e a maneira como decidimos as pautas”.

Para Capoano, talvez não só mostrar como é processo jornalístico quando bem feito, seja necessário mostra-lo quando se erra: “É digno, demonstra que pelo menos teve a intenção de fazer direito, admitindo o erro a gente consegue manter a credibilidade para o leitor quando mostramos os motivos pelos quais erramos e que não foi intencional afetar ou atingir algum ator social que foi difamado”.

Crédito: Divulgação. Print tirado de pesquisa do Google sobre erratas cometidas por veículos da Rede Globo em que seus profissionais reconhecem quando erraram e corrigem as informações.

O espanhol El País quando divulgou erroneamente a foto de uma pessoa internada como sendo Hugo Chávez mostrou todo o processo e onde erraram na apuração quando decidiram divulgar a imagem.

“Eu acho que a gente tem métodos jornalísticos, e eles falham. Alguns não dão conta da variedade de coisas que nós cobrimos”, complementa Capoano que destaca ainda o tempo curto e a e necessidade de fazer as coisas de modo rápido afetam na produção ao prejudicar a checagem e verificação dos fatos.

O pesquisador afirma ainda que é preciso se ter claro o que o jornalista quer entregar para seu leitor. Ele precisa ver o que quer informar e qual o método que irá utilizar para fazê-lo. Tendo-o claro, é mais fácil de efetuá-lo, embora erros ainda possam ocorrer.

Ricardo Chapola, editor-chefe da Quebrando o Tabu, com passagens na Globo e na Veja, além de colaborações para o Nexo e o Intercept BR, reconhece que ocorrem erros no jornalismo, dos pequenos como erro de ortografia, concordância, até os mais graves, como os de apuração. Algo que entra na questão do método e do processo:

“Existem critérios básicos que formam o bê-a-bá do “fazer jornalismo”, entre eles o de ouvir todos os lados da história e o da checagem, que nunca é demais, e assim a gente entrega uma reportagem mais honesta, sem pontas soltas e também é desse jeito que diminuirmos a chance de errar”.

Chapola ainda lembra que um ponto importante nessa questão é que o jornalista é um ser humano e, como qualquer outro, está sujeito a erros. Jornais e veículos de comunicação de um modo geral buscam não cometer deslizes, pois sabem que o valor deles é a credibilidade que possuem.

O caso Jayson Blair, que aconteceu próximo ao episódio das “supostas bombas no Iraque”, foi um choque tão forte para o New York Times que culminou na queda de seu editor-executivo e seu chefe de redação.

A crise de credibilidade era enorme, mas o jornal se recuperou de forma espantosa, numa reformulação que contou com a criação de um programa para avaliar regularmente o trabalho feito e a implantação de um ombudsman.

Crédito: Wikipedia Commons. Fachada do edifício do The New York Times.

Uma das estratégias criadas para aperfeiçoar o reconhecimento de erros e também fortalecer a confiança com o público, o ombudsman é um profissional que ouve as reclamações e sugestões dos consumidores e conscientiza seus superiores sobre elas, buscando, de forma imparcial, encontrar soluções que agradem ambas as partes. O primeiro dos grandes jornais a adotá-lo foi o Washington Post em 1970.

“O ombudsman é importante porque geralmente é uma pessoa de fora e que é eleita para apontar erros que, eventualmente, nem repórteres e nem editores detectam”, explica Chapola. “Quando a gente menos espera, sempre há um novo olhar a ser lançada sobre o mesmo tema, uma nova perspectiva que os outros profissionais não tiveram”.

Em 2017, o New York Times eliminou a posição de ombudsman numa série de cortes, alegando que os seguidores na internet poderiam fazer o mesmo trabalho e até melhor ao fiscalizá-los. Tal afirmação gerou debate entre os profissionais e estudiosos.

A importância do jornalismo

O jornalismo serve para informar as pessoas. E é importante que as informe de forma correta, ou seja, com fatos e informações verdadeiras. Mas não apenas para simplesmente acrescentarem conteúdo à suas mentes, se fomos seguir o pensamento sobre esfera pública de Jürgen Habermas.

De forma bastante resumida, podemos dizer que o filosofo Habermas vê o jornalismo como parte importante da democracia e da sociedade, já que são os meios de comunicação que informam as pessoas sobre fatos relevantes, denunciam coisas graves, e assim os indivíduos podem deliberar a respeito do que foram informadas e decidir como proceder.

Por isso as pessoas buscam se informar quando há um debate sobre uma lei polêmica, seja a respeito de maioridade penal, aborto, criminalização da homofobia, etc.

Em 2018, a grande mídia precisou concorrer com as fake news na corrida para informar a população dos fatos. Além disso, ela também foi alvo de críticas e desvalorização em várias partes do mundo por políticos, inclusive no Brasil. Destaque para o então candidato a presidência da República, Jair Messias Bolsonaro.

Crédito: Pixabay. Imagem ilustrativa.

Em 2019, uma pesquisa da Ipsos apontou que 65% da população brasileira confiam na imprensa. O Datafolha registrou no mesmo ano uma confiança de 69% das pessoas (21% confiam muito e 48% um pouco). Mas também registrou aumento na desconfiança de 26% para 30% com relação há meses atrás. E é fato que há pessoas que dizem simplesmente não acreditar nos jornais.

“Só consigo lamentar profundamente por essa fase pela qual estamos passando, mas tento ser otimista, uma hora todo mundo vai sentir a necessidade do jornalismo, saber de qual fonte eles podem beber para se informar”, afirma Chapola. “Por enquanto está tudo muito nebuloso, até por culpa dos próprios veículos que não sabem ao certo como se posicionar diante disso, mas vai pintar uma saída”.

O perigo de deslegitimar

Edson Capoano faz ainda um alerta para as tentativas de deslegitimar tirar a credibilidade do jornalismo:

“Hoje ocorre um fenômeno em que atores sociais, no Brasil e no mundo, tentam deslegitimar a atividade jornalística, colocando nosso trabalho em questionamento”, continua o pesquisador, que afirma ficar triste ao ouvir pessoas dizendo que o jornalismo não é confiável. “Isso tem a ver com a máquina de produção de fake news que atente interesses políticos e que ajudam a difamar nosso ofício”.

Para Capoano, o que também contribui para uma desconfiança de leitores para com o jornalismo é o não conhecimento dos processos.

“As pessoas não entendem como fazermos jornalismo, não conhecem os processos e disso a dúvida vira desconfiança, podem achar que nosso trabalho não é tão sério quanto deveria”, explica o pesquisador.

Ele ainda alerta: “E nisso, quem ganha com o discurso contra a imprensa é aquele que é questionado por ela, pode ter certeza, quando vemos a mídia “apertando” muito certos atores sociais, são esses que estão contra-atacando, criando um ambiente de separação”.

Tanto Ricardo Chapola quanto Edson Capoano concordam que este ano, em que haverão as eleições municipais, a imprensa terá que trabalhar muito para correr atrás, cobrir e desmascarar notícias falsas.

“Vai rolar muito mais fact-checking, sem falar em reportagens que abordem, por exemplo, a ideia de um eventual candidato contratar robôs para espalhar fake news. Vamos usar o know-how de eleições passadas para aprimorar nosso trabalho e levar ao público temas que estão nas entrelinhas da política”, finaliza Chapola.

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